30 de julho de 2013

A infância vive a realidade da única forma honesta, que é tomando-a como uma fantasia.





A nossa A. - 28 de Julho de 2013

Não tentem explicar o mundo a uma criança, que ela saberá despistar as provas oferecidas. Não lhes interessam provas, mas sim mistérios. Os adultos desempenham o papel de desmancha-prazeres: porque vigiam, porque ensinam, porque desprezam imaturidade.

Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito -

17 de julho de 2013

Meninos do rio.






São às dezenas. Irrequietos, faladores, exímios nadadores. Rapazes e raparigas. Pequenos e mais crescidos. Atiram-se dos pontais, serpenteiam Rabelos, dão mergulhos sincronizados tendo como prancha o tabuleiro da ponte, atravessam o rio a uma velocidade estonteante, chegando de uma margem à outra enquanto o diabo esfrega um olho. Fazem as delícias dos turistas e sorriem para as fotografias, orgulhosos dos seus feitos. Falam alto, chamam uns pelos outros das margens com gritos de guerra imperceptíveis aos demais. Cochicham entre eles, indiferentes aos que passam em ritmo de passeio. Anikibébé. Anikibóbó. Passarinho. Tótó. Berimbau. Cavaquinho. Salomão. Sacristão. Tu és polícia. Tu és ladrão. Podes-lhe faltar muita coisa, mas, por estes dias, o rio dá-lhes o mundo e eles abraçam-no em mergulhos heróicos. 

16 de julho de 2013

Matéria Solar

1

Podias ensinar à mão
outra arte,
essa de atravessar o vidro;

podias ensiná-la
a escavar a terra
em que sufocas sílaba a sílaba;

ou então ser água,
onde, de tanto olhá-las,
as estrelas caíam.

2

O muro é branco
e bruscamente
sobre o branco do muro cai a noite.

Há um cavalo próximo do silêncio,
uma pedra fria sobre a boca,
pedra cega de sono.

Amar-te-ia se viesses agora
ou inclinasses
o teu rosto sobre o meu tão puro
e tão perdido,
ó vida



Claro que os desejas, esses corpos
onde o tempo não enterrou ainda
os cornos fundo — não é o desejo
o amigo mais íntimo do sol?
Que os desejas, como se cada um
deles fosse o último, último corpo
que o teu corpo tivesse para amar.


A tarde sacudiu as suas crinas,
as crianças demoram-se nos espelhos,
um amigo começa no verão,
no íntimo despir das suas luzes.

7

Conhecias o verão pelo cheiro,
o silêncio antiquíssimo
do muro, o furor das cigarras,
inventavas a luz acidulada
a prumo, a sombra breve
onde o rapazito adormecera,
o brilho das espáduas.
É o que te cega, o sol da pele.

8

O sorriso.
O sorriso aberto
contra o muro.

Exactamente
como as ervas,

é muito antigo.

E sobre as ervas
e o muro
debruça-se no caminho.

Quem o arranca,
e levará consigo?

9

Outra vez o pátio vidrado da manhã.
Vais surgir e dizer: eu vi um barco.
Era quando aos lábios me chegava
a porosa argila doutros lábios.
Estava então a caminho de ser ave.

10

A manhã parada.
O azul.
A fundura da pupila.

Não é ainda a sede,
a matilha,
a febre.

O tronco nu —
a luz vacila.

12

Tocar-te a pele
o pulso aberto
ao gume do olhar.

Que seja essa
a casa, a estrela
do primeiro dia.

Rosa inflamável,
boca do ar.

13

Aqui me tens, conivente com o sol
neste incêndio do corpo até ao fim:
as mãos tão ávidas no seu voo,
a boca que se esquece no teu peito
de envelhecer e sabe ainda recusar.

16

Tu estás onde o olhar começa
a doer, reconheço o preguiçoso
rumor de agosto, o carmim do mar.

Fala-me das cigarras, desse estilo
de areia, os pés descalços,
o grão do ar.

27

Vacilantes perdem-se agora os dedos,
o mar é longe, vai-se a voz quebrando,
para morrer vai sendo tarde.

Não duvides: sou essa árvore,
essa alegria só prometida às aves.

36

Pela manhã é que eu iria
pela última vez
Iria sem saber onde a estrada leva.

E a sede.

45

Chove, é o deserto, o lume apagado,
que fazer destas mãos, cúmplices do sol? 

- Eugénio de Andrade -