16 de outubro de 2011

2+2

Junho de 2011


Nestes últimos tempos, tomei conhecimento de dois projectos completamente diferentes, mas que me tem dado um enorme prazer acompanhar. 

O primeiro - Berlinda.org, é, nas palavras certeiras da Helena, "uma publicação online dedicada à interação cultural entre Berlim e o mundo de língua portuguesa. Berlinda.org dirige-se por um lado aos falantes de português que queiram usufruir da rica actividade cultural de Berlim, e também aos berlinenses interessados na cultura em português. É assim um magazine cultural bilateral, para visitantes e residentes, alemães e estrangeiros, e para todos os interessados nas trocas culturais entre Berlim e o mundo de língua portuguesa.
Berlinda.org descobre a cidade na perspetiva do Outro, que é à vez alemão, português, brasileiro, angolano, moçambicano, cabo-verdiano, são tomense, guineense ou timorense. Mostra a cidade vista por dentro, relata a mestiçagem cultural que nela diariamente se vive, e salienta também aspetos endémicos, de interesse para o visitante e/ou residente.
Berlinda.org pretende ser uma plataforma para a mostra da criação artística e fenómenos culturais destes dois mundos - Berlim e o mundo que fala português, um espaço para o olhar subjetivo do Outro sobre esses fenómenos, e sobretudo um lugar para a reflexão sobre as trocas e influências mútuas daí resultantes.Berlinda.org é um roteiro para a descoberta, uma ponte entre estes mundos.Um lugar para várias culturas, vistas pelo olhar do Outro."
Para mim, que sou apaixonada pela cidade, que tenho fortes ligações à língua e ao país, é sempre uma lufada de ar fresco passar por e inteirar-me do tudo e tanto que por se passa. Vale bem a pena deixarmo-nos perder por ali. 

O segundo - the Mixed Race Project,  chega-me através do olhar sensível e curioso da Jenna. Há já algum tempo que a sigo, assim como à sua família, ao seu trabalho, alegrias e tristezas, viagens e conquistas, dúvidas e frustrações. Tem uma escrita clara e cativante e revejo-me muitas vezes naquilo que escreve, apesar do oceano que nos separa e das óbvias diferenças culturais e de background.
Este projecto, aparentemente simples, deixa-nos perceber que somos todos muito mais parecidos do que por vezes gostamos de demonstrar e que todas as diferenças só deveriam servir para nos enriquecer enquanto seres humanos. As fotografias, retratos espontâneas da vida de várias famílias multirraciais, permitem-nos entrar um pouco nas suas casas e no seu quotidiano, mostrando-nos pormenores que, apesar das diferenças, nos parecem tão familiares.

Depois, há dois sítios por onde passo regularmente e que enchem os meus dias de sorrisos e ternura.

O primeiro - Enjoying the Small Things, o blogue da Kelle Hampton, mãe, acima de tudo, onde nos mostra vários momentos da sua família tão especial, nos relata a sua vida de forma genuína e emotiva e nos faz olhar de uma forma normal para a diferença. A história do nascimento da sua segunda filha, Nella Cordelia, é absolutamente imperdível. 

O segundo - lila was here, é o registo fotográfico da vida de Lila, uma menina que cresce aos nossos olhos. Observo aquelas fotografias e só vejo ternura e amor.

15 de outubro de 2011

Constatações.


〪Os dióspiros são, com a certeza possível de quem (ainda) não provou todos os frutos do mundo, os meus preferidos.

〪Adoro comer mel à colherada...e leite condensado...e Nutella ;)

〪São quase 2h da manhã, sábado, 15 de Outubro, e eu acabo de passear o meu cão de Havaianas, saia de algodão e top de alcinhas. Era bem capaz de viver assim (quase) o ano inteiro. Aliás, o meu calendário ideal teria 5 meses de Primavera (Janeiro a Maio), 5 meses de Verão (Junho a Outubro), 1 mês de Outono (Novembro) e outro de Inverno (Dezembro). Mas com todas as características de cada estação, assim uma coisa à séria - e com neve no Natal, de preferência.

14 de outubro de 2011

...




