28 de fevereiro de 2014

Comfort food - zero calorias


Rendi-me logo ao primeiro episódio e aguardo pacientemente pelos próximos, como quem espera por um grupo de amigos para jantar. Trinta minutos de boa disposição, personagens interessantes, humor inteligente e diálogos bem escritos. Meia-hora de comfort food para a alma, assim uma espécie de manta quentinha neste Inverno interminável. É claro que se lhe juntarem um chá de limonete e bolachinhas, as zero calorias passam à história. But who's counting, right?

27 de fevereiro de 2014

Maria

Agosto 2013


Tenho uma filha (do coração) que faz hoje 14 anos. Catorze. Dez mais quatro. Pergunto-me como foi possível o tempo passar tão depressa e aquela bebé de olhos cor-de-azeitona-preta, enormes, uns faróis que me seguiam a cada movimento meu, ser hoje uma mulherzinha com a mania que é gente grande. 

Um dia conto a nossa história. 

Parabéns, Mary Mary!

26 de fevereiro de 2014

Hasta siempre, Paco!



O meu primo Miguel lembrava hoje no Facebook, na sua homenagem a Paco de Lucia, as viagens que fez em criança, entre o Porto e Vimioso com os pais e a irmã, a ouvi-lo, ininterruptamente. Na época achava uma tortura, entediando-se no banco de trás com a Inês ao longo das várias horas de viagem. Mais tarde, uns anitos mais velho e já aprendiz de guitarra, veio a aperceber-se do génio maior que é Paco e hoje despediu-se de um dos seus mestres. Emocionei-me com o seu relato e sei da sinceridade das suas palavras. Também eu conto com muitas viagens Marão acima, Marão abaixo, ainda pela estrada antiga - ou seja, o dobro do tempo - a ouvir a guitarra única do mestre. Ao contrário dos meus primos, nunca me entediou. O som mágico que saía daquelas cordas mexe tanta comigo hoje como na altura. 
Guardo algures uma cassete velinha, gravada por mim, gasta por tantas horas de uso. Eram noventa minutos da guitarra do Paco intercalada com a voz dos três tenores. Ouvi-a vezes sem conta a caminho de Trás-os-Montes, no carro, e no meu walkman, durante passeios por montes e vales ou uma simples volta à vila. Sempre me pareceu que aqueles quatro, entre outros, encaixavam perfeitamente na minha geografia sentimental, a nordeste do país, bem lá no alto. 
Lembro-me da emoção da Andrea da Noel, ainda tão menininha, ao ouvi-los, numa viagem entre Vimioso e Miranda do Douro. Sinto um nó tão grande na garganta e no peito, mas é uma sensação boa, dizia com os olhos mareados, sem nunca desviar o olhar das estrelas. Era o início de uma noite memorável, que culminou já na madrugada do dia seguinte, com uma açorda alentejana servida no alguidar verde de plástico da avó Aninhas, o único suficientemente grande para albergar o repasto tardio de doze saudáveis malucos, que antes andaram a saber de coentros pela vizinhança - salvou-nos a Maria Angelina e a horta da tia Maria, passava já das duas da manhã. Nessa noite de Verão, uma daquelas noites de lua cheia e céu estrelado como só é possível encontrar em Trás-os-Montes (bem sei que as há igualmente bonitas noutros sítios, mas aquele é o meu céu, será sempre mais especial), ouvimos a cassete infinitas vezes, cantando juntamente com os tenores e fazendo um silêncio absoluto sempre que soava a guitarra de Paco. 

Hoje queria estar sob o meu céu, de preferência estrelado, segurando o nó na garganta e o aperto no peito, ouvindo unicamente os teus acordes, Paco. Porque a tua guitarra soará sempre de forma especial no silêncio daqueles montes.

25 de fevereiro de 2014

Recomeço. Bússola. Compassando.

A necessidade urgente de mudança. A vontade imensa de concretizar sonhos-projectos. A constância exigida para levar a bom porto o objectivo traçado.

Tudo isto enquanto me tento reencontrar. A força que me falha constantemente. A energia gasta com problemas alheios. O Inverno que nunca mais acaba. O corpo que suplica por dias mais amenos. Os dias que passam, rotineiros, sem as novidades tão ansiadas. A frustração que aumenta. A tristeza que se cola à pele, aos cabelos baços, às olheiras. A tristeza que dói em cada músculo. A angústia que me consome por inteiro, sempre que me descuido. O sorriso nem sempre conseguido.

A urgência em voltar a escrever. Os pensamentos que se atropelam e as palavras que não saem, uma incapacidade que dura há demasiado tempo. O desamor por cada palavra escrita, o medo de ter perdido a minha voz para sempre.

Os anos que passaram e que deixaram ainda tanto sofrimento, tantas pontas mal resolvidas, tantas dúvidas. A vida que não é fácil mas que não tem que ser sempre cinzenta. Agarrar-me aos meus, às coisas boas que temos. Reconhecer que sou uma privilegiada, em tantos, mas tantos aspectos. Fazer as pazes com a morte, outra vez. Agarrar a vida.

Pyxis, a bússola. O meu norte pode também estar a sul e errância por vezes é sinónimo de raíz.


(Obrigada, minha Pequenina. Somos uma dupla imbatível e eu tenho o logótipo mais bonito.)

21 de fevereiro de 2014

Aqui.

Porto, 2014


Aqui, deposta enfim a minha imagem, 
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem, 
No interior das coisas canto nua. 

Aqui livre sou eu — eco da lua 
E dos jardins, os gestos recebidos 
E o tumulto dos gestos pressentidos, 
Aqui sou eu em tudo quanto amei. 

Não por aquilo que só atravessei, 
Não pelo meu rumor que só perdi, 
Não pelos incertos actos que vivi, 

Mas por tudo de quanto ressoei 
E em cujo amor de amor me eternizei. 

- Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar' -