I heard them say.
19 de fevereiro de 2013
20 de janeiro de 2013
Para sempre.
Jardim da avó A.
Da ausência. Do
vazio. Das paredes que gritam o que insistimos em calar. Ou não
conseguimos dizer. Do silêncio. Da sala
despida. Da mesa posta com um prato a menos, apesar do lugar eterno. Dos passos
que não se sentem no corredor pela manhã. Do cheiro a compota que se evaporou no
nunca mais, mesmo que se venham a fazer todas as compotas do
mundo. Da cadeira que espera. Do jardim que perdeu a cor para o
mistério da morte. Da voz que não se ouve, mas que ecoa. Do
armário e da cómoda intactos, intocados. Das pulseiras, colares e anéis que
persistem. Dos novelos e agulhas imóveis, como instalações
indecifráveis em museus modernos. Das camisas que já não são lavadas à mão,
demorada e cuidadosamente. Dos conselhos que não se esquecem, mesmo que não
sejam seguidos à risca. Das histórias que sobreviverão ao
tempo. Dos Natais, Páscoas, Carnavais , aniversários e demais
comemorações que perderam a magia e o brilho. Do leite creme ao Domingo, cujo
sabor foi embora sem pedir licença. Dos
almoços e jantares demorados, em família, onde já
faltam cada vez mais. Das tardes na piscina, dos lanches
com scones e limonada. Dos piqueniques à beira-rio. Dos dias longos de praia e
refresco de café com limão. Das viagens de carro. Das compras no Porto. Das
idas a Alcañices comprar flores, com direito a paragem obrigatória nas Paquitas
e no Fidel. Das sopas de tomate. Dos almoços no alpendre. Dos passeios a pé.
Das novelas e filmes revistos e comentados vezes sem conta. Do jornal e das
revistas lidos à noite, na cama. Das jardinagens e dos banhos de mangueira. Das
tardes enfiados todos juntos na cama, onde se esqueciam as doenças. Das
revisões antes dos testes. Do dinheiro dado às escondidas, para os meus
alfinetes. Das compras de Natal à última hora. Das rabanadas quentinhas. Dos abraços, dos beijinhos e da forma de me chamar Micoquinhas.
Da saudade. De um tempo que não volta. Nunca mais.
Da saudade. De um tempo que não volta. Nunca mais.
Parabéns avó.
19 de janeiro de 2013
18 de janeiro de 2013
17 de janeiro de 2013
12 de janeiro de 2013
...
Não lhe parece estranho que certas memórias de infância estejam assim coalhadas em luz, encapsuladas como aquelas esferas de vidro que ao virar-se cintilam de neve ou de partículas doiradas sobre uma paisagem em miniatura? Podia ser o Escorial, a Torre de Londres, os Montes Apalaches. Um par que dança de pernas para o ar na concha da mão cheia de vidro grosso, dentro do qual paira depois, em descida mansa, uma poalha de estrelas cadentes. Pode ser o Taj Mahal, feito para alumbrar porque navega nos ares à hora da bruma arfante do calor. Isso eu vi. Ou talvez estivesse marejada de choro. Jazigo raro, onde quem sabe só restam que résteas de ossos.
Está-se lá dentro, nas esferas vivas, sem saber para onde se ia, nem de onde se vinha. Para sempre, o que não é exagero nenhum, enquanto a memória veja. Mas suponho que são estas bagas translúcidas que atravessam de sorrisos o cochilar dos velhos e dos meninos que hão-de voltar a ser. Se voltarem. Ele há tanto sítio e lugar e ser de que se está tão certo e seguro em sonhos, que é bem possível que para lá se vá ou de lá se venha. A alma é imortal mas não nos é dado saber aonde se demora.
- Maria Velho da Costa, in O Amante do Crato -
Está-se lá dentro, nas esferas vivas, sem saber para onde se ia, nem de onde se vinha. Para sempre, o que não é exagero nenhum, enquanto a memória veja. Mas suponho que são estas bagas translúcidas que atravessam de sorrisos o cochilar dos velhos e dos meninos que hão-de voltar a ser. Se voltarem. Ele há tanto sítio e lugar e ser de que se está tão certo e seguro em sonhos, que é bem possível que para lá se vá ou de lá se venha. A alma é imortal mas não nos é dado saber aonde se demora.
- Maria Velho da Costa, in O Amante do Crato -
5 de janeiro de 2013
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