31 de dezembro de 2010

Seguir em frente.

Mais um ano novo que está à porta. É apenas uma data, um dia como os outros 365 (6). Mas é também a possibilidade de parar para pensar, recomeçar ou continuar. Ou isso tudo ao mesmo tempo. Não faço lista de resoluções, apesar de gostar de listas. Ajudam-me a estruturar pensamentos e organizar ideias e tempo. Neste fim de ano, apenas peço saúde e forças para continuar. A companhia dos meus e o seu bem-estar, assim como o de todas as outras pessoas. Nenhum homem é uma ilha e todos precisamos da ajuda das asas dos outros para conseguirmos voar.

Sejam felizes, façam por isso. Abracem-se, amam-se, beijem muito. Sorriam ainda mais, chorem o que for preciso.

Bom 2011 para todos. Que vos seja suave.

Agora é recomeçar.

Vai, ano velho, vai de vez,
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um,
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.
Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.

Vem, Ano Novo, vem veloz,
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nossso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso,
e sacia em nós a fome
- de utopia.

Vem na areia da ampulheta com a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se
se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.
Entre flores de urânio
é permitido sonhar.

Affonso Romano de Sant'Anna

29 de dezembro de 2010

Rescaldo.








O melhor do meu Natal?! As pessoas. Aqueles que mais amo, os amigos verdadeiros. Foram eles os meus verdadeiros presentes. Embrulhar o cavalete para a A. pintar com o meu pai, ouvi-lo suspirar de cada vez que o mandava estar quieto, que assim não conseguia colar a fita-cola. As compras de última hora com a Micas aka my mum, a correria no supermercado, o carrinho a abarrotar de mercearias e afins, que davam para alimentar um batalhão. A mesa cheia de gente, os mesmos de sempre. A família alargada que apareceu para uma visita, para um abraço e um sorriso. Os sabores da memória que se repetem à mesa, todos os anos. A "chegada" do Pai Natal, porque a A. ainda merece que se perpetue a magia. A carinha de espanto da A. ao ver todos os presentes em frente à lareira, ouvi-la perguntar o qui cherá?!, de cada vez que pegava num embrulho e um obrigada, muuuuito obrigada, com um sorriso de orelha a orelha sempre que desvendava o mistério escondido pelos papéis e laços coloridos. Dois anos e meio de gente, a nossa mascote. Os mimos. Ter a minha mana à minha beira uma semana inteirinha. Os abraços. A mesa sempre posta com doces, chocolates, frutos secos, bolachinhas e torrões até aos Reis. Saber que no Ano Novo vamos estar todos juntos outra vez, como todas as semanas, ao longo do ano. 

Coisas más?! Claro que há. Mas essas não cabem aqui e são para ser ultrapassadas, apesar de nunca serem esquecidas. Não se trata de hipocrisia, mas sim de sobrevivência. De saber que esta vida é demasiado curta para nos perdermos em minudências, a maior parte das vezes sobrevalorizadas.Temos a obrigação de proporcionar aos mais novos um crescimento sereno, embora nunca desfasado da realidade. Mais do que uma sucursal doméstica de um qualquer centro comercial, devemo-lhes dias felizes, muito colo, conversas verdadeiras e sinceras e a certeza de um abraço, sobretudo nos momentos mais difíceis.

28 de dezembro de 2010

Rua de Camões

A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe

Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho

Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva

Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto

E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça

O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia

Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão

A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes

Não olhes para os rapazes
que é feio.

Inês Lourenço -

21 de dezembro de 2010

Dias cheios.




É o que vos desejo a todos. Dias cheios de amor, paz, rabanadas, formigos, aletria, Bolo Rei, bolachinas de gengibre, Weihnachtsplätzchen decoradas para as crianças e não só, lareira acessa, mesa grande, todos aqueles que mais amam bem pertinho, muita luz e calor humano, conversas demoradas, noites prolongadas, filmes e mais filmes, um bom livro e uma manta quentinha, abraços apertados, sorrisos, lágrimas de alegria e nostalgia, pinhões, avelâs, nozes, amêndoas, torrões de chocolate, boa música, pijamas quentinhos e manhãs com cheiro a canela e Bolo Rei torrado com queijo da serra, a alegria de dar um presente às pessoas especiais da nossa vida e de partilhar o que temos com quem nada tem, espírito alegre e confiante, para assim melhor se viver esta quadra que é suposto ser de união, serenidade, comunhão, amor ao próximo e elevação interior. 



