25 de março de 2014

Abrunhosa por Bethânia.



De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?

Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.
Quem leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
Quem leva os meus fantasmas?
Quem leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
E me diz onde e a estrada
- letra&música de Pedro Abrunhosa -

24 de março de 2014

London 6.






Não foi uma decisão fácil, a de deixar os museus de fora dos nossos dias em Londres. Quatro dias incompletos (três, no meu caso, pois um dia foi passado em entrevistas e provas) não chegam para tudo e, por isso, tivemos que fazer uma escolha difícil e optamos por andar o mais que conseguíssemos pela cidade, sentir-lhe o pulso, apreciar a arquitectura, os monumentos, o congestionamento calculado do trânsito, o fluir das suas gentes, os parques, a forma como a urbe se organiza - os museus, as galerias de arte e o interior de alguns monumentos que gostaríamos de visitar tiveram que ficar para uma próxima vez e isso só nos dá ainda mais alento para lá voltarmos em breve. 
A única excepção? O Museu de História Natural e os seus dinossauros, entre outras coisas (coisas essas que também ficaram para uma nova visita à cidade), numa visita relâmpago. O motivo é simples e bastante pessoal, pelo que vale o vale: quando era miúda, teria aí uns seis ou sete anos, o meu primo João, o meu primo mais próximo em idade, foi a Londres de férias com os pais e o irmão. O David, pai do João, é inglês, férias em Inglaterra eram normais para eles e uma excitação para os restantes primos, pelas aventuras que sempre traziam para contar no regresso. Nesse ano, em particular, o João trazia histórias fantásticas e livros a comprovarem-nas. Uma delas era o relato da visita ao Museu de História Natural e o livro em 3D dos dinossauros, alusivo à exposição permanente dos esqueletos, fósseis e demais particularidades do referido animal. Eu, que à época queria ser arqueóloga e andava fascinada pelos Tiranossauros e companhia, vidrei no livro, que folheei vezes sem conta. Para além disso, o David tem uma maneira muito especial e pormenorizada de contar histórias, que me cativa ainda hoje. Talvez o sotaque very british que nunca perdeu seja parte do charme, assim como os detalhes que só ele parece conseguir observar. 
A verdade é que aquela ida ao Museu ficou para sempre gravada nas minhas memórias de infância como uma aventura inesquecível e sempre soube que na primeira vez que pisasse solo londrino iria recriá-la à minha maneira - assim foi: um sorriso de orelha a orelha, um brilho infantil no olhar e um uauuu despudorado mal pus os pés no átrio e me vi de caras com o primeiro esqueleto gigante. Ali, à minha frente. Valeu a pena a espera e sim, é muito bom de vez em quando deixar sair a criança que há em nós. É revigorante.

...

Spring is like a perhaps hand
(which comes carefully
out of Nowhere) arranging
a window, into which people look (while
people stare
arranging and changing placing
carefully there a strange
thing and a known thing here) and

changing everything carefully

spring is like a perhaps
Hand in a window
(carefully to
and from moving New and
Old things,while
people stare carefully
moving a perhaps
fraction of flower here placing
an inch of air there) and

without breaking anything.

- E. E. Cummings -

22 de março de 2014

Ese lunar que tienes, Cielito Lindo, junto a la boca,



no se lo des a nadie, Cielito Lindo, que a mi me toca.

Memórias de infância, uma das versões mais bonitas de Cielito Lindo e uma descoberta tão boa nestes dias tão incertos - Marta Gómez, uma voz colombiana a não perder de vista. 

London 5.












Pelas ruas da cidade.

Melhor dizendo, pelas ruas das várias cidades que Londres abraça. Cada bairro é um pequeno mundo, um micro-cosmos dentro da grande metrópole cosmopolita, com um ritmo, uma respiração e um colorido diferentes. Londres é uma daquelas cidades capazes de agradar a gregos e a troianos, quase que poderia apostar, tamanha a diversidade de ambientes e cenários à disposição. Há uma Londres mais cultural, outra mais boémia ou ambas as duas ao mesmo tempo; uma mais fashionista, outra mais clássica; uma mais campestre, outra mais nervoso citadino; uma mais cinzenta, outra mais colorida; uma mais cara e outra mais acessível a quem já perde um dinheirão em câmbios. 
É uma daquelas cidades para se ir descobrindo devagarinho e voltar todas as vezes que for possível. A nós, temos a certeza que jamais cansará e que a cada regresso descobriremos recantos não mencionados nos guias turísticos e teremos sempre coisas novas para fazer, ver ou desfrutar. 

21 de março de 2014

London 4.










