5 de julho de 2010

A memória, sem o corpo, não é ascensão nem recomeço.

O corpo tem abóbadas onde soam os
sentidos, se tocados de leve, ecoando longamente
como memórias de outra vida
em frios desertos ou praias de lama.
O passado não está ainda preparado para nós,
para não falar do futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, cabelo,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.

Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais – pois o preço era
muito alto para o que podíamos pagar –
da alegria das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto; e quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o melhor que conseguimos.

A beleza do corpo amado é
(agora sabemo-lo) lixo orgânico.
O mármore que pudemos foi o das casas de banho
e o dos balcões dos bancos,
e grandes gestos nem nos romances,
quanto mais nos versos! E do amor
melhor é nem falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.

Corpo, corpo, porque me abandonaste?
“Tomai, comei”, pois sim, mas quando
a química não chega para adormecermos,
a que divindades havemos de nos acolher
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta investigação histórica,
tanta psicologia e tanta antropologia?
A memória, sem o corpo, não é ascensão nem recomeço,
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos calar-nos
sem temer o silêncio nem a culpa
porque já não há tais palavras.


- Manuel António Pina -

So many things to do and so little time...

O resto é boi dormindo...


...em história errada de carochinha.

22 de junho de 2010

Do tempo (e) do amor...


(...) Chamam amor àquela adesão mútua às suas respectivas independências. (...) O tempo do amor mergulha nos nossos gostos até que os cinco sentidos nos inundem de dor ou de arrebatamento. Diz-se que o amor dura quando os aventureiros conseguem tratar das suas chagas, quando a pele se recompõe e recomeçam a olhar-se um ao outro como Narciso nas águas. Eis o que exige muita paciência, um extraordinário culto do tempo.
Em amor, é preciso cuidar do tempo. Não da duração, que é apenas um suporte da arte de amar. Mas daquela magia que transforma o espaço de uma percepção, de um mal-estar ou de uma alegria no instante de uma dádiva. Dádiva de palavra, de gesto, de olhar. Basta um pequeno ruído para te fazer saber que te tenho comigo, que estamos bem, os dois, ali, debaixo da acácia e do pinheiro, naquela vertigem de flores, ondas, quarteto, enxaqueca, dor nas costas. Assim nasce a sensação de tempo. Uma vez dados, estes instantes sensíveis encadeiam-se em ínfimos actos. Emersos do nada, atam-se uns aos outros e arrastam-nos com eles. Bem se vê que não há tempo sem amor. O amor é amor pelas pequenas coisas, pelos pelos sonhos, pelos desejos. Não temos tempo porque não temos amor suficiente. Perdemos o nosso tempo quando não amamos. Esquecemos o tempo passado quando nada temos a dizer a ninguém. Ou então estamos prisioneiros de um tempo falso que não passa.

- Julia Kristeva, in "Os Samurais" -