Um feliz Natal. Até já.

E a calma a aguardar lugar em mim.

18 de dezembro de 2010

Amigos-família.


Porto - Dezembro de 2010

Hoje o Natal chegou mais cedo aqui a casa. Pelo correio recebemos uma caixa enorme, cheia de presentes. Remetente: o Comandante. Lá dentro, um embrulho para cada um de nós, com respectiva etiqueta, o nosso nome e um segundo remetente: o Pai Natal.
Estupefactos, lá fomos abrindo um a um, que a ordem era que deviam ser desembrulhados antes de 24. Por entre muitos sorrisos, as lágrimas iam-nos escorrendo pelo rosto, sem pedir licença, num sufoco que nos apertava o peito e fazia transbordar a alma. O coração parou-nos a todos quando vimos o presente para o avô - uma moldura digital. Bastou um simples clicar no on, para vermos passar à nossa frente todo o filme de uma vida, de várias vidas - as de todos nós.
Hoje foi o dia em que vi o meu avô chorar em muito tempo. Nem durante a fase critica que passou (e ainda está a passar) o vi emocionar-se tanto. Ligamos ao Comandante para agradecer. Disse-nos que éramos como família para ele. Riu-se quando lhe disse que estava muito jeitoso naquela fotografia a bordo do navio, na sua época na Marinha Mercante, e retorquiu que ainda assim se conserva. Verdade. Apesar dos seus oitenta e muitos anos, de uma vida bem vivida, dos muitos desgostos que sofreu nos últimos anos e dos dias complicados que vive actualmente, continua com uma bela figura e um enorme coração. Avisou-me que chega a 28 e mandou-me colocar o espumante no frigorífico, para brindarmos ao novo ano que aí vem.
Do grupo de amigos do avô, cujas famílias se tornaram amigas da nossa, fazendo-a crescer ainda mais, já poucos são os que restam. Lentamente, vamos assistindo à partida de toda uma geração que me habituei a admirar e a gostar desde que nasci. Uma geração que contribuiu enormemente para aquilo que sou hoje. Por isso, é cada vez mais comovente ver a amizade entre o avô e o Comandante. Dura há 70 anos, parecem os marretas a falar sempre que estão juntos, mas não se podem ver um sem o outro.
Hoje o avô chorou como um menino. Falou-me dos amigos que partiram. Da época difícil em que se transformou para ele o Natal, das saudades que sente da avó. Das insónias e das noites que passa a fazer retrospectivas. Da condição em que se encontra, da dependência quase total. Do sofrimento que sente de cada vez que lhe dou banho ou lhe mudo a fralda e da gratidão, ao mesmo tempo. Da sorte que tem em ter-nos a todos por perto. Contou-me histórias que conheço de cor. Recordou nomes, lugares, peripécias. A casa do Comandante na Granja. As tainadas, os convívios de outrora.
Hoje foi o dia em que o Comandante, muito mais do que o presente que chegou pelo correio naquela caixa enorme, me deu a possibilidade de chegar mais perto do meu avô, de ver para além daquele transmontano casmurro, orgulho, posso-mando-e-quero. 
O reconhecimento mútuo e a amizade entre estes dois homens é também uma das grandes forças para continuarem a viver. Ao vê-los, é-me cada vez mais claro de que a família não se escolhe, mas que podemos ir criando a nossa própria família ao longo da vida. Os amigos-família, aqueles que estão sempre lá, até ao fim.

16 de dezembro de 2010

E assim acontece.










Há gerações inteiras que estão a partir. As nossas referências de sempre começam a sofrer grandes abalos e somos constantemente obrigados a enfrentar a nossa própria mortalidade.  Mas as obras de arte, assim como as almas grandes, são eternas.

