São às dezenas. Irrequietos, faladores, exímios nadadores. Rapazes e raparigas. Pequenos e mais crescidos. Atiram-se dos pontais, serpenteiam Rabelos, dão mergulhos sincronizados tendo como prancha o tabuleiro da ponte, atravessam o rio a uma velocidade estonteante, chegando de uma margem à outra enquanto o diabo esfrega um olho. Fazem as delícias dos turistas e sorriem para as fotografias, orgulhosos dos seus feitos. Falam alto, chamam uns pelos outros das margens com gritos de guerra imperceptíveis aos demais. Cochicham entre eles, indiferentes aos que passam em ritmo de passeio. Anikibébé. Anikibóbó. Passarinho. Tótó. Berimbau. Cavaquinho. Salomão. Sacristão. Tu és polícia. Tu és ladrão. Podes-lhe faltar muita coisa, mas, por estes dias, o rio dá-lhes o mundo e eles abraçam-no em mergulhos heróicos.
17 de julho de 2013
16 de julho de 2013
Matéria Solar
1
Podias ensinar à mão
outra arte,
essa de atravessar o vidro;
podias ensiná-la
a escavar a terra
em que sufocas sílaba a sílaba;
ou então ser água,
onde, de tanto olhá-las,
as estrelas caíam.
2
O muro é branco
e bruscamente
sobre o branco do muro cai a noite.
Há um cavalo próximo do silêncio,
uma pedra fria sobre a boca,
pedra cega de sono.
Amar-te-ia se viesses agora
ou inclinasses
o teu rosto sobre o meu tão puro
e tão perdido,
ó vida
5
Claro que os desejas, esses corpos
onde o tempo não enterrou ainda
os cornos fundo — não é o desejo
o amigo mais íntimo do sol?
Que os desejas, como se cada um
deles fosse o último, último corpo
que o teu corpo tivesse para amar.
6
A tarde sacudiu as suas crinas,
as crianças demoram-se nos espelhos,
um amigo começa no verão,
no íntimo despir das suas luzes.
7
Conhecias o verão pelo cheiro,
o silêncio antiquíssimo
do muro, o furor das cigarras,
inventavas a luz acidulada
a prumo, a sombra breve
onde o rapazito adormecera,
o brilho das espáduas.
É o que te cega, o sol da pele.
8
O sorriso.
O sorriso aberto
contra o muro.
Exactamente
como as ervas,
é muito antigo.
E sobre as ervas
e o muro
debruça-se no caminho.
Quem o arranca,
e levará consigo?
9
Outra vez o pátio vidrado da manhã.
Vais surgir e dizer: eu vi um barco.
Era quando aos lábios me chegava
a porosa argila doutros lábios.
Estava então a caminho de ser ave.
10
A manhã parada.
O azul.
A fundura da pupila.
Não é ainda a sede,
a matilha,
a febre.
O tronco nu —
a luz vacila.
12
Tocar-te a pele
o pulso aberto
ao gume do olhar.
Que seja essa
a casa, a estrela
do primeiro dia.
Rosa inflamável,
boca do ar.
13
Aqui me tens, conivente com o sol
neste incêndio do corpo até ao fim:
as mãos tão ávidas no seu voo,
a boca que se esquece no teu peito
de envelhecer e sabe ainda recusar.
16
Tu estás onde o olhar começa
a doer, reconheço o preguiçoso
rumor de agosto, o carmim do mar.
Fala-me das cigarras, desse estilo
de areia, os pés descalços,
o grão do ar.
27
Vacilantes perdem-se agora os dedos,
o mar é longe, vai-se a voz quebrando,
para morrer vai sendo tarde.
Não duvides: sou essa árvore,
essa alegria só prometida às aves.
36
Pela manhã é que eu iria
pela última vez
Iria sem saber onde a estrada leva.
E a sede.
45
Chove, é o deserto, o lume apagado,
que fazer destas mãos, cúmplices do sol?
- Eugénio de Andrade -
Eu gosto é do Verão...
Porto, Julho de 2013
Querido São Pedro,
Por aqui o tempo está esquisito e já sabes que assim fico com a minha já tão famosa neura de Budapeste. O céu está demasiado cinzento para meu gosto e para esta altura do ano. Já tive que tirar alguns casacos do armário e nunca sei o que levar quando saio de casa e não tenho horas certas para voltar. As noites arrefeceram e hoje de madrugada acordei com os pés gelados - bem, aqui a culpa talvez não seja bem tua, eu é que teimo em dormir destapada e com a janela aberta.
Prometo não dizer mais mal de ti, questionar as tuas capacidades de discernimento ou o teu (duvidoso) sentido de humor. Também não permitirei que mais ninguém o faça, pelo menos à minha beira.
Entendi a mensagem, juro. Mas agora devolve-nos lá o Verão, pode ser?! Agradecida!
