15 de junho de 2009

Toda a gente sabe que a noite é longa...

Não há motivo para te importunar a meio da noite,

como não há leite no frigorífico, nem um limite

traçado para a solidão doméstica.

 

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece

antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens

direito a um subsídio de paz.

 

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te

importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas

de manhã cedo.

 

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o

o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa

evidência me matar agora.

 

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:

porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:

sabes que horas são?

 

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda

mais comprida, com a insónia, com as palavras

a despegarem-se dos pesadelos.


- José Luis Peixoto -

 

 

Quem sou?


Quem me roubou quem nunca fui e a vida?

Quem, de dentro de mim, é que a roubou?

Quem ao ser que conheço por quem sou

Me trouxe, em estratagemas de descida?

Onde me encontro nada me convida.

Onde me eu trouxe nada me chamou.

Desperto: este lugar em que me estou,

Se é abismo ou cume, onde estão vinda ou ida?

Quem, quando por mim meus passos dados,

Entre sonhos e errores que me deu

À súbita visão dos mudos fados?

Quem sou, que assim me caminhei sem ser,

Quem são, que assim me deram aos bocados

À reunião em que acordo e não sou meu?


- Fernando Pessoa -