15 de dezembro de 2010

Micocas*






Nestes últimos anos tenho (re)descoberto o gosto pela cozinha, pela gastronomia, pela alquimia dos ingredientes em combinações ancestrais ou inovações arrojadas, nem sempre bem sucedidas. 
Cresci numa família grande, de casas grandes e antigas, onde a cozinha e a mesa da sala de jantar assumem lugares preponderantes. Todas as refeições são, ainda hoje, um ritual quase sagrado. Os dias festivos e as datas especiais sempre foram sinónimo de mesa cheia, de comida e de gente à volta. 
O corrupio da vida actual coaduna-se mal com grandes produções culinárias, pelo menos no dia-a-dia, apesar disso não significar que não se possa comer bem e de forma equilibrada. Preocupa-me e entristece-me a falta de tempo para certas tradições, para o desfrute pleno e sereno dos pequenos grandes prazeres da vida.
Descobri que, nos dias que correm - e para além da paixão pela escrita, que me alimentará sempre (infelizmente, não literalmente, ainda!) - pouca coisa me dá tanto prazer como experimentar receitas, inventar novas fórmulas, ver os ingredientes ganharam vida e, dessa forma, poder alimentar aqueles que amo. É mais uma forma de criação, onde posso brincar com cheiros, sabores, cores, texturas, figuras geométricas ou mais abstractas. Enquanto estou entre tachos e panelas, o meu pensamento fica liberto para outros voos, esquecendo momentaneamente o mundo lá fora. É nessas alturas que aproveito para escrever mentalmente textos que não cabem aqui, que pertencem a um outro lugar, ao qual ainda só eu tenho acesso. Até ganharem a dimensão necessária que lhes permita fazerem o seu caminho, de pés bem assentes no chão e cientes da responsabilidade que carregam. Eu vou fazendo por isso.

* Uma parte dos presentes de Natal serão handmade, ao exemplo de anos anteriores. Mais do que o valor monetário, importa saber que foram feitos com muito amor e que me encontrarão inteira em cada um deles.

14 de dezembro de 2010

Só os grandes partem cedo demais.

A importância de um nome.

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontro
sem que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anosjunto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido
 
- Muriel, de Ruy Belo -

Não foi um bom ano.

Dar graças. Agradecer o termos chegado até aqui. Olhar para as coisas boas e tentar agarrar-me a elas. Fazer das coisas más aprendizagem para o futuro. O que não nos mata fortalece-nos. Crescer a cada dia, num amadurecimento sereno, que não nos destrua por dentro, nem nos transforme em pedras em forma de gente, amargas e insensíveis. Dar graças. Apesar do sofrimento, das doenças, da constante sombra da morte nas nossas vidas. Enaltecer os pequenos (grandes) momentos, as cumplicidades, os sorrisos, as lágrimas partilhadas. Abraçar muito e cada vez mais. Aprender a pedir e a aceitar ajuda. Estar-me cada vez mais nas tintas para o que os outros possam pensar sobre a forma como vivo a minha vida, as minhas escolhas e o caminho que tenho traçado. Acarinhar as pessoas realmente importantes, os amigos verdadeiros. Não perder tempo com quem não me quer bem ou me faz mal. Dar graças. Por, apesar de tudo, estarmos todos aqui, hoje; por mais ninguém ter partido. Confiar no amanhã e acreditar que a vida se resolverá sozinha, com a nossa ajuda e vigilância. Aprender a viver com a nova realidade que a vida nos colocou à frente e tentar minimizar, dentro do possível, a adaptação dos outros. Ter a consciência plena de que a morte não me assusta minimamente, mas que o desaparecimento daqueles que amo me aterroriza cada vez mais. Dar graças. Por tudo e tanto. Apesar do vazio, do cansaço, da frustração. Reconhecer aqueles com quem posso contar, que estão sempre presentes, incondicionalmente. Se há coisa que os baixos da vida nos permitem, é separar o trigo do joio. Traçar planos concretizáveis, a curto e médio prazo. O prazo longo fica para as conservas, que isto a vida dá muitas voltas e temos que estar atentos e disponíveis para a acompanharmos. Acreditar mais em mim mesma e nas minhas capacidades. Parar de apontar apenas os limites, que servem somente para que os tentemos superar. Valorizar cada vez mais os meus instintos, o meu 6º sentido. Dar o meu melhor, sempre. Ter a sabedoria necessária para saber que o meu melhor hoje é diferente do meu melhor amanhã. Não ter vergonha de fazer perguntas e responder sempre que sei a resposta. Não deixar de ser quem sou, apenas porque os outros dizem não faças isso, não vás por aí, não sejas assim. Fazer aquilo que me faz verdadeiramente feliz e realizada, mesmo não correspondendo às expectativas dos outros. Ganhar coragem para fazer algo que há muito desejo/planejo fazer. Dar graças. Por ser amada e por ter (quase) todos aqueles que amo à minha beira.

