11 de março de 2014

O lugar da casa.

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
                  - Eugénio de Andrade - 

10 de março de 2014

London 2.










4 - Carnaby Street, Soho
5 e 6 - Leicester Square, Soho
7 - M&M's World, Soho
8 - Piccadilly Circus, Soho
9 - Regent Street, Soho

Ir a Londres em plena quadra natalícia é um bónus que nos deixou ainda mais entusiasmadas. A cidade ganha uma magia incrível, as ruas ficam mais bonitas e há um colorido de luzes, sacos de compras a bambolear em mãos de gentes mais ou menos apressadas, montras primorosamente decoradas e um espírito festivo, de comunhão e de alegria como não temos sentido no nosso país. Pelo menos não nos últimos anos. 

Quase todas as ruas estavam engalanadas, havia pequenos mercados natalícios e feiras com carrosséis, bancas com as mais diversas iguarias, bebidas mais ou menos quentes, ao gosto variado de quem ia passando, em quase todas as praças. Nas ruas mais movimentadas e com maior comércio, como é o caso da Regent Street e toda a zona envolvente, sentia-se um frenesim que nos envolvia por completo. Mesmo quem não estava ali para fazer compras, como era o nosso caso, não ficáva indiferente à excitação palpável e aos sorrisos. Não sendo o Natal apenas sinónimo de presentes, era inegável a alegria contagiante de quem andáva à procura do presente certo para oferecer aos seus. Essa felicidade era visível e contrastáva não apenas com o clima cinzento que se fazia sentir em terras de Sua Majestade como, acima de tudo, com o ar sombrio e cabisbaixo das nossas gentes aqui em Portugal. Um contraste que mexeu muito connosco e nos fez desejar apenas melhores dias para todos nós como presente no sapatinho. 

A cidade está repleta de turistas em qualquer época do ano, no entanto, havia uma amálgama de gente diferente pelas ruas, com imensas pessoas às compras e a deliciarem-se com as luzes e os mais variados eventos alusivos à quadra, não apenas estrangeiros mas também ingleses de outras zonas do país que aproveitavam para ali fazer as suas compras de Natal e desfrutar de tudo o que Londres tem para oferecer por aqueles dias. Nós andámos o tempo todo pela cidade como duas crianças numa loja de brinquedos, literalmente em vésperas de Natal. Concordámos que tudo tinha um brilho especial e aqueles dias conseguiram resgatar em nós um pouco do espírito natalício que temos vindo a perder, pelos mais diversos motivos. Acordámos a criança que ainda há em nós e permitimo-nos viver aquele momento como se estivéssemos a ver tudo pela primeira vez, numa excitação pueril que nos comoveu. 

Fomos a Covent Garden e perdemo-nos pelos seus mercados, ouvindo a orquestra que tocáva ao centro, tornando todo o ambiente ainda mais acolhedor - não há nada como uma boa música tocado ao vivo. Deliciámo-nos com cada pormenor, ficámos com pena de não irmos mais endinheiradas para nos podermos sentar num dos muitos restaurantes ou fazer uma ou outra compra (perdíamos facilmente a cabeça na lojinha de brinquedos ou na outra cheia de objectos de inspiração náutica, só assim a título de exemplo). À hora de almoço, seguimos o cheirinho das beef pies with mashed potatoes, pedimos uma caixinha para levar e fomos procurar um sítio abrigado da chuva onde pudéssemos almoçar sossegadas e sentadas, de preferência. Assim descobrimos, à conta de tanto deambular à volta dos mercados, mais umas quantas ruas encantadoras e lá conseguimos saborear a nossa tarte descansadinhas e sentadas nuns degraus - um piquenique improvisado que nos soube pela vida, provando que não precisamos de muito para sermos genuinamente felizes. 

