5 de setembro de 2012

O meu reino maravilhoso.










 Nordeste transmontano - Agosto de 2012


" (...) Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:

- Entre!

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso. (...)

Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.

Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista. (...) "

- Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso -

Anseio sempre pelo momento em que, já para lá do Marão, abro a janela do carro e aquele cheiro a terra secular, oliveiras, castanheiros, azevinho, avelaneiras, salgueiros, zimbro, urze e cornalheira, entra de rompante e sem pedir licença, colando-se de imediato à pele e aos cabelos, devolvendo-me a mim mesma, transportando-me no tempo, passado e futuro, fazendo-me sentir viva, como só o cheiro a maresia consegue igualar. Se o mar é a minha alma e o meu espírito errante, Trás-os-Montes é o meu corpo, a minha carne, o meu chão. Se não consigo viver muito tempo longe do mar - falta-me o ar, o peito fecha-se em concha, obrigando o meu coração a reduzir-se ao tamanho do de um passarinho, a cabeça começa a pesar toneladas e o meu olhar torna-se mais baço - o mar, para além de tudo o resto, tem em mim um efeito purificador, obrigando-me sempre a limpar tudo o que é de deitar fora, chegando mesmo a fazer tábua rasa muitas vezes, este meu reino maravilhoso de montanhas, pedras, vales, lameiros, gentes afáveis e perseverantes, pão sempre sobre a mesa e gastronomia de me fazer recuar séculos a cada garfada, completa-me de uma forma vital. Terra e mar terão sempre de andar paralelamente na minha vida, a bem da minha sanidade mental. Esta terra, que me recebeu com apenas 15 dias de vida, num Agosto quente que se tem vindo a repetir ao longo do meu crescimento, assim como muitos outros meses que contribuíram profundamente para a Mar que sou hoje. 

Um dia, quando os meus cabelos cor de fogo tiverem virado um vale de neve, é aqui que quero passar os meus dias, intercalados, de igual forma, com uma varanda sobre o Atlântico. É esse o equilíbrio que busco e que tanta falta me tem feito nestes últimos três anos. Aquele cheiro e um oceano de maresia colados na minha pele.

23 de agosto de 2012

Um dia depois,



Hoje roubei todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias. 

 - Eugénio de Andrade - 

mas com o mesmo carinho de sempre, deixo-te aqui uma música do meu tempo e as palavras do meu Geninho, para te desejar um novo ano cheio de coisas boas. Espero que este nosso querido mês de Agosto seja o início de uma etapa mais feliz na tua (nossa) vida. Que, apesar da distância física, possamos estar sempre perto uma da outra, de braço dado, ainda que em pensamento, como quando calcorreávamos as ruas de Coimbra ou de Roma. 

Parabéns, ragazza mia! Tudo de bom, hoje e sempre ;)

***

7 de agosto de 2012

Parabéns Cê!


Sete das minhas músicas preferidas, uma por cada década de vida. Setenta anos. Um eterno menino. Um dos orgulhos da Dona Canô.

6 de agosto de 2012

En un rincon del alma...

 
Chavela Vargas, 1919 - 2012 

 (te) guardare hasta el dia
en que me vaya yo.

Hasta siempre, mi paloma negra.

13 de julho de 2012

Insónia vs The Newsroom.