* Estou em contagem decrescente para o final do ano. Não por gostar especialmente do Reveillon ou por o ir festejar de forma efusiva, mas pela oportunidade de virar a página e começar de novo que um novo ano sempre nos dá. Gosto de páginas em branco.

11 de dezembro de 2010

"Públicos são os urinóis." *



- Douro, faina fluvial (infelizmente, sem a música de L. Freitas Branco) -







* Ou a constante interpelação ao espectador, única e singular, através de um diálogo contínuo de perguntas, inquietações e dúvidas mais ou menos existênciais, num tempo compassado pelo ritmo do pensamento.

E a paixão pelo cinema roubou-me ao desporto, como este me tinha roubado à boémia. De paixão em paixão, me fiz o cineasta que hoje sou e serei até ao fim. - Manoel de Oliveira.

102 anos, hoje. Inteiro. Até ao fim. 

10 de dezembro de 2010

O estado da nação.

A problemática colocação de um mastro
Para efeitos de enfeitar a avenida
Com balões dependurados, papelinhos coloridos
Trouxe o insólito sarilho à autarquia

É que esta edilidade

Agiu em conformidade
Com o gosto colossal de dois ou três

E anunciou com muito orgulho

Muita pompa e barulho
Que o maior mastro do mundo é Português
E anunciou com muito orgulho
Muita pompa e barulho
Que o maior mastro do mundo é Português

Os olhares que se pasmavam na escalada

Não alcançavam nem o meio, nem o fim
Para muitos aquele mastro é má contenção de gastos
Para outros, ele está muito bem assim

O fascínio é humano

E o que é grande em tamanho
Glorifica sempre muito quem o fez

Isto exalta uma nação

E há que dizê-lo com razão
Que o maior mastro do mundo é Português
Isto exalta uma nação
E há que dizê-lo com razão
Que o maior mastro do mundo é Português

São Pedro perdeu as chaves

Santo António, o menino
São João foi pelos ares
E para mal dos seus azares
Não encontra o cordeirinho

Santo António anda tonto

São Pedro diz que não vê
São João caiu redondo
Caiu do céu e deu um tombo
Tropeçou não sabe em quê

Inquieta a multidão na avenida

Assobia por tanto ter de esperar
Mas nem bairros, nem bairristas, nem as tais marchas previstas
O expectante espectador viu desfilar

Quem se entende com altares

Diz que os santos populares
Não desfilam pelas ruas desta vez

Que nos falte a tradição

Ao menos valha a emoção
Que o maior mastro do mundo é Português
Que nos falte a tradição
Ao menos valha a emoção
Que o maior mastro do mundo é Português

Recuperados os santos dos seus maus-tratos

Os responsáveis resolveram confrontar
Escorregando pelo mastro, perguntaram cá em baixo
Que país levantou alto este pilar

Para a porta do vizinho

Toda a gente varreu lixo
Quando a culpa nos aponta e envolve

E quando toca ao país

Patriota é o que diz
Que o maior mastro do mundo é Espanhol

El postito Portugués

Solo es grandito en pequenez
Pero el maior mastro del mundo es Español

São Pedro perdeu as chaves

Santo António, o menino
São João foi pelos ares
E para mal dos seus azares
Não encontra o cordeirinho

Santo António anda tonto

São Pedro diz que não vê
São João caiu redondo
Caiu do céu e deu um tombo
Tropeçou não sabe em quê



 * Ou a (cada vez mais difícil e rara) capacidade de nos rirmos de nós próprios e não nos levarmos tão a sério.

Coisinhas simples que melhoram os meus dias.



Muito mais aqui.

Custou-me tanto ver o do Michael Douglas até ao fim.

9 de dezembro de 2010

Avinha-te, abifa-te e abafa-te.



Com uma manta leve, deitadinha no sofá, a beber chá de limonete com Vinho do Porto e mel. Assim se tenta curar uma gripe indesejada e que não podia ter chegado em pior altura. Tenho tanto para fazer, valhamadeus.

A parte do abifa-te foi substituída por umas valentes gargalhadas ao ouvir os meninos do vídeo. Não dizem que rir é o melhor remédio?! Eu acrescentaria: para tudo.

Stile veneziano.


Johnny Depp, in The Tourist


6 de dezembro de 2010

Evitemos a morte em doses suaves.

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade. 


- Martha Medeiros -

30 de novembro de 2010

Gosto de quando estás feliz.

