27 de junho de 2014
26 de junho de 2014
Um milagre que aconteceu à nossa alma*
Sophia chegou-me através do cavalo-alado de Almada Negreiros que ilustrava a capa do livro Poesia I (Edições Ática, 1975, 3ºedição), que um dia encontrei pousado numa mesinha lá em casa. Tinha uns quatro ou cinco anos e ainda não sabia ler. Lembro-me de ficar largos minutos a olhar o desenho, encantada com a possibilidade de existir um cavalo com asas - o cavalo sempre foi o meu animal preferido e desde aquele dia fantasiei inúmeras aventuras, tendo esse ser mágico como companheiro ideal.
Uns dois ou três anos mais tarde, já sabendo juntar letras e o significado de muitas palavras, sentei-me uma tarde no banco namoradeiro da janela da sala de visitas, escondida atrás dos reposteiros compridos, e comecei a ler o livro do cavalo que nunca perdera de vista, pelo fim, como ainda hoje faço. No ponto onde o silêncio e a solidão/ Se cruzam com a noite e com o frio,/ Esperei como quem espera em vão,/ Tão nítido e preciso era o vazio., continua a ser um dos meus poemas preferidos e sei-o de cor desde aquela tarde, quando ainda não conseguia alcançar o pleno significado das palavras que ele contém.
Começava, assim, o meu encantamento pela poesia. Primeiro com Sophia, depois com tantos outros cuja musicalidade escrita me enchiam de vida e sonhos. A poesia tornava-se, para mim, tão necessária como o ar ou como a água. Era e é um alimento do qual não consigo prescindir, embora nem sempre o consuma em iguais quantidades.
Acho que já li toda a obra de Sophia. Todos os poemas, que poderiam ajudar a escrever a história da minha vida - há um poema para cada momento, quase; os contos e livros infantis, cujas personagens enriqueceram a minha infância e imaginação; e os (pouquíssimos) textos em prosa, que encerram em si o essencial de toda a sua poesia e mensagem ética e estética.
Estes dois textos são os meus preferidos e já aqui os postei anteriormente, assim como muitos poemas de Sophia:
Caminho da manhã
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.
- in Livro Sexto, 1962 -
Retrato de Mónica
Mónica é uma
pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família,
ser chiquíssima, ser
dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos
negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar
muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de
toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem
dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde,
levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser
sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo
exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho
conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura.
Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de
tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e
uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a
sol.
De facto,
para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica
teve que renunciar a três
coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é
oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é
oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra
mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso
aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os
dias.
Isto obriga
Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar
a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção.
Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são
úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas
as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem
tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem,
até os desgostos.
Os jantares
de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A
comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica
nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a
sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua
inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência
que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima
de mandarins e de
banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e
cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre
com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada
de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o
próprio Sol se enerva.
O marido de
Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste
marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o,
aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma
coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o
casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O
contrato que os une é indissolúvel,
pois o divórcio arruína as situações mundanas.
O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso
que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a
obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus
amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças
já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela
todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer
a fímbria dos
seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso
Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel,
cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos.
Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito,
que ela serve.
Pode-se
dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra
trazida por Mónica.
Há vários
meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela
estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois
com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente
sabe que Mónica é seriíssima toda
a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o
desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural
que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é
o seu maior apoio; mais firme fundamento do
seu poder.
- in Contos Exemplares, 1996 (29ª ed.) -
Devo a Sophia não apenas o gosto pela poesia, pela palavra escrita e pela sonoridade das palavras. Devo-lhe, acima de tudo, a forma como quero olhar o mundo e a maneira como viajo: de olhos bem abertos, pois só o olhar não mente.
Ontem, numa noite orvalhada ainda em rescaldo são joanino, a Casa da Música encheu-se para homenagear Sophia. Quase dez anos após a sua morte foi emocionante perceber como ela, nas palavras do seu filho Miguel, continua deslumbrantemente actual. As lágrimas e a voz embargada da minha mãe não o deixaram mentir. As minhas foram choradas no silêncio da casa adormecida, durante esse lento círculo azul do tempo que Sophia tanto gostava.
(*Maria Velho da Costa, sobre Sophia)
31 de maio de 2014
...
Porto - Entre o Homem do Leme e o Castelo do Queijo
Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como dum Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.
A anémona dos dias, de Sophia de Mello Breyner Andresen
23 de maio de 2014
As minhas sombras.
Fellini, se fosse vivo, teria pano para mangas, caso resolvesse pegar na minha pessoa como inspiração. Jung, então, já nem se fala.
22 de maio de 2014
O que fazer quando a exaustão, a tristeza e uma boa dose de frustração tomam conta de nós?
Dar o dia por terminado, entregar aos deuses, sentar, relaxar e regressar aqui:
21 de maio de 2014
Num dia de chuva.
