...vai-se dando um jeito na matéria, abrindo janelas para arejar e sacudindo a poeira, à espera do momento em que seja possível dar a volta por cima.
28 de outubro de 2010
26 de outubro de 2010
20 de outubro de 2010
...e dos desencontros.
Trago-te num nó na garganta, num aperto no peito. A ausência dos teus olhos nos meus olhos revela um Eu distante, vazio...Talvez por me conheceres do avesso. Por veres em mim horas estendidos na areia, decifrando os mistérios da vida, e beijos com sabor a amoras nas tardes quentes de Verão. Encontras o que os outros nem procuram. Sabes-me de cor. Entendes cada gesto. Identificas cada expressão. Os silêncios entre nós sempre disseram mais do que as palavras. Porque sempre foram verdadeiros, tão nossos e necessários como o cheiro a maresia que buscamos sempre que caminhamos para o mar.
Trago-te em cada grito contido, em cada gemido abafado. Procuro-te no poema ouvido ao cair da noite, na melodia que me chega trazida pelo vento, na tela que o pintor de rua transforma em paisagem.
Se pelo menos se pudessem vender os sentimentos...trocá-los por umas luvas que nos servissem melhor, numa dessas feiras da ladra onde se compram memórias e afectos de outras almas. Talvez te trocasse por um livro amarelado, de capa puída. Há qualquer coisa de eterno num livro sublinhado e anotado. Porque as palavras transformadas em impressões num papel ganham uma dimensão palpável e duradoura.
Ao contrário das que me disseste ao ouvido antes de desapareceres no horizonte. Essas, por mais sinceras que fossem, perderam-se por entre os dias e as noites em que chamo por ti.
Ao contrário das que me disseste ao ouvido antes de desapareceres no horizonte. Essas, por mais sinceras que fossem, perderam-se por entre os dias e as noites em que chamo por ti.
14 de outubro de 2010
"Oh ca giiiro!"
Porque apesar de todas as sombras e nuvens negras que se apoderaram das nossas vidas, das ausências sofridas e do vazio enorme que se sentiu, das surpresas emocionadas e emocionantes, quando se temia o pior, este foi um dia bom, cheio de cor, detalhes, sorrisos, emoções várias, reencontros e, acima de tudo, de celebração do amor e da vida.
Nunca se esqueçam daquele dia em que se deu o click. Recordem-no sempre que tiverem dias difíceis, dúvidas ou vontade de desistir. Lembrem-se sempre dos motivos que vos levaram a dar este passo e façam-me o favor de ser felizes ;)
13 de outubro de 2010
*
Da ausência. Do vazio. Das paredes que gritam o que insistimos em calar. Ou não conseguimos dizer. Do silêncio. Da sala despida. Da mesa posta com um prato a menos, apesar do lugar eterno. Dos passos que não se sentem no corredor pela manhã. Do cheiro a compota que se evaporou no nunca mais, mesmo que se venham a fazer todas as compotas do mundo. Da cadeira que espera. Do jardim que perdeu a cor para o mistério da morte. Da voz que não se ouve, mas que ecoa. Do armário e da cómoda intactos, intocados. Das pulseiras, colares e anéis que persistem. Dos novelos e agulhas imóveis, como instalações indecifráveis em museus modernos. Das camisas que já não são lavadas à mão, demorada e cuidadosamente. Dos conselhos que não se esquecem, mesmo que não sejam seguidos à risca. Das histórias que sobreviverão ao tempo. Dos Natais, Páscoas, Carnavais , aniversários e demais comemorações que perderam a magia e o brilho. Do leite creme ao Domingo, cujo sabor foi embora sem pedir licença. Dos almoços e jantares demorados, em família, onde já faltam cada vez mais. Das tardes na piscina, dos lanches com scones e limonada. Dos piqueniques à beira-rio. Dos dias longos de praia e refresco de café com limão. Das viagens de carro. Das compras no Porto. Das idas a Alcañices comprar flores, com direito a paragem obrigatória nas Paquitas e no Fidel. Das sopas de tomate. Dos almoços no alpendre. Dos passeios a pé. Das novelas e filmes revistos e comentados vezes sem conta. Do jornal e das revistas lidos à noite, na cama. Das jardinagens e dos banhos de mangueira. Das tardes enfiados todos juntos na cama, onde se esqueciam as doenças. Das revisões antes dos testes. Do dinheiro dado às escondidas, para os meus alfinetes. Das compras de Natal à última hora. Das rabanadas quentinhas. Dos abraços, dos beijinhos e da forma de me chamar Micoquinhas. Da saudade. De um tempo que não volta. Nunca mais.
* Hoje sonhei que estávamos as duas a dobar meadas de lã e a encher cestos de novelos coloridos, à lareira.
12 de outubro de 2010
A charada sincopada.
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo
- A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
-Álvaro de Campos-
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