No Soho, um dos mais boémios, liberais, plurais e empolgantes bairros da cidade, poderíamos passar horas, senão mesmo dias inteiros. Já não sei onde li a frase-slogan seja lá o que procura, encontrará no Soho, mas parece-me ser um bom resumo do que se pode esperar daquele recanto londrino. Restaurantes, bares, discotecas, pubs, padarias, confeitarias, lojas mais ou menos alternativas, teatros, casinos, bancas de fruta e produtos orgânicos - ali há de tudo um pouco para os mais variados gostos e carteiras. Durante o dia, as ruas têm um ambiente descontraído e ecléctico, com pessoas às compras, a almoçar, a tomar um cappuccino ou a saborear um happy hour num dos muitos estabelecimentos que há à disposição, tornando a escolha um jogo de sorte ou de conhecimento comprovado. À noite, diversas tribos urbanas convivem alegremente em restaurantes apinhados, filas de espera nos bares mais badalados ou em deambulações animadas pelas ruas. A Chinatown é também um ponto de paragem obrigatório para quem gostar de (bons) sabores asiáticos, transportando-nos imediatamente para paragens mais longínquas e relembrando-nos a cada passo que estamos numa das capitais mais cosmopolitas do mundo. 

Um dos momentos de pura alegria que vivemos foi a ida à M&M's World, a mega loja dos amendoins achocolatados mais famosos do mundo e uma das pouquíssimas lojas onde nos permitimos entrar. Quem nos conhece, sabe da nossa paixão por estes coloridos amendoins, não apenas porque gostamos mesmo muito de os comer, mas também porque fazem um pouco parte da história da nossa amizade. Como boas homónimas que somos, Marianas de alma e coração, passamos a ser conhecidas como as M&M entre familiares e amigos - uma dupla imbatível que percorreu os quatro andares da meca londrina dos amendoins como se aquilo fosse a última coca-cola do deserto, fingindo ser outra vez pequeninas e tentando conter a gula perante milhares de amendoins de todas as cores possíveis e imaginárias.

Se a ida a Londres não tivesse servido para mais nada, tínhamos regressado de lá com a certeza de termos sorrido mais naqueles curtíssimos dias e dado as mais sonoras gargalhadas dos últimos anos. Só por isso já teria valido a pena. Isso e a convicção de que um pouquinho de ridículo nunca fez mal a ninguém. 

Another sunny day.

9 de março de 2014

À espera da Primavera.








Leça da Palmeira, Março de 2014

Ontem fui cheirar o mar, comer um gelado, sentir o sol na pele e fechar os olhos, trauteando Caymmi e saboreando a maresia que me beijava os lábios. Os problemas não desapareceram, mas aquelas horinhas já ninguém me tira. Abençoado sol. 

7 de março de 2014

London 1.



Acton Town station
Acton - west London

A única coisa que levávamos marcado era um pequeno hostelzinho/b&b, escolhido pela conveniência do local. A proximidade em relação à Piccadilly Line era vital, uma vez que no dia da entrevista teria que me apresentar às 8h da manhã. A relação qualidade/preço é francamente boa, para além de ser bastante em conta para os preços praticados na cidade. É humilde, mas a simpatia e disponibilidade de todos compensa o que possa faltar em conforto e oferta de serviços. Se alguma vez forem a Londres com um budget apertado, como foi o nosso caso, poderá ser uma hipótese a considerarem. Não nos pagam pela publicidade, mas gostamos de passar a palavra quando achamos que vale a pena.

Acton fica localizado na zona oeste da cidade. Pelo que conseguimos perceber, é uma zona bastante habitada por imigrantes - polacos, indianos, sul-africanos, somalianos, havendo uma variedade imensa de restaurantes com cozinha de diversos países, assim como muito comércio explorado por imigrantes de várias nacionalidades. Uma diversidade cultural que enche as ruas de um colorido muito particular e transforma uma banal viagem de autocarro ou de metro num verdadeiro melting pot e um desafio para todos os sentidos. A quantidade de línguas diversas que é possível ouvir em apenas 5 minutos é de deixar qualquer um abananado, tentando perceber de que língua se trata. Um pequeno laboratório do que se pode encontrar um pouco por toda a cidade.

Chegar a uma cidade que sempre se desejou conhecer, sobre a qual já tanto tinha lido, sonhado, projectado, da qual já tinha visto tantas imagens e ouvido tantos relatos, é uma sensação estranha e algo difícil de descrever. Por um lado, tudo é novidade, o nosso olhar parece não conseguir abarcar tudo o que queremos ver, os outros sentidos quase têm um curto-circuito, tamanha a adrenalina, a emoção, os cheiros, os sons, as imagens para processar. Por outro, a sensação de dèja vu é uma constante, há uma familiaridade em tudo que nos comove, como se estivéssemos a entrar em casa de um velho amigo que não visitamos há muito tempo.

