Vai, ano velho, vai de vez,
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um,
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.
Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.
Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.
Vem, Ano Novo, vem veloz,
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nossso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso,
e sacia em nós a fome
- de utopia.
Vem na areia da ampulheta com a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se
se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.
Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.
Entre flores de urânio
é permitido sonhar.
Affonso Romano de Sant'Anna
31 de dezembro de 2010
29 de dezembro de 2010
Rescaldo.
O melhor do meu Natal?! As pessoas. Aqueles que mais amo, os amigos verdadeiros. Foram eles os meus verdadeiros presentes. Embrulhar o cavalete para a A. pintar com o meu pai, ouvi-lo suspirar de cada vez que o mandava estar quieto, que assim não conseguia colar a fita-cola. As compras de última hora com a Micas aka my mum, a correria no supermercado, o carrinho a abarrotar de mercearias e afins, que davam para alimentar um batalhão. A mesa cheia de gente, os mesmos de sempre. A família alargada que apareceu para uma visita, para um abraço e um sorriso. Os sabores da memória que se repetem à mesa, todos os anos. A "chegada" do Pai Natal, porque a A. ainda merece que se perpetue a magia. A carinha de espanto da A. ao ver todos os presentes em frente à lareira, ouvi-la perguntar o qui cherá?!, de cada vez que pegava num embrulho e um obrigada, muuuuito obrigada, com um sorriso de orelha a orelha sempre que desvendava o mistério escondido pelos papéis e laços coloridos. Dois anos e meio de gente, a nossa mascote. Os mimos. Ter a minha mana à minha beira uma semana inteirinha. Os abraços. A mesa sempre posta com doces, chocolates, frutos secos, bolachinhas e torrões até aos Reis. Saber que no Ano Novo vamos estar todos juntos outra vez, como todas as semanas, ao longo do ano.
Coisas más?! Claro que há. Mas essas não cabem aqui e são para ser ultrapassadas, apesar de nunca serem esquecidas. Não se trata de hipocrisia, mas sim de sobrevivência. De saber que esta vida é demasiado curta para nos perdermos em minudências, a maior parte das vezes sobrevalorizadas.Temos a obrigação de proporcionar aos mais novos um crescimento sereno, embora nunca desfasado da realidade. Mais do que uma sucursal doméstica de um qualquer centro comercial, devemo-lhes dias felizes, muito colo, conversas verdadeiras e sinceras e a certeza de um abraço, sobretudo nos momentos mais difíceis.
28 de dezembro de 2010
Rua de Camões
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
que é feio.
- Inês Lourenço -
21 de dezembro de 2010
Dias cheios.
É o que vos desejo a todos. Dias cheios de amor, paz, rabanadas, formigos, aletria, Bolo Rei, bolachinas de gengibre, Weihnachtsplätzchen decoradas para as crianças e não só, lareira acessa, mesa grande, todos aqueles que mais amam bem pertinho, muita luz e calor humano, conversas demoradas, noites prolongadas, filmes e mais filmes, um bom livro e uma manta quentinha, abraços apertados, sorrisos, lágrimas de alegria e nostalgia, pinhões, avelâs, nozes, amêndoas, torrões de chocolate, boa música, pijamas quentinhos e manhãs com cheiro a canela e Bolo Rei torrado com queijo da serra, a alegria de dar um presente às pessoas especiais da nossa vida e de partilhar o que temos com quem nada tem, espírito alegre e confiante, para assim melhor se viver esta quadra que é suposto ser de união, serenidade, comunhão, amor ao próximo e elevação interior.
Um feliz Natal. Até já.
18 de dezembro de 2010
Amigos-família.
Porto - Dezembro de 2010
Hoje o Natal chegou mais cedo aqui a casa. Pelo correio recebemos uma caixa enorme, cheia de presentes. Remetente: o Comandante. Lá dentro, um embrulho para cada um de nós, com respectiva etiqueta, o nosso nome e um segundo remetente: o Pai Natal.
Estupefactos, lá fomos abrindo um a um, que a ordem era que deviam ser desembrulhados antes de 24. Por entre muitos sorrisos, as lágrimas iam-nos escorrendo pelo rosto, sem pedir licença, num sufoco que nos apertava o peito e fazia transbordar a alma. O coração parou-nos a todos quando vimos o presente para o avô - uma moldura digital. Bastou um simples clicar no on, para vermos passar à nossa frente todo o filme de uma vida, de várias vidas - as de todos nós.
Hoje foi o dia em que vi o meu avô chorar em muito tempo. Nem durante a fase critica que passou (e ainda está a passar) o vi emocionar-se tanto. Ligamos ao Comandante para agradecer. Disse-nos que éramos como família para ele. Riu-se quando lhe disse que estava muito jeitoso naquela fotografia a bordo do navio, na sua época na Marinha Mercante, e retorquiu que ainda assim se conserva. Verdade. Apesar dos seus oitenta e muitos anos, de uma vida bem vivida, dos muitos desgostos que sofreu nos últimos anos e dos dias complicados que vive actualmente, continua com uma bela figura e um enorme coração. Avisou-me que chega a 28 e mandou-me colocar o espumante no frigorífico, para brindarmos ao novo ano que aí vem.
Do grupo de amigos do avô, cujas famílias se tornaram amigas da nossa, fazendo-a crescer ainda mais, já poucos são os que restam. Lentamente, vamos assistindo à partida de toda uma geração que me habituei a admirar e a gostar desde que nasci. Uma geração que contribuiu enormemente para aquilo que sou hoje. Por isso, é cada vez mais comovente ver a amizade entre o avô e o Comandante. Dura há 70 anos, parecem os marretas a falar sempre que estão juntos, mas não se podem ver um sem o outro.
Hoje o avô chorou como um menino. Falou-me dos amigos que partiram. Da época difícil em que se transformou para ele o Natal, das saudades que sente da avó. Das insónias e das noites que passa a fazer retrospectivas. Da condição em que se encontra, da dependência quase total. Do sofrimento que sente de cada vez que lhe dou banho ou lhe mudo a fralda e da gratidão, ao mesmo tempo. Da sorte que tem em ter-nos a todos por perto. Contou-me histórias que conheço de cor. Recordou nomes, lugares, peripécias. A casa do Comandante na Granja. As tainadas, os convívios de outrora.
Hoje foi o dia em que o Comandante, muito mais do que o presente que chegou pelo correio naquela caixa enorme, me deu a possibilidade de chegar mais perto do meu avô, de ver para além daquele transmontano casmurro, orgulho, posso-mando-e-quero.
O reconhecimento mútuo e a amizade entre estes dois homens é também uma das grandes forças para continuarem a viver. Ao vê-los, é-me cada vez mais claro de que a família não se escolhe, mas que podemos ir criando a nossa própria família ao longo da vida. Os amigos-família, aqueles que estão sempre lá, até ao fim.
16 de dezembro de 2010
E assim acontece.
Há gerações inteiras que estão a partir. As nossas referências de sempre começam a sofrer grandes abalos e somos constantemente obrigados a enfrentar a nossa própria mortalidade. Mas as obras de arte, assim como as almas grandes, são eternas.
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