14 de junho de 2013

A felicidade como disciplina.

" (...) O ser infeliz tem conjuntura alta e uma campanha de imagem muito forte. A ideia de infelicidade é desesperada, extrema, um tsunami que arrasta, uma via única. A infelicidade anula a escolha, desresponsabiliza e por isso é confortável. A infelicidade torna-se uma segunda pele, como o sofá e os chinelos. Há quem seja viciado no “coitadinho”, no tom expiatório da vítima. Incapaz de se desintoxicar, há quem se esqueça de viver. Ficando à espera de uma deusa celebrada e muito esquiva chamada alegria. É tramada a solidão dos infelizes.

(...) E é tudo isso que me move a agarrar a vida, a esculpir a felicidade com o afinco, não o talento, de um Leonardo. Tento ter a coragem da alegria. Faço dela um método. O prazer de viver, da descoberta e do encantamento é uma disciplina.
Tento olhar os dias inspirada pelas palavras desse sábio  que é Vinicius de Moraes. Que cada instante (como o amor)“não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”. Esse infinito, não é o da matemática, mas o da vida, feito de rupturas, vertigens, sujeito  a intempéries.
Exijo passar pela vida e não que ela passe por mim. Impossible is Nothing. "

7 de junho de 2013

Hoje acordei com umas saudades imensas de Espanha.



Da estrada para Alcañices. Das compras nas Paquitas e no Fidel. Dos passeios pela Calle Stª Clara, em Zamora. Dos churros com chocolate quente. Dos piqueniques na Sanábria. Da Galiza. Dos chiringuitos de praia. Da minha mãe a comer boquerones. Das paellas. Das parrilladas. Das tapas, das tábuas de queijo e enchidos. De ir pinchar de tasquinha em tasquinha. Das gambas al ajilo comidas num restaurante de beira de estrada à entrada de Madrid para fugir à hora de ponta de regresso a casa em final de quinzena de férias. Da Andaluzia. Da Feria de Almeria. Da esplanada do José. Do Mediterrâneo. De Granada e do Alhambra. Do mosto vindo directamente de Léon. Do Monasterio de San Marcos. Das ruas de Barcelona. Da viagem de comboio até San Pol de Mar. De Roquetas. De Mojacar. Do calor insuportável de Sevilha. De ver dançar flamenco. De me arrepiar com uma guitarrada ao vivo. Dos torrões. Dos polvorones. Das natillas e da crema catalana. Da tarte de cuajada da minha tia. Do D. e do R. a dizerem entonces, tenemos que ver e outras espanholices no seu portunhol de crianças bilingues. De gazpacho, de granizados, de tomates bem maduros no Verão. Do céu andaluz. 

Há qualquer coisa em mim que pertence ao país vizinho. Como há uma grande parte de mim espalhada pelos quatro cantos do mundo, uma alma dividida que me faz sempre sentir que vou ao encontro de mim mesma de cada vez que viajo e me faz sentir em casa em muitos lugares fora deste nosso cantinho à beira-mar plantado. Há quem diga que é o chamamento do sangue, de antepassados que criaram raízes mais ou menos profundas noutras paragens, umas mais longínquas que outras. 
Sempre soube que tenho um espírito saltimbanco, uma alma nómada, uma necessidade de  me manter em trânsito, percorrendo vários lugares que de alguma forma me atraem, como um canto de sereia. Preciso dessa errância, sou mais feliz na estrada, entre destinos. No entanto, sei bem onde fica o meu porto de abrigo, a minha rampa de lançamento, a minha pista aberta para todos os voos. 

Sou uma portuguesa-tripeira, cidadã do mundo, e espero um dia poder terminar a minha viagem sob o céu único do meu Reino Maravilhoso. Até lá, há tanto chão à minha espera. 

30 de maio de 2013


À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.*


E é chegada a hora!

Uma tarde, a meio de uns exercícios de gramática alemã, encantei-me com um melro que pousou no parapeito da varanda da Frau B.. Lembro-me de ficar largos segundos suspensa naquele encantamento, admirando a forma como esvoaçava, como batia as asas, como se enrolava sobre si mesmo para se coçar, como bebericava no pratinho com água fresca que a Frau B. nunca deixava faltar no parapeito para todos os pássaros visitantes
Sempre me fascinou o voo dos pássaros, a forma livre como atravessam os céus do campo e da cidade, parecendo indiferentes ao que os rodeia, sobretudo a nós, humanos. Foi o badalar dos sinos dos Clérigos que me trouxe de volta aos verbos, aos artigos e afins, a ponta da caneta de tinta permanente colada ao caderno, um borrão enorme denunciando a minha distracção. 
Vamos lanchar, Mädel!, disse-me a Frau B. já em direcção à cozinha, com a doçura de quem sabia que um chá e bolachas eram naquele momento muito mais urgentes do que os exercícios gramaticais. 

A Frau B. foi uma das pessoas que mais me ensinou sobre liberdade. Liberdade com responsabilidade, pois ninguém é verdadeiramente livre se não souber ser totalmente responsável por si mesmo. 
Demorei muito a entender a profundidade e o completo significado destas palavras. Hoje, não sendo já a sua menina, mas uma mulher feita, chegou finalmente a hora de ir viver a minha liberdade, com toda a responsabilidade - por ela, por todos os que amo e que também já partiram e todos aqueles que ainda tenho à minha beira mas, acima de tudo, por mim mesma.


* Álvaro de Campos, "Tabacaria"

29 de maio de 2013

Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.*

Fui sabendo de mim 
por aquilo que perdia 

pedaços que saíram de mim 
com o mistério de serem poucos 
e valerem só quando os perdia 

fui ficando 
por umbrais 
aquém do passo 
que nunca ousei 

eu vi 
a árvore morta 
e soube que mentia 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Mia Couto, in "Mar me quer"

Com uns dias de atraso, a minha homenagem. Fiquei tão feliz.