Para a Pequenina, esta foi a terceira visita a Londres, pelo que muito do que eu ia vivendo e experimentando era guiado pelo olhar conhecedor dela. A cidade que eu vi durante aqueles curtíssimos quatro dias foi, também por isso, o filme que ela produziu e me foi mostrando, rua após rua. Uma película de afectos, de memórias de infância, referências literárias e cinéfilas. Uma busca pela cidade que levávamos dentro de nós e fomos revendo e encontrando passo a passo, nos muitos quilómetros que fizemos, ao frio e à chuva, calcorreando tanto quanto o tempo disponível nos permitiu. 

Ficou ainda tanta coisa por ver, tanta coisa por fazer, tantos sítios onde nos queríamos simplesmente sentar a sentir o pulsar da cidade e ver as suas gentes passar. Não houve tempo para isso, mas, ainda assim, acho que conseguimos captar um pouco da alma londrina. À nossa maneira, através dos mais variados filtros que constituem cada uma de nós. Uma janelinha aberta sobre a cidade que vos vamos trazendo, na expectativa de que possa servir a alguém. 

No fundo, no fundo, um exercício para a (nossa) memória futura. Uma tentativa de fazer perdurar por mais tempo aquela sensação boa de se fazer um novo amigo para a vida - porque queremos voltar a Londres todas as vezes que nos for possível e desvendar todos os seus mistérios. 

6 de março de 2014

☀︎



Anunciam-se dias com temperaturas a rondar os 20º quase em todo em país, céu azul e o sol a brindar-nos com a sua presença pelo menos até 2ªfeira. Ontem, no FB de uma amiga, depois de ela ter postado a notícia que dáva conta de dias tão afortunados, disse-lhe que temia que na próxima semana andássemos todos outra vez a cantar são as águas de Março fechando o Verão, depois de dias anormalmente quentes, voltando a mesmice da chuva e dos dias cinzentos, que tem sido a constante deste já (demasiado) longo Inverno. Prefiro uma transição para a Primavera mais suave, mas em crescendo, claro, com tudo aquilo a temos direito. Brisas matinais a puxar um pouco de calor para a tarde, noites a cheirar a flores que entretanto foram crescendo nos baldios e em todos os canteiros que conseguiram, as andorinhas e todos os pássaros a regressarem até nós e o seu chilrear a lembrar-nos que depois da tempestade vem sempre a bonança. Não quero que o Verão me atropele a Primavera, por mais desesperada por sol e calor que eu esteja. Bem sei que só se anunciam uns amenos 20º graus, mas já se houve falar num Verão escaldante, o mais quente dos últimos não sei quantos anos, e eu preciso que esta transição seja o mais suave possível, podendo ver a Natureza desabrochar em todo o seu esplendor sem, literalmente, queimar etapas.

No entanto, o céu azul de hoje soube-me pela vida, só me apetecia andar com a cara virada para o sol, saboreando cada raio. Apetecia-me ter ido até á beira mar, sentar-me na areia a fazer a fotossíntese, enquanto ouvia Charles Mingus ou Thelonious Monk, por exemplo, sem nunca tirar os olhos do mar. A realidade foi outra - talvez o fim-de-semana me conceda esse desejo. 

5 de março de 2014

Just breathe.

In the quiet of a shadow 
In the corner of a room 
Darkness moves upon you 
Like a cloud across the moon 

You're aware in all the silence 
Of a constant that will turn 
Like the windmill left deserted 
Or the sun forever burn 

So don't forget to breathe 
Don't forget to breathe 
Your whole life is here 
No eleventh hour reprieve 
So don't forget to breathe 

Keep your head above water 
But don't forget to breathe 

And all the suffering that you've witnessed 
And the hand prints on the wall 
They remind you how it's endless 
How endlessly you fall 

Then the answer that you're seeking 
For the question that you found 
Drives you further to confusion 
As you lose your sense of ground 

So don't forget to breathe 
Don't forget to breathe 
Your whole life is here 
No eleventh hour reprieve 
So don't forget to breathe 

Keep your head above water 
But don't forget to breathe 

Breathe...

Don't forget to breathe 
Don't forget to breathe 
You know you are here 
But you find you want to leave 
So don't forget to... breathe 

Just breathe...