essa de atravessar o vidro;
em que sufocas sílaba a sílaba;
sobre o branco do muro cai a noite.
Há um cavalo próximo do silêncio,
uma pedra fria sobre a boca,
Amar-te-ia se viesses agora
o teu rosto sobre o meu tão puro
Claro que os desejas, esses corpos
onde o tempo não enterrou ainda
os cornos fundo — não é o desejo
o amigo mais íntimo do sol?
Que os desejas, como se cada um
deles fosse o último, último corpo
que o teu corpo tivesse para amar.
A tarde sacudiu as suas crinas,
as crianças demoram-se nos espelhos,
um amigo começa no verão,
no íntimo despir das suas luzes.
Conhecias o verão pelo cheiro,
do muro, o furor das cigarras,
inventavas a luz acidulada
onde o rapazito adormecera,
É o que te cega, o sol da pele.
Outra vez o pátio vidrado da manhã.
Vais surgir e dizer: eu vi um barco.
Era quando aos lábios me chegava
a porosa argila doutros lábios.
Estava então a caminho de ser ave.
Aqui me tens, conivente com o sol
neste incêndio do corpo até ao fim:
as mãos tão ávidas no seu voo,
a boca que se esquece no teu peito
de envelhecer e sabe ainda recusar.
Tu estás onde o olhar começa
a doer, reconheço o preguiçoso
rumor de agosto, o carmim do mar.
Fala-me das cigarras, desse estilo
de areia, os pés descalços,
Vacilantes perdem-se agora os dedos,
o mar é longe, vai-se a voz quebrando,
para morrer vai sendo tarde.
Não duvides: sou essa árvore,
essa alegria só prometida às aves.
Iria sem saber onde a estrada leva.
Chove, é o deserto, o lume apagado,
que fazer destas mãos, cúmplices do sol?