MpB - Música Portuguesa Brasileira, um documentário de Pierre Aderne.
7 de outubro de 2014
25 de setembro de 2014
A série do (meu) Verão.
Amo tudo. Vi a primeira temporada ainda durante o Inverno e as novas aventuras da segunda temporada vieram dar um colorido diferente a muitas horas do meu Verão.
Ri, chorei, chorei a rir e aguardo ansiosamente o que a terceira fornada de episódios nos reservam.
Se ainda não viram. não sabem o que andam a perder. Corram, pá!
Love them all!
23 de setembro de 2014
Somatório estival #1
Vila do Conde - Verão de 2014
O Verão que ontem terminou não foi um Verão prodigioso, em muitos aspectos, a começar pelo clima. Foram meses algo atípicos, São Pedro falhou-nos em muitos pontos e os meses foram passados na expectativa de dias mais quentes, soalheiros e luminosos.
Paralelamente, a minha vida continuava em suspenso e também eu aguardava dias melhores. Setembro chegou com uma esperança renovada e a possibilidade de um futuro um pouco mais estável, mesmo que a curto prazo - para já.
No entanto, nem tudo foram dias cinzentos durante esta última época estival. Ficaram muitas lembranças boas e dias felizes. Partilharei aqui alguns desses momentos, aqueles que mais me ajudaram a recarregar baterias, através de pequenos instantes fotográficos. Para recordar ao serão, como diria a minha avó Aninhas.
Outonando*
Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
- Joaquim Pessoa -
O Outono foi-me uma aprendizagem longa e complicada, assim como aquelas matérias de escola que simplesmente não conseguia apreender e encaixar. O Outono, durante demasiado tempo, não me fazia sentido. Tudo nele me era estranho, adverso e significava o fim dos dias quentes e longos de Verão, a minha estação do ano - e é minha não apenas por ser filha de Agosto, mas, acima de tudo, por respirar infinitamente melhor a partir da Primavera e ser mais eu mesma durante os meses estivais. Sem máscaras ou capas. Como se as camadas infindáveis de roupa que somos obrigados a usar durante a época mais fria do ano me servissem de armadura e me ajudassem a esconder-me um pouco mais do mundo.
De há uns anos para cá, no entanto, o Outono deixou de ser um sacrifício e passou mesmo a ser uma época ansiada, passadas as primeiras semanas de Setembro. Consigo observar e entender todo o seu esplendor. Aprendi a vivê-lo o melhor possível e a abraçar tudo de bom que tem para nos oferecer. Já não me é tão estranho e desconfortável. Até mesmo os dias graníticos de Inverno me são menos pesados, agora que o frio e sobretudo a falta de luz, me são menos difíceis de suportar.
O Verão, contudo, fica-me colado à pele e à alma o ano inteiro. Vou revivendo instantes e momentos felizes a cada raio de sol ou quando mergulho bem fundo na minha memória afectiva, a fim de ultrapassar dias mais cinzentos e gelados. Revejo fotografias dos dias estivais e das aventuras, mais ou menos pequenas, que vou coleccionando durante os dias mais longos e leves do ano, para ir recordando sempre que o coração aperta de saudades. Faço flashbacks mentais quando tudo se torna demasiado para a minha pele e os meus ossos aguentarem sem dor e esforço. Fecho os olhos e imagino-me na praia, naquela hora dourada de um fim de tarde quente e com cheiro a maresia, gelados e língua-da-sogra.
*Este post foi agendado para publicação, simbolicamente, às 3h29 desta madrugada, o momento exacto do Equinócio de Outono. Marca o início de uma nova estação e de um novo header aqui no blogue - a pena, por sua vez, vem simbolizar uma nova fase na minha vida, um recomeço que se quer mais leve, mais colorido, bem como um desejo de voar cada vez mais longe.
