14 de maio de 2014

Isto é tão bonito.



Há qualquer coisa de muito transmontano nos cantares alentejanos. Uma lonjura de horizontes, uma melancolia com cheiro a coentros e sabor a pão molhado em azeite. Há qualquer coisa de alentejana nesta transmontana-minhota-tripeira que sou. Uma tristeza contida, uma ânsia pela sabedoria das coisas simples, mas nem por isso simplórias, e uma liberdade entranhada até à medula. 

12 de maio de 2014

...


Onde me levas, rio que cantei, 

esperança destes olhos que molhei 
de pura solidão e desencanto? 
Onde me levas?, que me custa tanto. 

Não quero que conduzas ao silêncio 
duma noite maior e mais completa, 
com anjos tristes a medir os gestos 
da hora mais contrária e mais secreta. 

Deixa-me na terra de sabor amargo 
como o coração dos frutos bravos, 
pátria minha de fundos desenganos, 
mas com sonhos, com prantos, com espasmos. 

Canção, vai para além de quanto escrevo 
e rasga esta sombra que me cerca. 
Há outra face na vida transbordante: 
que seja nessa face que me perca.

- Eugénio de Andrade -

10 de maio de 2014

LaL


Baía de Cascais, 2011

Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver... Il faut aller voir - é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo.

- Mar sem fim: 360º ao redor da Antártica‎, de Amyr Klink

9 de maio de 2014

Hoje, o céu está em festa!



E estes dois já estão a cantar, lado a lado e de sorriso bem aberto:

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão em baixo do braço
Em qualquer esquina, eu paro, em qualquer botequim
Eu entro, e se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto, diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim

Ela, o Douro e um gelado.








Maio de 2014

Ou a certeza de que preciso cada vez menos para ser (tranquilamente) feliz.

1 de maio de 2014

Vinte anos.



Ou como o tempo parece estar a voar.

Era domingo, Dia da Mãe. Eu tinha catorze anos e uma paixão pueril por ti. Tínhamos ido a Braga almoçar com os avós e estávamos a atravessar Maximinos em direcção ao Porto quando ouvimos a notícia na rádio. Toda eu gelei. Não era possível - tu não podias desaparecer daquela maneira. E agora? Pouco mais de sete anos depois da morte me ter roubado a infância vinhas tu obrigar-me a olhar-me ao espelho. Se a tua morte serviu para alguma coisa, foi para me obrigar a procurar e a exigir respostas às perguntas que ecoavam dentro de mim há já demasiados anos. Permiti-me chorar pela primeira vez sem ser às escondidas, virei a minha vida do avesso, num processo longo que, de certa forma, dura até hoje. É que a dor e o sofrimento não me pertencem em exclusivo, muito menos a dor a que me refiro. Eu apenas iniciei o processo da cura possível. No entanto, nunca mais consegui ver uma corrida de F1 do início ao fim. Alguma coisa deixou de fazer sentido naquelas pistas para mim. Talvez um dia me volte a deixar embalar pelo zumbido característico dos carros a acelerar, volta após volta. A alegria de te ver correr, essa, não desaparecerá nunca. 

Obrigada.