21 de fevereiro de 2014

Aqui.

Porto, 2014


Aqui, deposta enfim a minha imagem, 
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem, 
No interior das coisas canto nua. 

Aqui livre sou eu — eco da lua 
E dos jardins, os gestos recebidos 
E o tumulto dos gestos pressentidos, 
Aqui sou eu em tudo quanto amei. 

Não por aquilo que só atravessei, 
Não pelo meu rumor que só perdi, 
Não pelos incertos actos que vivi, 

Mas por tudo de quanto ressoei 
E em cujo amor de amor me eternizei. 

- Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar' -

13 de fevereiro de 2014

Já vos disse que moro numa das cidades mais bonitas do mundo?

Um bocadinho de mim.


A Raquel, do blogue Colher de Mãe, desafiou-me a responder a umas perguntas e a desvendar um bocadinho mais de mim. De seguida, era suposto passar o desafio a outros 11 autores/as de blogues com menos de 200 seguidores, mas eu nem sei se conheço o número suficiente de blogues que correspondam a esse requisito e que também já não tenham sido desafiados. Posto isto, deixo à escolha dos (poucos) que por aqui passam participarem ou não no desafio e responderem às perguntas que colocarei no final. 


11 coisas sobre mim:
  • Estou a caminho dos 34 anos e os meus cabelos cor de ferrugem vão dando lugar a cada vez mais cabelos brancos.
  • Não me imagino a viver muito tempo longe do mar - preciso dele como do ar para respirar.
  • Gosto muito de café, é o meu único vício. Sem açúcar, sempre, não suporto café adoçado. 
  • Viajar é das coisas que mais prazer me dá. Ando há anos a sonhar com uma volta ao mundo.
  • Sou um óptimo garfo e tenho cada vez mais prazer em cozinhar, mesmo quando é apenas para mim.
  • Ainda não sei muito bem o quero ser quando for grande. Talvez porque goste e queira fazer muitas coisas diferentes e (aparentemente) desconexas. No entanto, as contas não se pagam sozinhas e há que fazer escolhas constantemente. 
  • O 7 e o 14 são os meus números favoritos. Não me perguntem porquê, nunca soube responder.
  • Sou uma tripeira de gema, com um coração minhoto e uma alma transmontana, que busca incessantemente o que está para lá dos montes
  • Quero mesmo muito ser mãe. 
  • Uma vez, um amigo definiu-me assim: Tens 15 anos, pareces uma rapariga com 15 anos, mas tens uma alma muito velha, é difícil explicar melhor do que isto. No entanto, és uma miúda, serás sempre uma miúda. Continua a ser das coisas mais acertadas que já disseram sobre mim, até hoje. É só trocarem o 15 pelo 33.

As 11 perguntas da Raquel:

Se pudesses fazer qualquer coisa como trabalho, o que escolhias?

Viveria uns tempos de uma forma nómada, simples, carregando poucos pertences e viajando sem pressas à volta do mundo. A escrita, a fotografia e um ou outro trabalho que fosse surgindo pagariam as despesas inerentes a este sonho-projecto. Quando a alma estivesse cheia e os pés cansados, regressaria às origens, onde A escola sonhada por mim e pela minha mãe, professora de Educação Visual há várias décadas, ganharia, finalmente, forma. Uma escola diferente, onde todos sentissem que aprender é das coisas mais bonitas e gratificantes do mundo e que há tantos caminhos possíveis.

Como seria a casa dos teus sonhos?

Uma casa com o mar na frente e o campo nas traseiras. Um alpendre com cheiro a maresia. Um pé direito grande. Janelas rasgadas e muitas entradas de luz. Chão em madeira corrida. Paredes brancas e apontamentos de cor nos móveis, tecidos e outros objectos decorativos. A cozinha como o centro da casa. Uma mesa enorme, de madeira, onde as refeições se prolongariam em conversas animadas, jogos de tabuleiro, trabalhos pendentes. Uma mistura equilibrada entre o moderno e o antigo, alguns móveis de família recuperados, muitas velharias reutilizadas, as rendas da minha avó para dias especiais. Uma casa com gente dentro, sinais de vida em cada canto, não uma casa museu.

