26 de setembro de 2009

Era a fonte...


Ela é a fonte. Eu posso saber que é a grande fonte em que todos pensaram. Quando no campo se procurava o trevo, ou em silêncio se esperava a noite, ou se ouvia algures na paz da terra o urdir do tempo --- cada um pensava na fonte. Era um manar secreto e pacífico. Uma coisa milagrosa que acontecia ocultamente.  Ninguém falava dela, porque era imensa. Mas todos a sabiam como a teta. Como o odre. Algo sorria dentro de nós.  Minhas irmãs faziam-se mulheres suavemente. Meu pai lia. Sorria dentro de mim uma aceitação do trevo, uma descoberta muito casta. Era a fonte.  Eu amava-a dolorosa e tranquilamente. A lua formava-se com uma ponta subtil de ferocidade, e a maçã tomava um princípio de esplendor.  Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento perdeu-se e renasceu. Hoje sei permanentemente que ela é a fonte.
- Herberto Helder -

24 de setembro de 2009

O arsenal particular da minha memória...

Se a lembrança é feita pelo sentimento que acompanha as coisas vividas e se eu perco a cada dia essa capacidade de sentir, estou dia a dia desmembrando o arsenal particular de minha memória e, sendo ela que resgata em nós o sentido do sentir, crio-me na angústia – percepção vazia do sentimento – pois no andar da carruagem perderei também a sensação da falta de sentimento que manifesto agora de forma tão confusa.

Escrever é tentar apreender com os dentes a dor de uma sensação perdida.


- Rodrigo de Faria e Silva -

23 de setembro de 2009

22 de setembro de 2009

21 de setembro de 2009

Como quem escreve com sentimentos...

Estou sujeito ao tempo sou este momento
perguntam-me quem fui e permaneço mudo
o tempo poisa-me nos ombros em relento
partiu no vento essa mulher e perdi tudo

Já não virá ninguém por muito que vier
em vão esperei a rosa da minha roseira
quando um pássaro sai dos olhos da mulher
é porque ela é de longe e não da nossa beira

Resta-me um sonho desconexo e desconforme
Na haste da camélia que o vento quebrou
jamais a vida branca como ela dorme
Eu era essa camélia e nunca mais o sou

A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida

O mundo para além dessa mulher sobrava
tudo vida vulgar tumultuária e cega
o brilho do olhar equilibrava a chuva 
nas suas costas hoje toda a luz se apaga

Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar.
enfim não existia ou só ela existia
Asas que ela tivesse deixou-as queimar 
e tê-la-á levado estranha ventania 

Daqueles traços fisionómicos de pedra 
não quero já ouvir a voz que às vezes vem
na calma destacada por um cão que ladra
Não há ninguém perto de mim sinto-me bem

Cada casa que roço é escura como um poço
se sou alguma coisa sou-o sem saber
sossego solitário sem mistério isso
talvez tivesse sido o que sempre quis ser

As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi

A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada

- Ruy Belo -

A pedido de várias famílias!