The Newsroom - foto de Annie Leibovitz

Estou de volta às noites passados em claro, ao ver passar as horas lentamente ao longo de noites compridas e silenciosas e, esta é mesmo a pior parte, a dias tirados a ferros das profundezas de mim mesma, tal é o estado zombie em que me tenho vindo a arrastar. A maior parte das noites deixo-me estar a vegetar em estado quase letárgico, vencida pelo cansaço (mas sono profundo e retemperador já quase me esqueci como é), na expectativa de adormecer a qualquer momento, o que não acontece quase nunca. 
Contudo, há noites em que a fadiga se traduz numa estranha energia, que me impele a fazer qualquer coisa de útil, a aproveitar as horas roubadas ao sono por este ciclo vicioso de noites perdidas. Normalmente pego no livro do momento e dou uma adiantada na leitura, outras vezes tento despachar algum trabalho pendente, faço pesquisas na net sobre temas que me interessam ou procuro diminuir a lista de filmes/séries por ver. 
Há já uns dias que tinha o primeiro episódio em stand by à espera de tempo livre e/ou disposição, depois de ter lido críticas favoráveis vindas de pessoas cujas opiniões prezo e que não costumam andar muito longe das minhas. Resolvi dar-lhe uma oportunidade e não poderia ter tomado uma decisão mais acertada. A temática interessa-me, o nome Aaaron Sorkin fez-me elevar ainda mais as expectativas e o elenco deixou-me curiosa. Vi os três primeiros episódios de rajada e foi uma lufada de ar fresco: excelente elenco, bem escrita, diálogos inteligentes, personagens interessantes e bem estruturadas, ritmo promissor e empolgante. Em suma: ficção muito bem feita, daquela que nos deixa a pensar e a remoer certas cenas e diálogos durante as horas e dias que se seguem. Tem tudo para dar certo, se assim se souberem conservar. E para revolucionar o mundo das séries televisivas e pôr-nos a pensar e a debater assuntos verdadeiramente importantes. Mal posso esperar pela madrugada de 2ª feira e, apesar de ter apenas passado pelas brasas durante um par de horas, amanheci com uma vontade renovada de seguir em frente, seja qual for o caminho.

11 de julho de 2012

The way I feel.

I feel like I'm floating through
existence.
I feel like I'm living after time.
I feel like I'm forced to break
the silence, is that a crime?
Is that a crime?
I feel like we all following shadows,
And shadows that don't know where
to go.
I feel like I'm waiting for tomorrow,
But today... waste away.

It's not that I don't know,

It's not that I can't see.
It's not like I have notice.
It's driving me insane.
It's not that I don't know,
It's not that I can't see.
It's just the way I feel,
It's just the way I feel.

I feel like a child without a

father.
And mama tries,
Oh lord knows mama tries.
I feel like the world is on my shoulders.
I wonder why, wonder why.
I feel I'm not the only one who's
frustrated.
I feel that something's going
wrong.
I can't escape it.
I feel that the destiny should
fill the men to be the best are in
the hands of liars.
Now the world is on fire.

It's not that I don't know,
It's not that I can't see.
It's not like I have notice.
It's driving me insane.
It's not that I don't know,
It's not that I can't see.
It's just the way I feel,
It's just the way I feel.

I feel we are not angry enough.
That while we wait, time's ticking
away.
I feel... there's gonna be an explosion.

It's not that I don't know,
It's not that I can't see.
It's not like I have notice.
It's driving me insane.
It's not that I don't know,
It's not that I can't see.
It's just the way I feel,
It's just the way I feel.


- ASA -

10 de julho de 2012

Por vezes os aviongas voam devaraguinho.

 

Há alturas em que sinto saudades do tempo em que ele cabia perfeitinho no meu colo, dos rabiscos em tudo o que era livros ou papéis mais ou menos importantes, dos cafunés que me pedia para adormecer, da maneira como me chamava Nana, do seu bilinguismo trapalhão, das horas intermináveis em que me obrigava a montar Legos e Transformers e a construir cidades improváveis para os seus carrinhos em miniatura, das noites em que se escapulia para a minha cama, das primeiras idas ao cinema e das centenas de VHS e DVDs que vimos juntos. Há momentos em que dou por mim a olhar para o rosto dele e a duvidar que já se tenham passado 21 anos desde aquela tarde gelada de Janeiro em que me conquistou para sempre, no instante em que o vi, com apenas alguns minutos de vida.
Depois, há dias como o de hoje, em que trocamos dicas de filmes, vídeos, músicas e livros como quem troca cromos daqueles prateados ou dourados, os mais valiosos e, por isso mesmo, mais raros, e penso para com os meus botões: a vida não pára e está muito bem assim.