Na tua casa, as cortinas estão sempre abertas ou fechadas?

Gosto de cortinas leves, com cores claras e tecidos que deixam passar a luz. Sempre que possível, tenho não apenas as cortinas abertas como as próprias janelas, mesmo de Inverno. Gosto de casas arejadas. 

Para o dia a dia, preferes a loucura da cidade ou a calma do campo?

Depende muito dos dias e da minha disposição. O ideal seria poder regressar ao campo depois de um dia agitado na cidade, como aconteceu durante os primeiros 17 anos da minha vida. Começo a sentir falta desse equilíbrio, era mesmo o melhor dos dois mundos.

No dia a dia qual a coisa que mais te aborrece fazer?

Tudo o que se torne demasiado repetitivo, preciso constantemente de quebrar algumas rotinas. Há algumas coisas que não gosto mesmo nada de fazer mas que também não se fazem sozinhas, como passar a ferro (as poucas peças que ainda vêem o ferro de engomar) e limpar o pó. 

Onde e quando gostas de ler?

A qualquer hora e em qualquer lugar. Só tenho que tomar cuidado com a posição de leitura, a idade não perdoa e depois quem paga são as minhas costas. 

Um livro e um filme que te tenham feito sonhar.

Tantos. Gosto muito de ler, desde sempre, e os livros sempre foram uma óptima companhia e um alimento para uma imaginação já de si fértil. O mesmo se passa com os filmes, que eu devoro desde tenra idade. Acho que qualquer livro ou filme que me prenda, seja por qual for o motivo e independentemente da sua qualidade, tem a capacidade de me fazer sonhar e de me transportar para outras realidades. Há filmes e livros que me fizeram crescer de uma forma brutal, que me obrigaram a olhar-me no espelho, a encarar a vida de outra forma e a buscar a minha própria liberdade. 

O que mais gostas de comer?

Esta é outra daquelas perguntas às quais é difícil dar apenas uma resposta, até porque seria mais fácil enumerar o que não gosto de comer. Se me puserem uma tábua de queijos na mesa, com um bom pão (aquele transmontano cozido em forno de lenha que eu tanto gosto ou outro igualmente saboroso) e um copo de vinho a acompanhar, eu sou uma rapariga feliz. Ou uma boa sopa, daquelas que por si só fazem uma refeição. Ou um qualquer prato de massa. Ou um peixe fresco grelhado com uma salada generosa. Ou um assado de domingo. Ou uns legumes salteados em azeito e alho. Ou uns grelos com broa. Ou um guisado cozinhado em pote de ferro à lareira. Ou um botelo com cascas. Ou um bom sortido de enchidos. Nem vou falar em doces e sobremesas, que são a minha desgraça. Como disse, sou um bom garfo e gosto muito de comer. No entanto, sei que é possível fazer uma alimentação equilibrada mesmo gostando destas coisas todas. É uma questão de moderação e bom senso - e umas boas caminhadas, para desmoer. 

Se não houvesse constrangimentos, quantos filhos terias?

Desde muito nova que digo que quero ter entre 3 e 7 filhos (5 sempre me pareceu um bom compromisso) e que sei que também quero adoptar. Assim que tenha condições para isso.

Rádio ou televisão?

Vejo cada vez menos televisão e sou cada vez mais selectiva nos programas que escolho. A rádio faz-me companhia sobretudo no carro, mas continua a ser um meio de comunicação que me causa um enorme fascínio. É a magia da voz sem rosto e o apelo constante à imaginação.

Qual o teu aroma preferido?