Com afecto,
Mar
13 de julho de 2013
Vivemos num mundo que mais parece um circo de palhaços amadores e somos nós todos que seguramos a tenda, tal qual estacas já podres.
As palavras do Cê na voz da Gadú. Mais actuais do que nunca.
Está mais do que na hora de agirmos feito gente de novo, não acham?! Ainda não perdi a esperança e vejo-a todos os dias ser renovada através do exemplo de pessoas concretas, reais e luminosas que não desistem, que lutam pelo que é certo, com a cabeça e o coração no lugar exacto. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer!
10 de julho de 2013
9 de julho de 2013
Poetinha*
* Diminutivo carinhoso de um artista maior. Deixou-nos há exactamente 33 anos, pouco mais de um mês antes de eu nascer. Tem sido uma presença constante na minha vida. Para sempre.
A bênção, amigo. Saravá!
6 de julho de 2013
As coisas que passam têm para sempre uma história exacta.*
Leça, Junho de 2013
Escolhi buscar a felicidade, encontrar beleza nas mais pequenas coisas, aprender com os momentos maus e deles retirar forças e sabedoria para todos os outros. Sim, retirar forças dos momentos maus, pois é nestes que a nossa verdadeira força se revela. Escolhi viver um dia de cada, concentrar-me no hoje e nas coisas que posso controlar. Escolhi viver, não apenas sobreviver, como se a vida fosse um rio que corre desenfreado ao meu lado e no qual me recusava quase sempre a entrar. Escolhi entrar na corrente, numa embarcação à minha medida, remando ao meu ritmo e traçando a minha rota. Tentarei evitar as zonas mais turbulentas, as quedas de água mais perigosas, descansarei na margem sempre que necessário, mas não me vou esconder mais numa caverna à espera que todos os perigos passem, que as águas estejam completamente serenadas, que todos se esqueçam de mim para seguir em frente.
Aprendi a lição. Da forma mais dura, mas aprendi. Bem vistas as coisas, tinha que ser assim. Todos temos uma personalidade única, um ritmo próprio - quererem que sejamos da companhia a toda a força só nos trava ainda mais, bloqueia-nos, faz-nos duvidar das nossas próprias capacidades. Olhando para trás, não foi tempo perdido, foi um tempo ganho a mim mesma. Para me conhecer melhor, para saber o que não quero e por onde devo ir. Foi um tempo de resgate.
Resta-me ter a coragem para não me perder de mim novamente, encontrar de novo o prazer nas coisas que sempre me caracterizaram e fizeram parte de mim. Falta-me voltar a escrever como quem respira, recuperar aquela voz própria que me diziam existir na minha escrita, que a tornava única e apetecível. Falta-me voltar a gostar daquilo que escrevo e a sentir necessidade de escrever muitas vezes, todos os dias. Falta-me preencher este vazio que transparece para tudo o que escrevo, tornando as palavras pastosas, repetitivas, cansativas, tantas vezes sem nexo.
Preciso de ler mais, muito mais e melhor, não apenas notícias e blogues mais ou menos interessantes. Preciso de devorar livros como antes, virar noites agarrada a personagens e histórias, virando páginas à velocidade da luz, voltando atrás para sublinhar uma frase, marcar um diálogo ou ler melhor um parágrafo. Preciso de deitar a cabeça no chão do quarto, pés na parede e livro encostado às pernas, num difícil equilíbrio que muito terá contribuído para a minha vista cansada.
Preciso de acreditar mais em mim, nas minhas capacidades. Não desistir dos meus sonhos ao mínimo obstáculo, traçar planos concretos e exequíveis, rodear-me de quem me quer bem e aceitar ajuda de quem ma oferece de coração. Aprender a pedir ajuda também me dava um certo jeito, já agora.
Não, os últimos anos não têm sido fáceis. Acho que já experimentei um bocadinho de todas as dores do mundo e, ainda assim, sei-me tão privilegiada em relação a tanta, mas tanta gente. Conheço o cheiro e o rosto da morte, sei da brutal ausência de todos os que me foram roubados por ela. Sei que morremos sozinhos, mesmo que rodeados por muitos daqueles que amamos. Sei que no fim somos todos, mas todos iguais.
Perdi demasiadas coisas nos últimos anos, materiais e não só. Vi a morte mais vezes do que gostaria nos últimos tempos, assisti ao último suspiro de pessoas muito importantes na minha vida e senti os seus corpos frios quando todas as suas memórias passaram para os nossos corações (a sabedoria está na voz dos mais pequenos). Posto isto, tudo se me tornou simples: a esperança é mesmo a última a morrer - resta-nos lutar até ao fim, por nós, acima de tudo, para depois termos forças e capacidade para lutar pelo e com os outros.
* Sophia de Mello Breyner Andresen
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