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

- José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão" -

* Parabéns Micas aka Mum :)

27 de novembro de 2010

Impressionismo minhoto.



Sequeiros - Novembro 2010

Fim de tarde.



Sequeiros - Novembro 2010

Paz das montanhas, meu alívio certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo, sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu desnecessário.

- Miguel Torga -

26 de novembro de 2010

A arte de ser feliz


 Roma - Julho 2010

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde, e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre as
plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Ás
vezes, um galo canta. Às vezes,
um avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

- Cecília Meireles -

25 de novembro de 2010

O amor é esta coisa tão estranha.

Podemos falar dos sentimentos, descrever
as impressões que nos ameaçam, e revelar o vazio
que se descobre na ausência um do outro: nada,
porém, é tão inquietante como a dúvida,
o não saber de ti, ouvir o desânimo na tua voz,
agora que a tarde começa a descer e, com ela,
todas as sombras da alma. É verdade que o amor não é
apenas um registo de memórias. É no presente
que temos de o encontrar: aí, onde a tua imagem
se tornou mais real do que tu própria,
mesmo que nada te substitua. Então, é
porque as palavras são supérfluas; mas como viver
sem elas? Como encontrar outra forma de te dizer
que o amor é esta coisa tão estranha, dar o que nunca
se poderá ter, e ter o que está condenado
a perder-se? A não ser que guardemos dentro de nós,
num canto de um e outro a que só nós chegamos,
sabendo que esse pouco que nos pertence é
tudo o que cabe neste sentimento.

- Nuno Júdice
-

Antes uma certa ilusão do optimismo,

do que o tédio do pessimismo, sobretudo quando este é militante e se transforma numa constante tentativa de bota-abaixismo.

24 de novembro de 2010

I know you know that I'll never let you go.



A Strangers diz que sabe a caneca de chá, manta quente e pensamentos circulares...eu acrescento que sabe a abraços apertados e àquela sensação de plenitude que se sente quando nos (re)vemos no olhar de quem amamos.

How do I let go?

Pôr a carroça à frente dos bois.

É a expressão que me ocorre quando me dizem que já fizeram à árvore de Natal, o presépio e todas as outras decorações alusivas à quadra; que já têm quase todos os presentes comprados, devidamente embrulhados e etiquetados; que já decidiram o menu para o jantar do Ano Velho e o almoço do Ano Novo; que já têm os modelitos comprados, escolhidos e separados para todas as reuniões familiares e de amigos que irão acontecer por esse Dezembro fora.
Há quem ache tudo isso eficiência, poder de organização, grande capacidade para aproveitar o tempo, etc e tal... a mim parece-me uma urgência desenfreada em antecipar uma época que deve ser vivida com calma, serenidade e não esquecendo os valores que lhe devem ser inerentes. Se já tremi ao ler este texto, ia tendo uma síncope quando soube de alguém que tem os presentes todos comprados desde Agosto, porque depois tem mais que fazer do que andar às compras. Juro que até percebo, mas Agosto? De lá até ao dia 24 de Dezembro tanta água corre debaixo da ponte. Ou talvez seja eu que não goste de saltar etapas, sobretudo se as achar importantes; talvez tenha um ritmo demasiado lento para esta sociedade desenfreada em que vivemos, que transforma o Natal numa maratona consumista, de caridadezinha oca, de aparências e de fotografias de famílias sorridentes, ao melhor estilo Kodak, daquelas que se degolam ainda antes de cozer o bacalhau ou trinchar o perú. 
(Ainda) gosto muito do Natal e de tudo aquilo que ele, na sua essência, representa. Sou católica por educação e tradição familiar, embora não seja "praticante", o que me deixa sem religião, mas com os valores que considero essenciais intocados. 
Gosto de enfeitar a casa, de colocar a estrela no topo da árvore, de pôr uma coroa na porta de entrada, de acender uma vela na coroa do Advento em cada domingo até ao Natal. Mas tudo a seu tempo, como acredito que deve ser. 
Normalmente enfeito a casa a 1 ou a 8 de Dezembro, para aproveitar os feriados, mas nunca antes do Advento começar. Na época do Colégio, comprava a coroa de Advento no Bazar de Natal (último fim-de-semana de Novembro) e ficava numa ansiedade até poder acender a primeira vela e aguardava depois impacientemente pelo final do dia 5 de Dezembro, quando colocávamos a nossa Nikolaus-Stiefel, para no dia seguinte a encontrarmos repleta de doces e frutos secos, que devorávamos ainda antes de cantar a Sankt Nikolaus Lied. Depois era ir riscando os dias até chegar a tão desejada Véspera de Natal, em que toda a família se reúne e onde os amigos não são esquecidos. 
Os presentes são para ir comprando, sempre depois do S. Martinho, para não haver confusões de santos, como dizia a avó A., não esquecendo no entanto, que não são o mais importante. Faz-me uma confusão tremenda ver montras e lojas decoradas logo no dia 1 de Outubro, quando ainda há gente a regressar da praia. 
As iguarias, doces e docinhos, são feitos no próprio dia (24), para estarem no ponto que todos gostam. À mesa misturam-se tradições portuguesas, alemãs, espanholas, brasileiras e anglo-saxónicas, num patchwork de vivências e ligações afectivas. Os presentes abrem-se à meia-noite de 25, as crianças primeiro, os adultos no fim. Lembram-se os que já partiram e deixa-se a mesa posta durante a madrugada de 25, para as alminhas, o Menino Jesus  e o Pai Natal poderem fazer um banquete. 
Na tarde de 25 recebem-se ou visitam-se familiares e amigos, saboreiam-se melhor os presentes recebidos, vêem-se filmes à lareira e prepara-se o perú para o jantar, servido com a inconfundível farofa da Micas aka my Mum. Pede-se baixinho, mas com muita força, para que no próximo ano estejamos novamente todos juntos e com saúde.

