21 de setembro de 2011

Late Summer












Neste Verão em que completei 31 Primaveras, apercebi-me que, apesar de os meus dias estivais já não cheirarem a urze, a oliveiras e a bosques de azinheira; apesar de o meu horizonte por estes dias já não se encher de montes, xisto e granito, como nos Verões da minha infância e adolescência, há coisas que não mudam nunca. O meu mar continua bravo e frio, repleto de algas que se acumulam no areal durante a maré vaza, Agosto continua a ser sinónimo de nortadas e marés vivas e passear à beira-mar é-me tão natural e essencial como respirar. Redescobri o rio que atravessa as nossas vidas desde sempre e ao longo do qual gosto cada vez mais de caminhar. Dou cada vez mais importância a coisas simples, como ir ao mercado comprar peixe ou fazer pizzas caseiras, com direito a farinha e água derramadas pelo chão da cozinha, muitas caras enfarinhadas e sorrisos rasgados ao ver as obras-primas saírem do forno. Olho para a minha Mary Mary, cada vez mais crescida e a perder as feições de bebé (se bem que para mim vai ser sempre aquela bebé bolachuda, de olhos esbugalhados cor de azeitona preta que veio para o meu colo com apenas 5 meses), para aquele bicho-carpinteiro irrequieto e imaginativo, para aquela criatura que passa o dia a ouvir Bob Marley e Selena Gomez (para mim, uma combinação impossível), para aquela pirralha que por vezes me consome a paciência e me gasta o nome em três tempos e apercebo-me que trago o coração fora do peito e que sou mãe (adoptiva) há 11 anos (onze!) - pois apesar de não me ter saído do ventre é minha filha do coração e gosto de pensar que carrega um bocadinho de mim e que tenho contribuído para a sua formação enquanto ser humano. Olho para ela e para a nossa pequena mascote e embebeço-me com a forma carinhosa com que se tratam, com a maneira protectora com que a Mary Mary nos ajuda a tomar conta dela, com as brincadeiras que inventam juntas e com as gargalhadas que nos enchem a casa e alma. 
Setembro começou com uma aventura na Rota da Luz, num dia suspenso no turbilhão de problemas que diariamente teimam em invadir a minha vida ultimamente e no fim-de-semana passado assistimos ao sorriso rasgado da J. enquanto caminhava até ao altar, onde a esperava um não menos sorridente JN. A J. é a mais velha da minha geração de primos, crescemos todos bem perto uns dos outros e ninguém conseguiu conter as lágrimas ao vê-la de braço dado com o JN, já casados, depositar o ramo aos pés de Nossa Senhora enquanto a Maria Ana Bobone cantava a Avé Maria. Foi uma cerimónia muito emotiva, em que todas as pessoas queridas que nos faltam - e são tantas já!, foram lembradas com muita saudade. Na madrugada anterior tinha sonhado com a avó A. e a F., estavam ambas a preparar uns arranjos de flores para umas mesas com toalhas imaculadamente brancas. Tenho a certeza que todos os que já desapareceram na curva da estrada festejaram connosco aquele momento de alegria, com muitos sorrisos e abraços apertados, como os que nos demos naquela tarde quente de fim de Verão. 

Agora, na recta final de mais um tempo estival, com os dias mais curtos e as noites mais frescas, olho para trás e apercebo-me que não estou onde pensei que ia estar quando, há 10 anos, pensava no futuro. Há sonhos e projectos que (ainda) não se concretizaram, há muitos medos e frustrações pelo meio, mas há também uma esperança que vem lá do fundo de mim mesma e me faz acreditar em dias melhores. 

Não faço a mínima ideia onde estarei daqui a 10 anos e a verdade é que nem me importo já muito com isso. Enquanto tiver todas estas pessoas essenciais na minha vida, enquanto amar e for amada, enquanto me deitar com problemas e me conseguir levantar com a força necessária para os enfrentar, enquanto tiver saúde e souber que aqueles que amo se encontram bem, tudo o resto encontrará o seu caminho e o que tiver que ser, será. 

Carpe diem é o lema e para a frente é que é o caminho. Desistir? Não me parece...só temos mesmo a certeza desta vida, não é verdade?!