Eu só queria despir-nos
Como se tira habilmente
A seda aos pêssegos
E nus adormecermos
Sem saber quem somos
Sem jogos aos ombros
Que vêm de pequenos
Pelo faro pelos poros
Pelo sono dos cabelos
Pelo estalinho dos dedos
Eu só queria deixar-nos
Como o sol a bater
Na cal dos muros
E nus adormecermos
Sem contar os beijos
Sem dizer piropos
Como o cio dos frutos
Como a pele dos bichos
Como o íman dos olhos
Dos velhos sentados
- Ao sol, de Joaquim Castro Caldas -
18 de maio de 2014
17 de maio de 2014
16 de maio de 2014
Inaudible Melodies.
Na minha janela - Maio de 2014
Hoje acordei com uma vontade imensa de ouvir Jack Johnson (JJ, para os amigos). Já não me lembro quando foi a última vez que o ouvi, sei que a certa altura deixou de me apetecer a sua voz, as suas músicas e as suas letras. Não sei explicar a razão. Não acredito naquela coisa do não devemos voltar aos sítios onde já fomos felizes, muito menos às músicas que já nos deixaram felizes ou marcaram vários momentos. O que é certo é que a determinada altura deixou de me fazer sentido ouvi-lo. Até hoje. Passei a manhã a percorrer canções e a cantar todas as letras, descobrindo não apenas que a minha memória não está assim tão má como às vezes parece, mas também que o JJ será sempre um velho amigo, daqueles que até podemos estar anos sem ver, tendo a certeza de que a intimidade e a sintonia continuam no momento exacto do reencontro.
Hoje, ao cantar juntamente com ele, fui desfiando memórias mais ou menos felizes: as viagens de carro ouvindo a sua música, os últimos Verões antes da entrada definitiva na vida adulta, aquele concerto em Barcelona, os miúdos ainda com cara de criança, o mais velho com o cabelo à tigela, o mais novo sempre agarrado a mim. O (verdadeiro) último Verão da avó e o cuidado que sempre tínhamos em pôr a música mais baixo quando ela ia dormir. A Primavera e o início do Verão em Roma. Lagos e a Meia-Praia. A Mary-Mary pequenina, ao meu colo, a dançar ao som da Bubble Toes. As lágrimas que as suas melodias iam encobrindo, sempre que chorava sozinha no quarto, durante aqueles anos difíceis (que teimam em não passar).
Hoje, mesmo não sabendo muito bem porque o deixei de ouvir, dei por mim a sorrir várias vezes e fiquei feliz com o nosso reencontro.
We get each other. We know that Plato's cave is full of freaks demanding refunds for the things they've seen!
15 de maio de 2014
14 de maio de 2014
Isto é tão bonito.
Há qualquer coisa de muito transmontano nos cantares alentejanos. Uma lonjura de horizontes, uma melancolia com cheiro a coentros e sabor a pão molhado em azeite. Há qualquer coisa de alentejana nesta transmontana-minhota-tripeira que sou. Uma tristeza contida, uma ânsia pela sabedoria das coisas simples, mas nem por isso simplórias, e uma liberdade entranhada até à medula.
12 de maio de 2014
...
Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.
Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.
Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.
Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.
- Eugénio de Andrade -
- Eugénio de Andrade -
10 de maio de 2014
LaL
Baía de Cascais, 2011
- - Mar sem fim: 360º ao redor da Antártica, de Amyr Klink -
9 de maio de 2014
Hoje, o céu está em festa!
E estes dois já estão a cantar, lado a lado e de sorriso bem aberto:
Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão em baixo do braço
Em qualquer esquina, eu paro, em qualquer botequim
Eu entro, e se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto, diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
1 de maio de 2014
Vinte anos.
Ou como o tempo parece estar a voar.
Era domingo, Dia da Mãe. Eu tinha catorze anos e uma paixão pueril por ti. Tínhamos ido a Braga almoçar com os avós e estávamos a atravessar Maximinos em direcção ao Porto quando ouvimos a notícia na rádio. Toda eu gelei. Não era possível - tu não podias desaparecer daquela maneira. E agora? Pouco mais de sete anos depois da morte me ter roubado a infância vinhas tu obrigar-me a olhar-me ao espelho. Se a tua morte serviu para alguma coisa, foi para me obrigar a procurar e a exigir respostas às perguntas que ecoavam dentro de mim há já demasiados anos. Permiti-me chorar pela primeira vez sem ser às escondidas, virei a minha vida do avesso, num processo longo que, de certa forma, dura até hoje. É que a dor e o sofrimento não me pertencem em exclusivo, muito menos a dor a que me refiro. Eu apenas iniciei o processo da cura possível. No entanto, nunca mais consegui ver uma corrida de F1 do início ao fim. Alguma coisa deixou de fazer sentido naquelas pistas para mim. Talvez um dia me volte a deixar embalar pelo zumbido característico dos carros a acelerar, volta após volta. A alegria de te ver correr, essa, não desaparecerá nunca.
Obrigada.
30 de abril de 2014
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