22 de abril de 2012

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Ribeira, Porto - Março de 2012

Tudo isso eras tu.

Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo
 
infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

- Eugénio de Andrade -

16 de abril de 2012

Medianeras



Mariana - Solo la luz de la mañana tan brillante me dejó ver con claridad el reflejo. Tarde, como siempre, me dí cuenta de la que estaba en la vidriera era yo, como un manequín. Imobile, silenciosa y fria.

Martin - Brotan en el cemento mismo. Crecen dónde no deberian crecer. Con una paciencia y voluntad ejemplar, logran erguirse con dignidad. Sin ninguna estirpe, salvajes, inclasificables para la botánica. Una extraña belleza variante, absurda. Que adorna los rincones más grises. No tienen nada. Y nada las detiene. Una metáfora de vida incontenible que paradójicamente enfrenta mi debilidad.

Medianeras*, um filme de Gustavo Taretto. O mais belo, comovente, inusitado e inocente q.b. retrato da solidão claustrofóbica em que muitos de nós mergulhamos nas grandes cidades, enclausurados dentro de cubículos de betão, ligados uns aos outros por um emaranhado de fios. A busca pelo amor verdadeiro e a importância da esperança e da crença nessa mesma busca. Porque todos nós, afinal, moramos na Avenida Santa Fé.

*Um achado com o alto patrocínio da Isa.

11 de abril de 2012

Rescaldo Pascal.








Houve sol e chuva. Houve sorrisos e lágrimas. Houve família e abraços. Houve mesa cheia, borrego, económicos, bola Mirandesa e pães-de-ló da Micas queimados por cima, mas bons demais por dentro. Houve chá e folar ao jantar. Houve amêndoas e ovos de chocolate. Houve compasso e beijar da cruz. Houve flores e tapetes coloridos. Houve brincadeiras e idas ao parque. Houve visitas, de e a. Houve louça para lavar e restos para guardar. Houve tradição e novas memórias para repetir em anos futuros. Houve passar de testemunho e perpetuar de sabores e sentires. Houve caos e paz. Há um amanhã, apesar de tudo.

5 de abril de 2012

Boa Páscoa.


Que vos seja o mais doce e o mais serena possível. Na cidade ou no campo, com ou sem compasso, com ou sem banda, com ou sem foguetório, com ou sem mordomos, com ou sem cruzes enfeitadas. Que vos seja luminosa e feliz, junto de quem merecer a vossa companhia.

Eu vou enfiar-me na cozinha a fazer folares transmontanos, pães-de-ló secos e de comer à colher, bolachinhas, sobremesas várias e ovos de chocolate. Não prometo voltar igual por fora, que isto tanta doçaria junta dá cabo da linha a qualquer um (ou quase todos, vá), mas de resto voltarei a mesma de sempre. Até breve!

4 de abril de 2012

As Fontes



Jardim do Palácio de Cristal, Porto - Março de 2012

 
Um dia quebrarei todas as pontes 
Que ligam o meu ser vivo e total, 
À agitação do mundo irreal, 
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora 
A plenitude, o límpido esplendor 
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor. 

Irei beber a luz e o amanhecer 
Irei beber a voz dessa promessa 
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

- Sophia de Mello Breyner Andresen -