9 de novembro de 2010

Voltar a Lisboa,





Cais das Colunas, Novembro de 2010

percorrer as ruas de uma memória recente, atravessar o Rossio, subir ao Chiado, descer a rua Augusta, entrar na Praça do Comércio e apressar o passo, com os olhos pregados no rio. Chegar ao Cais das Colunas e sentir tudo outra vez, como da primeira vez. A imensidão, o cheiro nostálgico do Tejo, a luz, o voo rasante das gaivotas, os cacilheiros ao largo. O apelo de partir para longe e o porto seguro de um abraço à chegada, sempre. A certeza de pertencer ali, aqui e a todos lugares onde os sonhos são possíveis e a amizade uma constante, neste mundo de viragens vorazes.

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
 
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

- João Cabral de Melo Neto -

30 de outubro de 2010

Sis


Talvez o tempo dos ponteiros do relógio marque o compasso da vida,
mas é através dos teus olhos que me guio e é no teu olhar que
vejo adiada a minha própria morte.

Festa.

Tinha estendido minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o itinerário
até meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E tinha bebido licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

- Alejandra Pizarnik, tradução daqui -

28 de outubro de 2010

Quando não se pode arrumar a alma...

...vai-se dando um jeito na matéria, abrindo janelas para arejar e sacudindo a poeira, à espera do momento em que seja possível dar a volta por cima.