Nos últimos dias, celebrámos todos os Santos, fizemos jantaradas no jardim com cheirinho a manjericos e a orvalhada ribeirinha.
Festejámos a vida, o prazer de estarmos juntos e os acrescentos da família com Cascatas Juninas.
Assámos sardinhas ao luar e comemos pimentos, broa e batatas com azeite até mais não.
Servimos caldo-verde tarde da noite, para espantar o frio e a humidade.
Lançámos muitos balões coloridos.
Cantamos "O balão do João sobe sobe pelo ar..."
Ficámos com torcicolos de tanto olhar para o céu.
Escrevemos mensagens para chegarem aos anjos (ou ao quintal do vizinho do lado).
Fizemos a festa e deitámos os foguetes - as canas apanham-se sempre no dia seguinte.
Celebrámos o amor de um João no dia do homónimo, apesar de dizerem que o António é que é o casamenteiro - e que ninguém diga que a colheita de 80 não é a melhor!
Terminámos os dias e as noites longas nos braços de quem mais amamos, pois só assim conseguimos seguir em frente e enfrentar os problemas que não se evaporam com o calor das fogueiras e dos abraços, apesar de se atenuarem consideravelmente.
Tomámos banhos de mar depois da meia-noite e passeámos na orla das ondas, afundando os pés na areia molhada.
Comemos farturas e cachorros-quentes em festas populares à beira-rio. Demos passeios pela cidade, dividimos lanhes, sorrisos e sonhos.
Fizemos planos, traçamos objectivos, concretizamos algumas etapas de projectos em andamento. Continuamos a sonhar.
Por tudo isto e muito mais, sei que tenho todas as razões do mundo para ficar e uma vontade/necessidade cada vez mais urgente de partir. Por mim, por eles. Para poder regressar para eles, inteira, intacta. Para me poder olhar ao espelho e me reconhecer, me (re)encontrar. Preciso de ir embora, ganhar mundo outra vez, voltar a olhar para mim e por mim - não de uma forma egoísta, mas por uma questão de sobrevivência. Se não estiver bem, não conseguirei ajudar quem quer que seja. Se me continuar a sentir vazia, oca, jamais conseguirei ser verdadeiramente feliz e, muito menos, fazer felizes aqueles que me rodeiam e que mais amo.
Tenho que voar novamente, sabendo sempre onde estão as minhas origens e o meu porto seguro. Talvez assim, um dia não muito longínquo, possa ser capaz de escrever algo semelhante. Quando esse dia chegar, não terei a sensação que adormeço e acordo todos os dias com uma desconhecida e sentir-me-ei bem comigo mesma outra vez.
Aí sim, estarei pronta para voltar para casa.
*Álvaro de Campos