Por estes dias, vou-me consolando com os que ainda restam - poucos já, muitos deles comidos pelos pássaros, outros tombados pela chuva e pelo vento e esborrachados em quedas inglórias, outros tantos apodrecidos ainda na árvore. Os velhos dióspireiros do jardim da avó A. todos os anos cumprem o seu desígnio e enchem os meus finais de Verão e começos de Outono de sabores que me transportam para bem longe no tempo e de uma explosão de cor que me ajuda a ultrapassar a mudança de luz, os dias mais curtos e a necessidade de roupa mais quente em cima da pele.
Gosto de pensar que herdei a mestria da avó A. e do avô C. no que ao arranjar do fruto diz respeito, para melhor o poder degustar em seguida. Uma perícia de técnica e destreza de extrema sensibilidade, um bailado sincronizado entre colher e faca. A mão precisa da avó, o jeito único de manusear a faca do avô, o deleite de ambos. É impossível deixar de sorrir de cada vez que como um dióspiro e os consigo imaginar novamente ao meu lado, à mesa, um dos nossos sítios preferidos.
*Com um beijinho directamente para a Suíça ;)