10 de setembro de 2014
No ciclo eterno das mudáveis coisas*
Porto, Amarante, Lisboa, Angeiras - Verão 2014
Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
- Clarice Lispector, in Um sopro de vida -
Regressei, como prometido, com a luz dourada de Setembro. Volto com a esperança renovada, com novidades e uma vontade imensa de sugar a vida até ao tutano. O medo existirá sempre, assim como o meu mar, eterno porto de abrigo e guardião de sonhos. É nele que deposito todas as minhas angústias, com a certeza de receber em troca a calma necessária para seguir em frente.
Falta-me ainda o meu Reino Maravilhoso, neste Verão que se vai despedindo a cada pôr-do-sol dourado. Se o mar é a minha bússola, Trás-os-Montes é o meu astrolábio - ambos são essenciais ao norteamento da minha vida.
*Ricardo Reis
1 de julho de 2014
Colhe o dia, porque és ele*
Foz do Douro
Até já. Vou encher-me de mar, de sol, tempo, livros, música, filmes noite dentro, melancia, gelados, granizados e abraços. Vou arrumar gavetas, reais e mentais. Vou destralhar e descomplicar a (minha) vida. O futuro quer-se leve, o caminho avizinha-se longo, ainda que esperançoso. Vou preparar-me para o salto - não no vazio, mas no sonho, esse, que não me larga o consciente e o inconsciente.
Volto com a luz dourada de Setembro. Menos enigmática, mais verdadeira e autêntica, que os medos serão todos deixados no fundo do mar.
*Ricardo Reis
29 de junho de 2014
☀︎
Sou filha do mar e dos dias longos de Agosto. Vi o mundo dez dias depois do que era suposto, embalada que estava pelas ondas do mar frio e batido do norte, naquela mesma praia que iria povoar todo o imaginário da minha infância - Miramar. A minha mãe fez praia até à última, saltando ondas na zona da rebentação e deixando que muitas se desfizessem na sua barriga cheia de mim, para grande preocupação do meu tio Alfredo, que dizia que eu ia nascer ali mesmo, no sítio onde o mar enrola a areia, num abraço que tão bem conheço. Sou também filha do luar quente que cobre com um manto aveludado as terras transmontanas nas noites infinitas dos meses estivais - saí do mar para os montes, cheirando aquele aroma inconfundível que só quem se atreve para lá do Marão reconhece, com apenas quinze dias de vida. Atravessei os montes num 2Cavalos, numa viagem que marcaria irremediavelmente a bifurcação do meu coração: não vivo sem o mar e sou mais eu naquelas terras altas que teimam em beijar as estrelas mesmo quando o céu se enegrece, deixando-nos com a sensação de estarmos a ser sufocados pelo testo do mundo.
Talvez por tudo isto sou incomparavelmente mais plena e mais tranquilamente feliz nos dias quentes, quando estou perto do mar ou naquele recanto a nordeste do país. Gosto do calor moleza que se nos cola à pele e à alma, deixando-me mais leve como a roupa que me cobre o corpo. Gosto de lavar pátios e varandas em noites quentes, molhando os pés com a mangueira e recordando os banhos da minha infância no jardim de casa dos avós. Gosto de melancia gelada a qualquer hora do dia ou da madrugada, em talhadas generosas ou em bolas de sorvete. Gosto da luz dos dias de Verão, daquela película quente que cobre o horizonte e do ar abafado das cidades quase desertas. Gosto de poder andar de havaianas ou sandálias quase o tempo todo, de sentir o sol e o vento na pele mais sensível dos pés. Gosto de dias inteiros na praia, intervalados nas horas proíbitivas de calar com sestas à sombra e jogos de cartas. Gosto de ler deitada na areia quando a praia está apenas suficientemente cheia, de forma a que o ruído em volta não me desconcentre a leitura. Gosto de chá de gengibre gelado com hortelã, de refresco de café e limão e de limonada acabada de fazer, adoçada com açúcar amarelo. Gosto de cerejas mergulhadas em cubos de gelo, de meloa como entrada de uma refeição, de ameixas de todas as qualidades e de melões bem maduros. Gosto de colher framboesas, amoras e groselhas e de apanhar uma barrigada delas, ainda quentes e a saber a sol e terra. Gosto de andar descalça, em todo o lado, de sentir o frio da tijoleira, a humidade da relva, a areia a escaldar, a terra seca, o chão dos pátios e alpendres banhados de sol. Gosto de dormir de janela aberta a noite inteira, da brisa suave que vai chegando com a madrugada. Gosto do facto de me apetecer tomar banho a qualquer hora do dia e da noite, sem receio do frio que sei que não vou sentir. Gosto do tonzinho dourado que a minha pele adquire lá para finais de Setembro, apenas aquela leve pincelada de pós terra e dourados, independentemente do número de dias em que tiver feito praia. Sou filha do sol, mesmo que o meu tom de pele e a cor dos meus olhos aconselhassem climas mais nórdicos.