Notting Hill
Portobello Market, Portobello Road

Sábado. Acordamos com uns raios de sol a espreitar pela janela do quarto e saltámos da cama decididas a aproveitar o dia ao máximo. Depois de um simples, mas muito saboroso pequeno-almoço - aquele chá preto logo pela manhã dava-nos uma energia incrível, as torradas com manteiga e compota de morango sabiam-nos pela vida e a tacinha de cereais com leite era o complemento ideal para começarmos bem o dia, saímos para a rua em direcção a Notting Hill. 
Há refeições de uma simplicidade extrema que nos reconfortam de uma forma ímpar, como o pequeno-almoço composto de café escuro com um pouco de leite e um delicioso pão com manteiga de uma pensão em Viena que eu jamais esquecerei. Este dia, passado entre mercados, bancas de rua, piqueniques improvisados e óptimas aquisições de bens alimentares a preços bastante aceitáveis, teve muito a ver com comida e com a forma como nos relacionamos com ela (a melhor relação possível!), assim como com a certeza que as nossas memórias afectivas, de viagem, etc, passam, em larga medida, por momentos relacionados com pequenas - ou grandes!, degustações gastronómicas. 
Sabíamos que sábado é o dia clássico do Portobello Market, provavelmente o dia mais movimentado, também. No entanto, com umas nuvens negras a fazer cara feia ao sol e a ameaçar chuva a todo o instante, íamos com a esperança que não estivesse muito gente, naquela manhã fria de Dezembro. Redondo engano. A Portobello Road fervilhava de pessoas de todas as nacionalidades, uma imensidão de turistas e um mundo de possibilidades. Por onde começar? Esta é talvez a pergunta que qualquer pessoa faz quando ali chega. Nós começamos sensivelmente a meio da rua, por nenhum motivo especial, simplesmente foi aí que fomos parar depois de andar alguns metros para o lado esquerdo da paragem do autocarro, seguindo a multidão. 
Depois de se estar em pleno mercado, é um pouco indiferente o ponto por onde se começa. Se forem como nós, o mais certo é andarem para trás e para a frente, revisitando banquinhas, lojas que à primeira passagem estavam mais apinhadas (entramos em muito poucas, pois não íamos com o intuito de comprar nada e o tempo não abundava, mas havemos de lá voltar para inspeccionar cada uma como deve ser) e tentando decidir afinal onde e o que é que íamos almoçar. Acabamos a comer as melhores falafel de sempre, enroladinhas num pão pita delicioso e com uma tahine de ir, literalmente, às lágrimas - a Pequenina, que não é lá grande amiga de coisas picantes, ia morrendo após a primeira dentada. Depois de as nossas papilas gustativas se habituarem, não queríamos outra coisa. Foi um prazer imenso saborear aquelas falafel enquanto caminhávamos ao longo do último pedaço de mercado que queríamos ver e a caminho da paragem de autocarro, rumo ao destino seguinte. 
O mercado inteiro é uma perdição: desde as bancas com frutas e legumes às bancas com as mais variadas iguarias, nacionais e importadas; as velharias, as relíquias e os livros de edições antiquíssimas; as roupas mais ou menos alternativas, os discos de vinil com músicas de hoje e de outrora; os mais variados souvenirs, pratos com o rosto da Rainha, o casal-sensação do momento e centenas de bandeirinhas azuis, brancas e vermelhas; chinesices inflacionadas pela Libra e trabalhos mais ou menos originais de artistas à procura do seu momento de glória e reconhecimento. Há de tudo um pouco, para os mais variados gostos e carteiras. O cenário, contudo, é grátis e de todos os que por lá quiserem passar. Só não vão à procura do William Thacker aka Hugh Grant - podemos garantir que a simpática livraria é apenas uma vulgar sapataria, que apesar de ter aproveitado o nome e o lettering do filme não se está a conseguir manter, a julgar pelo cartaz vende-se na montra da loja. 
Andar por Notting Hill (e não, também vos podemos garantir que não vão conseguir descobrir qual era a porta azul afinal!) é como entrar num desenho infantil. Casas de várias cores, tamanhos e feitios, pequenos jardins encantados, as mais inusitadas decorações nas portas, janelas e varandas e uma sensação constante de boa onda, uma coolness não tão pretensiosa como estava à espera. Aqui poderia ser feliz, foi uma frase que repetimos bastante naquele dia.

...



Porto, 2014

A Primavera marca o calendário, embora a seja a chuva a dar hoje o ar da sua graça. Eu lá vou arranjando formas de seguir em frente, tentando agarrar-me a tudo o que tenho de bom, enquanto espero a Primavera dentro de mim. Melhores dias virão, e é essa esperança que me mantém à tona.