Ela tem-me salvo os dias. Esta voz, que me continua a arrepiar como muito poucas. Ouço-a enquanto trabalho e choro, choro muito. Não sei onde guardo tantas lágrimas. Trabalho e choro. E escrevo - não aqui, mas onde sei que as minhas palavras estão a salvo. Talvez um dia lhes dê outro rumo que não a vida solitária que têm levado, guardadas algures por entre os vestígios da minha existência. Por agora, agarro-me ao que tenho e tento viver um dia de cada vez. Não está fácil, mas melhores dias têm que estar algures mais à frente no caminho. Por vezes falham-me as forças, apetece-me desistir, deixar correr as águas do rio e sentar-me na margem, quietinha, sem pensar em mais nada. Mas não posso, nem quero, em abono da verdade. Quero correr atrás, conquistar sonhos, deixar pegadas, ser feliz. Nunca precisei de muito - sou pelas coisas simples, que são tantas vezes as mais difíceis de conseguir, pois não há dinheiro que as compre. Acredito que sou capaz de muito mais, nunca tive medo de arregaçar as mangas e ir à luta, da mesma forma que o trabalho nunca me assustou, fosse ele qual fosse. Só peço para ter a energia suficiente e a sabedoria necessária para atravessar esta tempestade que se abateu sobre as nossas vidas. O resto eu sei que tenho, mesmo que meio adormecido dentro de mim - a dor, a tristeza e a frustração podem não matar, mas moem-nos a alma até a deixar como um fantasma daquilo que já fomos um dia. Preciso de paz. E de uma boa noite de sono. O resto eu tenho, eu sei que tenho.

13 de outubro de 2011

Somente.

Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

- Adélia Prado
-

12 de outubro de 2011

Cristo Redentor...



...braços abertos sobre a Guanabara.



Faz hoje 80 anos. Abençoa, cuida e guarda uma das cidades da minha vida - ainda que nunca lá tenha estado. Desde que me conheço por gente que sinto o coração partido ao meio e metade da alma do outro lado do oceano. Não sei explicar melhor do que isto...dizem-me que é o chamamento do sangue, o apelo das origens e de uma raiz que é também a minha. Um dia, sei (sinto!) que está para breve, todos os pontos se vão ligar e eu vou poder, finalmente, completar uma viagem que os meus antepassados começaram. Devo isso a muita gente, mas, acima de tudo, a mim mesma. Há que fechar o círculo e achar a última peça do puzzle. De certa forma, sempre soube que é esse o meu destino.