Nestes dias mais soalheiros e compridos, o meu raciocínio fica mais lesto, a minha imaginação mais fértil e a minha capacidade de concentração mais alargada. Por muito que me tenha habituado a gostar do Outono e do Inverno - e foi um esforço conseguido, sendo já capaz de desfrutar tudo o que de bom essas duas estações do ano nos têm para oferecer, serei sempre uma criatura mais solar, cujas baterias só se recarregam plenamente entre Abril e Outubro. No resto do tempo, faz-me falta a luz nas suas várias tonalidades, como só os dias de Primavera e Verão têm. Morro de saudades do cheiro das flores e da terra, do canto dos pássaros, das borboletas coloridas dos jardins. Sinto falta dos passeios à beira-mar nas noites insuportavelmente quentes, quando só a brisa marítima nos consegue refrescar.
Nos verões da minha infância, tenho quase a certeza que os relógios todos paravam. Os dias eram mais lentos e a nossa noção de tempo quase uma sensação infinita. A canícula e a terra agarrada à pele eram lavadas em tanques de rega, com água de furos e muitas brincadeiras à mistura, numa alegria contagiante que nenhuma piscina conseguia igualar. Os piqueniques, na praia, à beira-rio ou onde a vontade ditasse eram uma constante, faziam-se farnéis e enchiam-se geleiras com uma precisão e rapidez quase militar, embora tudo o resto fosse de uma descontração que ainda hoje me comove. Estendiam-se mantas à sombra de oliveiras, de sobreiros e de figueiras. Faziam-se fogueiras para churrascos improvisados onde fosse preciso ou para fazer batatas à espanhola num panelão enorme, capaz de alimentar uma messe inteira. Saíamos de casa de manhã e aparecíamos à hora das refeições para voltar a desaparecer logo de seguida e só retornar com a lua bem alta ou íamos telefonando de casa de vizinhos e amigos a avisar que comíamos por ali mesmo, que não contassem connosco até à noitinha. Não tínhamos telemóveis. Se por acaso ninguém atendesse o telefone fixo, havia um voluntário forçado que ia dar o recado ao primeiro adulto que encontrasse. Improvisávamos Jogos Sem Fronteiras nas ruas, nos pátios ou nas hortas, dependendo do que estivesse mais à mão. Comíamos casadinhos de queijo e marmelada, pão com tabletes de chocolate que a tia Maria trazia no fundo das malas quando regressava da França, fruta colhida directamente das árvores e legumes colhidos por nós na horta. Andávamos de tractor em condições de segurança que poriam os cabelos em pé a muita gente nos dias que correm, mas não éramos inconscientes e sabíamos que os mais velhos estavam responsáveis pelos mais novos e éramos um por todos e todos por quem precisasse de nós. Dormíamos sestas deitados em cima de sacos de batatas e fardos de feno, nas escadas da tia Freire quando o sol virava para a curtinha ou em qualquer lugar onde a sombra fosse maior que o nosso corpo. A avó preparava-nos lanches no alpendre, bebíamos leite frio com groselha ou Suchard Express em copos altos e comíamos bolachas compradas nas Paquitas, em Alcañices. Havia muitos incêndios e sabíamos o significado dos vários toques da sirene dos bombeiros de cor. Íamos de jipe ou de tractor ajudar a apagar os fogos, levávamos leite, água, bolachas e fruta para os bombeiros exaustos. Corríamos as festas populares e romarias de todas as terrinhas em volta, não perdíamos uma procissão, um fogo-de-artifício ou um bailarico. Comíamos Posta à Mirandesa assada na brasa debaixo de um sol implacável e um bailado de moscas, terra seca e palha que paira pelo ar do planalto mirandês nos dias quentes de Setembro, ignorando todas as regras de higiene, numa das mais bonitas romarias que conheço - as festas em honra de Nossa Senhora do Naso ou o Naso, simplesmente. Encenávamos espectáculos de variedades ao fundo da rua cortada temporariamente ao trânsito para esse efeito: o palco era o largo entre a casa do Tomé e da tia Freire, o pano de cena uns lençóis velhos emprestados pelas avós, o guarda-roupa eram todos os disfarces de Carnaval de anos anteriores e os assaltos consentidos a guarda-fatos e baús da família, a plateia era composta por bancos de traves de madeira feitos por nós, assim como o Bar, onde o Tó vendia, ao intervalo, o café, a limonada, as cervejas e os bolinhos feitos entre todos. O público crescia de ano para ano e chegamos mesmo a ter quem viesse de fora propositadamente para nos ver actuar. A receita da bilheteira e do bar era depois canalizada para fins vários: um ano enfeitamos a igreja toda com flores muito bonitas para as festas da vila, noutro mandámos fazer uma tampa para o poço que há logo à entrada da Capela de Pereiras e onde já várias pessoas tinham caído, nos restantes foi entregue à paróquia para o que mais fizesse falta e no último oferecemos um jantar a todas as pessoas que nos tinham ajudado ao longo de tantos anos de aventuras, maluquices e sonhos alcançados.
Sou filha do Verão - do primeiro, que me viu nascer e de todos os outros que se seguiram e me tatuaram a personalidade, o feitio, as emoções e o pensamento, de uma forma que mais nenhuma outra época do ano conseguiu. Serei sempre daquele mar frio de Miramar, das rochas onde raspávamos lapas para o arroz que jantaríamos à noite, das pocinhas onde dei as primeiras braçadas, das algas com que o avô me cobria e massajava as costas, dos gelados, das batatas fritas e das línguas da sogra que comi naquele areal. Os concursos de capitais de países do mundo inteiro, a Barca Chica Chica cantada vezes sem conta, as viagens para a praia no Santana descapotável, as jipadas por entre montes e vales mais ou menos desconhecidos e todas as memórias estivais farão para sempre parte da minha geografia sentimental e moldaram-me de uma maneira perpétua, contribuindo, nada paradoxalmente, para a minha forma de ver o mundo, para o meu espírito de eterna viajante e para uma abertura de pensamento que tento não descurar nunca - o ser humano é tão profundo, rico e diversificado como as águas dos oceanos e quero mergulhar cada vez mais nesse mundo riquíssimo que somos cada um de nós.
Sou filha do Verão - do primeiro, que me viu nascer e de todos os outros que se seguiram e me tatuaram a personalidade, o feitio, as emoções e o pensamento, de uma forma que mais nenhuma outra época do ano conseguiu. Serei sempre daquele mar frio de Miramar, das rochas onde raspávamos lapas para o arroz que jantaríamos à noite, das pocinhas onde dei as primeiras braçadas, das algas com que o avô me cobria e massajava as costas, dos gelados, das batatas fritas e das línguas da sogra que comi naquele areal. Os concursos de capitais de países do mundo inteiro, a Barca Chica Chica cantada vezes sem conta, as viagens para a praia no Santana descapotável, as jipadas por entre montes e vales mais ou menos desconhecidos e todas as memórias estivais farão para sempre parte da minha geografia sentimental e moldaram-me de uma maneira perpétua, contribuindo, nada paradoxalmente, para a minha forma de ver o mundo, para o meu espírito de eterna viajante e para uma abertura de pensamento que tento não descurar nunca - o ser humano é tão profundo, rico e diversificado como as águas dos oceanos e quero mergulhar cada vez mais nesse mundo riquíssimo que somos cada um de nós.
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