Hoje, ao atravessar de manhã cedo o jardim que rodeia o meu escritório, pensei nas linhas sóbrias e na geometria clara, mas cheia, de van der Rohe. Imaginei o que seria transplantar a Glass House para o Jardim dos Sentimentos e poder desfrutar daquela vista sobre o Douro através das suas paredes de vidro.
Sentei-me à secretária, abri o Google e sorri. Porque, a maior parte das vezes, less is more e, definitivamente, God is in the details.
Continuo a trabalhar no meu escritório com vista para o lago, as magnólias, os patos, os pavões e as gaivotas. Hoje, o trio aqui de cima faz-me companhia ao ouvido e ajuda-me à concentração, que o sol lá fora e o céu azul continuamente desafiam. Tento, com todas as minhas forças, agarrar os dias e fazer das horas minhas aliadas, nesta luta constante por quotidianos mais leves. Faço a minha parte o melhor que sei e posso, em cada momento. Recuso-me a perder a esperança, mesmo quando o desalento me grita ao ouvido e me entra olhos dentro várias vezes ao dia.
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Em dia de mais uma Greve Geral, que eu respeito muito, mesmo não achando que deva ser esse o caminho a seguir, deixo estas palavras da Helena em jeito de reflexão:
"Esta semana, a turma do meu filho - miúdos pelos quinze anos - teve como trabalho para História escrever duas páginas A4 sobre o centro de informação do memorial do Holocausto em Berlim. Cada aluno tinha de descrever e analisar a informação disponível e a lógica subjacente à exposição, confrontar essa análise com um discurso de um vice-presidente do Parlamento alemão sobre este tema, sugerir o que poderia ser melhorado. Surpreendeu-me: a escola não queria uma descrição da informação disponível, mas uma análise da forma escolhida para passar essas informações, tendo como referência princípios fundamentais da República.
Ao ler a seriedade no trabalho do meu filho, mais uma vez me dei conta de como a construção da Democracia é um trabalho árduo, quotidiano e incansável, para recomeçar sempre e sempre e sempre.
Benditas escolas, estas, que trabalham para que cada aluno se entenda como alicerce fundamental da Democracia."
Transferir o quadro o muro a brisa A flor o copo o brilho da madeira E a fria e virgem limpidez da água Para o mundo do poema limpo e rigoroso; Preservar de decadência morte e ruína O instante real de aparição e da surpresa Guardar num mundo claro O gesto claro da mão tocando a mesa.
O cheiro a Primavera que anda no ar. Uma luz quase de Lisboa anteontem ao fim do dia enquanto descia a Av. da Boavista a pé, que me fez sentir uma imensa saudade boa da capital. A luz do Porto por estes dias. As manhãs de nevoeiro e o céu azul do início de tarde. Passear pela Invicta. Atravessar a cidade (quase) toda a pé, várias vezes por semana, tratar da vidinha e assim ainda conseguir fazer exercício e poupar em transportes. As ruas da minha cidade. Os fins-de-tarde dourados sobre os prédios antigos da Baixa. A Foz e o meu mar, sempre tão presente na minha vida. Inaugurar a época balnear em Março, com um piquenique na areia e direito a um escaldão no rosto - daqueles com uma ridícula marca dos óculos de sol. Subir ao cimo da Torre dos Clérigos e aperceber-me que já não o fazia há mais de quinze anos. Dividir crepes com gelado de tartufo e noz, bem barrados com Nutella e uma chávena de chocolate quente com chantilly e ficar ligeiramente enjoada de tanto doce junto. Cantar o Cell Block Tango, da cena do Chicago, enquanto ando de carro com a minha mãe e ela chamar-me de maluca de cada vez que faço as vozes das personagens, numa imitação digna de Óscar. Programar o ipod na lista On the go e deixar-me perder por aí, percorrendo ruas e memórias, enquanto desfio canções escolhidas a dedo, numa banda sonora que me acompanha desde sempre e que vai crescendo comigo. Fazer uma taça de pipocas, só porque sim, e comê-la de enfiada. Passar horas na cozinha entre malgas, panelas e colheres de pau, fazendo alquimia com ingredientes ancestrais e maravilhar-me sempre, a cada resultado conseguido. Sonhar acordada. Ver filmes e séries enroscada na cama ou no sofá. Fazer dos jardins do Palácio o meu local de trabalho, olhar o lago pelo canto do olho e desfrutar da companhia dos pavões, dos patos, dos melros, das pombas e das gaivotas, sabendo que tenho a Biblioteca ali à mão, caso seja preciso consultar algum livro ou fazer uma pesquisa para além da Internet. Tomar um cimbalino cheio, bem tirado, na Petúlia logo de manhã bem cedo, para começar melhor o dia. O ambiente dos cafés e confeitarias do Porto. Os empregados de mesa de toda uma vida, que sabem o nome dos clientes mais antigos e fiéis, que lhes perguntam pela saúde, a família, o trabalho e a vitória do Sporting, sem serem invasivos ou desrespeitarem a privacidade e o espaço de cada um. Os cafés da minha infância - o Orfeu, o Ceuta, o Aviz, o Bom Dia, o Velasquez, que continuam vibrantes, apesar da crise. O cheiro a terra molhada depois de algumas (poucas) gotas de chuva. As histórias que a A. inventa e a sua imaginação prodigiosa. As brincadeiras com ela e com a M. . As sessões fotográficas, as fotografias cómicas e os vídeos engraçados que delas resultam. Percorrer a cidade de máquina fotográfica na mão. (Re)descobri-la através da lente e do meu olhar, sempre diferente a cada dia. Ler poesia e encantar-me sempre que descubro um novo poeta. Perder-me por entre livros, folheá-los, sentir-lhes o cheiro e o toque do papel e das capas. A minha caneta de tinta permanente e a minha caligrafia, tão diferente de cada vez que lhe sou infiel. A importância e a diferença de uma boa caneta e os restos de tinta nos meus dedos, sempre que é necessário mudar uma carga. Passar em frente ao antigo cinema Pedro Cem e recordar com carinho e uma certa nostalgia todas as sessões a que ali assisti, sobretudo aquela vez que a mãe do T. me teve que retirar da sala com lágrimas nos olhos e completamente assustada com a bruxa da Branca de Neve. Perceber, uma vez mais, como era genuinamente feliz naquele tempo e sentir saudades de ver as camisas do T. dependuradas a secar no nosso jardim, depois de se lhe ter soltado o sangue no nariz, como acontecia frequentemente. Lembrar as brincadeiras de miúdos e uma imagem que me acompanha há anos - o B. a andar na minha bicicleta azul e cinzenta, numa festa já nem sei de que aniversário meu. Os sonhos e planos que carrego comigo e a força renovada que o anúncio da Primavera sempre me traz. A vontade de seguir em frente, acreditando, nos outros e, acima de tudo, em mim mesma. Acordar a cada novo dia com a certeza de ser capaz e saltar da cama, apesar do sono e das noites mal dormidas. Acreditar que a boa-disposição é mais transformadora e contagiante do que as caras fechadas e os olhos baixos. Ir, sempre que possível.