Sei que no dia 24 ainda vou estar a comprar e/ou embrulhar presentes, já é também uma tradição, pois falta sempre mais alguém ou mais qualquer coisa. Sei que a Micas vai stressar a fazer as rabanadas, pois, segundo ela, nunca ficam iguais às da avó A. . Sei que a Ji vai passar o dia a dizer que o bacalhau é pouco e não vai chegar para todos, mesmo que depois sobre um panelão intacto (ela nasceu para cozinhar para um batalhão!). Sei que vou desesperar a partir os torrões, a arranjar os pratinhos e tacinhas dos frutos secos, da fruta cristalizada e dos chocolates e que me vou sujar toda de canela ao enfeitar a aletria e o arroz doce. Sei que vou resmungar com os miúdos por não me ajudarem a pôr a mesa (porque vão estar a moer a paciência de quem estiver na cozinha e a roubar rabanadas quentinhas) e chamar insistentemente até um deles ir buscar mais cadeiras. Sei que vamos fazer a receita do Pai Natal com o avô, comer demais e jurar que tão cedo não tocamos em doces (pelo menos até à ceia!).


Sei também que é uma época muito difícil e triste para muita gente, pelos mais variados motivos. É nessas pessoas que penso quando estamos todos sentados à mesa, aquecidos pela lareira e pela companhia uns dos outros. Para mim é, antes de mais, um tempo de reflexão e de tomada de decisões, sobretudo com a perspectiva de um ano novinho em folha à minha frente.

23 de novembro de 2010

Das pequenas coisas.







Ir buscar uma amiga muito querida à estação. Tentar pôr a conversa em dia em dois minutos, numa urgência de quem sabe que o tempo vai ser curto. Ouvi-la resmungar do frio, ela que já se tinha habituado novamente aos 40º que se fazem sentir na costa do Índico. Levá-la a conhecer a minha cidade, mostrar-lhe a Batalha, Santa Catarina, o Rivoli, os Aliados, São Bento, a Sé. Fazer uma pausa no Guarani para recuperar energias e bater um papo mais profundo. Ir almoçar com a Micas (aka my Mum) e um tio da I., um senhor muito castiço. Continuar num passeio a três, fazer as praias, da Foz à Boa Nova, em Leça. Aproveitar a luz do fim de tarde sobre o mar. Regressar à Invicta, dar um pulo à Ribeira e entrar numa lojinha de souvenirs para a I. comprar uns postais. Vê-la sorrir como uma criança em véspera de Natal quando viu o Douro e as suas pontes. Terminar a tarde em casa dos avós, sentadas à mesa, com a lareira acessa, a tomar chá, como a avó A. tanto gostava. Levar a I. de volta à estação, dar-lhe um abraço com promessas de um até breve, algures por aí (quem sabe se da próxima vez não resmungamos dos 40º à sombra!).