27 de setembro de 2013
23 de setembro de 2013
Irradia agora habitada surpresa.
António Ramos Rosa
17 de Outubro de 1924 - 23 de Setembro de 2013
Nascimento último
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
E este, um dos meus poemas eternos:
Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
18 de setembro de 2013
17 de setembro de 2013
let’s live suddenly without thinking
let’s live suddenly without thinking
under honest trees,
a stream
does.the brain of cleverly-crinkling
-water pursues the angry dream
of the shore. By midnight,
a moon
scratches the skin of the organised hills
an edged nothing begins to prune
let’s live like the light that kills
and let’s as silence,
because Whirl’s after all:
(after me)love,and after you.
I occasionally feel vague how
vague idon’t know tenuous Now-
spears and The Then-arrows making do
our mouths something red,something tall
- E. E. Cummings - via
under honest trees,
a stream
does.the brain of cleverly-crinkling
-water pursues the angry dream
of the shore. By midnight,
a moon
scratches the skin of the organised hills
an edged nothing begins to prune
let’s live like the light that kills
and let’s as silence,
because Whirl’s after all:
(after me)love,and after you.
I occasionally feel vague how
vague idon’t know tenuous Now-
spears and The Then-arrows making do
our mouths something red,something tall
- E. E. Cummings - via
13 de setembro de 2013
Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar*
Angeiras - Verão 2013
Mas nesta vida ainda hei-de viver num sítio assim, onde o mar é rei, significado de vida e de morte. Hei-de comprar todos os dias peixe fresco no mercado, todas as peixeiras saberão o meu nome e me guardarão o meu peixe preferido. Os legumes, cultivados em terra de areia, virão para a minha cozinha directamente dos agricultores locais. Os meus filhos correrão livres pelas ruas, saltitando entre o jardim de casa e o areal. O meu local de trabalho irá variar consoante as estações do ano, o estado do tempo e a minha disposição - o "escritório" será montado ora na praia, na esplanada com a melhor vista ou no café onde o serviço for mais amistoso e o cimbalino melhor tirado ora na divisão da casa onde melhor me sentir nesse dia. Possuirei menos coisas e cada vez mais livros (mesmo que alojados em geringonças electrónicas). Os dias serão simples. Eu respirarei bem fundo.
* Sophia de Mello Breyner Andresen
12 de setembro de 2013
Sobre o caminho
Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença
Não coleciones dejetos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho
- Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água" -
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença
Não coleciones dejetos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho
- Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água" -
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