11 de outubro de 2011

Estórias Abensonhadas

 Mia Couto - Prémio Eduardo Lourenço 2011


Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos
  
Ser, parecer, in Raiz de Orvalho e outros poemas



Vivia em ilha ventada, onde mais ninguém. Chamava-se Bartolominha, era minha avó favorita. O lugar dela era mais arejado que o céu, exposto ao longe e ao esquecer. Seu marido, Bastante António, sempre fora o faroleiro. Exercia aquelas luzes, noite adentro, sem que nenhuma vez tenha faltado no seu alto posto. Mesmo sem salário durante consecutivos anos, ele se manteve em fiel actividade. Esqueceram-se dele ali, os dos serviços centrais, lá onde o dinheiro brilha e a gente apodrece. Impassível, sem se queixumar, o avô Bastante se impunha a si mesmo, infalível, essa missão de iluminar as grandes rochas da costa. Nunca por seu lapso barco algum desfaleceu de encontro à rebentação.
De pouco lhe valeu tanta diligência: Bastante António morreu quando subia a enorme escada em caracol. Seu corpo subia mais rápido que o coração. Num segundo, essa intermitente luz de dentro deixou de lhe iluminar o peito. A notícia chegou-nos anos depois quando um ocasional barco passou por nossa cidade.
A família, de pronto, se fez ao mar. Havia que resgatar Bartolominha. A avó não podia ficar assim sem amparo naquela tão distante solidão. Acompanhei os restantes nesta missão de recuperar nossa idosa parente. Muito quem chorava era minha mãe, sua dilecta filha. Durante a viagem de barco, ela se inconsolava: quem sabe a avó, entretanto, já desistira de viver e não tinha tido quem a enterrasse?
Desembarcámos com o peito enrodilhado, olhando a medo os recantos do sítio. Suspirámos alto quando Bartolominha veio às rochas, envolta em sua capulana, a mesma que eu nela sempre recordava. Quando lhe falámos em sair dali, ela se contrafez. Afinal, viéramos buscá-la? Pois que fossemos na mesma via de regresso, que ela dali não arredava. Argumentou meu pai que ela não podia viver isolada de tudo, em lugar tão despertencido de gente. Falou meu tio que ali não chegava nem desembarcava notícia. Minha mãe acrescentou muitas lágrimas, com alma entalada na garganta.
Bartolominha respondeu, sem palavra, apontando a campa junto ao farol. Depois, se afastou e ficou de costas olhando o mar. Era como se, em silêncio, nos convocasse. Alinhámos com ela, perfilados frente ao oceano. Que queria ela dizer, assim muda e queda? Usava o oceano como argumento? Meu tio ainda insistiu:
– Quem lhe arranja sustento?
Nos mostrou,então, o pelicano. Era um bicho que ela criara desde pequenino. A ave se afeiçoara, mais doméstica que um familiar. A pontos de ir e vir e, todos os dias, lhe trazer peixe para ela se refeiçoar.
– Tenho que ficar aqui, regar o farol. Foi o meu bastante que me pediu para eu não deixar emagrecer este farol.
Regressámos sem a conseguir demover. Eu fiquei com o pensamento roendo-me o sono. Durante noites fui roubado ao descanso. Podia eu deixar o assunto assim? Não, eu não podia desistir.
E voltei a visitar a ilha. Demorei-me ali uns tantos dias. Juntei argumento, aliciei convite. A avó que viesse que eu lhe daria guarida e aconchego em minha nova casa. Mas nada. O mesmo sorriso desdenhoso lhe vinha aos lábios. Depois lhe sugeri que viesse comigo viajar por terras lindas.
– Só quero viajar quando for completamente cega.
Estranhei. Nem respondi, esperando que mais se explicasse. E sim, ela continuou:
– É que eu vivi tudo tão bonito que só quero visitar lugares que já estejam dentro de mim.
Arrumei a vontade. A velha senhora tinha raízes fundas. Em desfecho de conversa, eu lhe disse que, quando fosse, no dia seguinte, deixaria um barco amarrado nas árvores da praia. Para o que desse. Ela encolheu os ombros, enjeitando de vez a minha teimosia.
Nessa noite, jantámos em silêncio sob o peso de uma não dita despedida. Bartolominha proclamou o seu cansaço e anunciou que se ia retirar para seu quarto. Fizera do farol o seu aposento. Ela subiu os primeiros degraus e, antes de desaparecer no escuro, chamou o pelicano. Deitava-se com o bicho. Dormiam, inclusive, na mesma cama. Ele lhe estendia as asas e ela adormecia abraçada ao passarão. Dizia que assim seu corpo aprenderia a arte de voar.
– Uma dessas tardes vou com ele, por esses aforas.
Deitei-me olhando as estrelas como buracos no fundo preto de um tecto. Me deixei adormecer mas logo fui despertado por um estranho pesadelo. Na realidade, eu não sonhava com nada. Nem mesmo entendia o porquê desse meu impulso ao erguer-me da esteira. Era como se eu fosse guiado por vozes, escuro adentro. Me dirigi à campa e raspei as areias com os pés. Descobri então que o buraco era raso: a sepultura não tinha fundura nenhuma. Quando me debrucei sobre os restos vi os ossos que se esfarelavam. Eram ossos de um pássaro. E um muito volumoso bico.
O meu coração bateu, desordenado. Subi as escadas, tão veloz que as tonturas quase me roubaram do mundo. Não cheguei a tempo. Junto ao patamar do farol ainda toquei uma pena branca, esvoadiça. Fiquei na varanda com o vento me vestindo a alma. Num certo momento, ainda pensei vislumbrar Bartolominha revoando como se dançasse na fugaz intermitência do farol. Desde essa noite sou o faroleiro da ilha do avô Bastante. E aceno quando passam as grandes aves.

Bartolominha e o pelicano, in Na berma de nenhuma estrada