Tenho uma memória olfativa bastante apurada, sou imediatamente transportada para outros sítios, dias, pessoas ou objectos através de cheiros por vezes imperceptíveis para as outras pessoas. Não consigo escolher um aroma preferido, são vários: o cheiro a maresia e as suas várias nuances (de Inverno, no final de um dia de imenso calor, de madrugada), o cheiro inconfundível da terra transmontana, que me leva a abrir as janelas do carro assim que começo a subir o Marão, o aroma de um frasco de mel do Gerês acabado de abrir, o cheiro da pele da minha mãe, o perfume da roupa acabada de lavar ou corada ao sol, o cheirinho inebriante de um bebé, um chão de madeira acabado de encerar, castanhas assadas nas ruas da cidade, a cozinha em véspera de Natal. 


As 11 perguntas às quais podem responder, se vos apetecer (caso o façam, depois deixem um link para o vosso blogue na caixa de comentários, vou gostar de vos ler!) :

  1. O que te tira do sério?
  2. Qual o pior defeito e a melhor qualidade que um amigo pode ter?
  3. Se te dessem a escolher entre a visão e a audição o que escolherias? Porquê?
  4. Se não fosses português/portuguesa que outra nacionalidade gostarias de ter? Porquê?
  5. O que é para ti um dia perfeito?
  6. Qual a tua viagem de sonho?
  7. Uma música para um momento triste.
  8. A brincadeira/brinquedo de infância que mais gostavas.
  9. O que te faz rir às gargalhadas?
  10. A tua palavra preferida.
  11. Qual foi a coisa mais bonita que já te disseram?
(Nota-se muito que não tenho jeitinho nenhum para fazer este tipo de questionários?)

30 de janeiro de 2014

Seremos sempre os 3 mosqueteiros.

I was always the goofiest one.


Hoje fui com a mãe ao cemitério. Levamos-te lírios brancos e camélias, como quase sempre. A chuva caía desalmadamente nesse momento e eu fiz o que sempre faço, fui apontando à mãe as campas com os nomes que desde sempre me lembro de achar engraçados, pela sua originalidade: Heremilda Emília, Florismundo José, Gertrudes Rosa, Emerenciano Augusto. São já velhos conhecidos nossos, passamos por eles sempre com imenso respeito e a mãe nunca viu mal nenhum nesta minha brincadeira, nem mesmo quando digo que um dia que tenha que escolher o nome de um filho vou passear para Agramonte (tu sabes que já tenho os nomes escolhidos há muito, só falta mesmo ter condições para os ter)
Foi enquanto limpava o jazigo e arranjava as flores que me apercebi. Eu não vou ao cemitério por causa da mãe, para lhe fazer companhia. Ou melhor, não vou apenas por causa dela. Todo este nosso ritual é a forma que arranjamos de te continuar a fazer presente nas nossas vidas. A escolha das flores, a caminhada por entre cedros, japoneiras, magnólias, campas e jazigos, as conversas e o café com tarte de maça que se lhes segue - nada disto é tétrico, muito menos necessariamente triste. Não vamos ao cemitério por o teu nome constar numa pedra já gasta de um jazigo de família. Vamos por estares viva em nós. Serenamente, já sem dor. Apenas muita saudade. 
Hoje percebi que vou por mim, acima de tudo. Porque continuas viva em mim, não apenas nas lembranças, mas também nestes fins de tarde de Inverno em que eu e a mãe vamos celebrar o teu nascimento e agradecer o privilégio de te ter nas nossas vidas. Para sempre.

À espera de futuro.

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.
José Luís Tinoco -




Esta é uma das minhas canções portuguesas preferidas. As palavras do José Luis Tinoco e o seu arranjo musical mexem comigo desde muito pequena. Lembro-me de ouvir a versão do Carlos do Carmo vezes sem conta, grande parte delas a cantarolar juntamente com a minha avó. Até que um dia a ouvi na voz da Simone e o poema fez-me ainda mais sentido.

Hoje senti uma vontade imensa de voltar a ela. Percebi, por entre lágrimas e um sorriso, ainda que algo tímido, que aquele final sou eu: um verso em branco à espera de futuro.