16 de maio de 2014

Inaudible Melodies.



Na minha janela - Maio de 2014


Hoje acordei com uma vontade imensa de ouvir Jack Johnson (JJ, para os amigos). Já não me lembro quando foi a última vez que o ouvi, sei que a certa altura deixou de me apetecer a sua voz, as suas músicas e as suas letras. Não sei explicar a razão. Não acredito naquela coisa do não devemos voltar aos sítios onde já fomos felizes, muito menos às músicas que já nos deixaram felizes ou marcaram vários momentos. O que é certo é que a determinada altura deixou de me fazer sentido ouvi-lo. Até hoje. Passei a manhã a percorrer canções e a cantar todas as letras, descobrindo não apenas que a minha memória não está assim tão má como às vezes parece, mas também que o JJ será sempre um velho amigo, daqueles que até podemos estar anos sem ver, tendo a certeza de que a intimidade e a sintonia continuam no momento exacto do reencontro. 
Hoje, ao cantar juntamente com ele, fui desfiando memórias mais ou menos felizes: as viagens de carro ouvindo a sua música, os últimos Verões antes da entrada definitiva na vida adulta, aquele concerto em Barcelona, os miúdos ainda com cara de criança, o mais velho com o cabelo à tigela, o mais novo sempre agarrado a mim. O (verdadeiro) último Verão da avó e o cuidado que sempre tínhamos em pôr a música mais baixo quando ela ia dormir. A Primavera e o início do Verão em Roma. Lagos e a Meia-Praia. A Mary-Mary pequenina, ao meu colo, a dançar ao som da Bubble Toes. As lágrimas que as suas melodias iam encobrindo, sempre que chorava sozinha no quarto, durante aqueles anos difíceis (que teimam em não passar). 
Hoje, mesmo não sabendo muito bem porque o deixei de ouvir, dei por mim a sorrir várias vezes e fiquei feliz com o nosso reencontro. 

We get each other. We know that Plato's cave is full of freaks demanding refunds for the things they've seen!

14 de maio de 2014

Isto é tão bonito.



Há qualquer coisa de muito transmontano nos cantares alentejanos. Uma lonjura de horizontes, uma melancolia com cheiro a coentros e sabor a pão molhado em azeite. Há qualquer coisa de alentejana nesta transmontana-minhota-tripeira que sou. Uma tristeza contida, uma ânsia pela sabedoria das coisas simples, mas nem por isso simplórias, e uma liberdade entranhada até à medula. 

12 de maio de 2014

...


Onde me levas, rio que cantei, 

esperança destes olhos que molhei 
de pura solidão e desencanto? 
Onde me levas?, que me custa tanto. 

Não quero que conduzas ao silêncio 
duma noite maior e mais completa, 
com anjos tristes a medir os gestos 
da hora mais contrária e mais secreta. 

Deixa-me na terra de sabor amargo 
como o coração dos frutos bravos, 
pátria minha de fundos desenganos, 
mas com sonhos, com prantos, com espasmos. 

Canção, vai para além de quanto escrevo 
e rasga esta sombra que me cerca. 
Há outra face na vida transbordante: 
que seja nessa face que me perca.

- Eugénio de Andrade -

10 de maio de 2014

LaL


Baía de Cascais, 2011

Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver... Il faut aller voir - é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo.

- Mar sem fim: 360º ao redor da Antártica‎, de Amyr Klink

9 de maio de 2014

Hoje, o céu está em festa!



E estes dois já estão a cantar, lado a lado e de sorriso bem aberto:

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão em baixo do braço
Em qualquer esquina, eu paro, em qualquer botequim
Eu entro, e se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto, diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim