21 de setembro de 2011

Hoje os meus olhos não têm cor.

 Júlio Resende  1917 - 2011






Tinha razão Mestre.

Late Summer












Neste Verão em que completei 31 Primaveras, apercebi-me que, apesar de os meus dias estivais já não cheirarem a urze, a oliveiras e a bosques de azinheira; apesar de o meu horizonte por estes dias já não se encher de montes, xisto e granito, como nos Verões da minha infância e adolescência, há coisas que não mudam nunca. O meu mar continua bravo e frio, repleto de algas que se acumulam no areal durante a maré vaza, Agosto continua a ser sinónimo de nortadas e marés vivas e passear à beira-mar é-me tão natural e essencial como respirar. Redescobri o rio que atravessa as nossas vidas desde sempre e ao longo do qual gosto cada vez mais de caminhar. Dou cada vez mais importância a coisas simples, como ir ao mercado comprar peixe ou fazer pizzas caseiras, com direito a farinha e água derramadas pelo chão da cozinha, muitas caras enfarinhadas e sorrisos rasgados ao ver as obras-primas saírem do forno. Olho para a minha Mary Mary, cada vez mais crescida e a perder as feições de bebé (se bem que para mim vai ser sempre aquela bebé bolachuda, de olhos esbugalhados cor de azeitona preta que veio para o meu colo com apenas 5 meses), para aquele bicho-carpinteiro irrequieto e imaginativo, para aquela criatura que passa o dia a ouvir Bob Marley e Selena Gomez (para mim, uma combinação impossível), para aquela pirralha que por vezes me consome a paciência e me gasta o nome em três tempos e apercebo-me que trago o coração fora do peito e que sou mãe (adoptiva) há 11 anos (onze!) - pois apesar de não me ter saído do ventre é minha filha do coração e gosto de pensar que carrega um bocadinho de mim e que tenho contribuído para a sua formação enquanto ser humano. Olho para ela e para a nossa pequena mascote e embebeço-me com a forma carinhosa com que se tratam, com a maneira protectora com que a Mary Mary nos ajuda a tomar conta dela, com as brincadeiras que inventam juntas e com as gargalhadas que nos enchem a casa e alma. 
Setembro começou com uma aventura na Rota da Luz, num dia suspenso no turbilhão de problemas que diariamente teimam em invadir a minha vida ultimamente e no fim-de-semana passado assistimos ao sorriso rasgado da J. enquanto caminhava até ao altar, onde a esperava um não menos sorridente JN. A J. é a mais velha da minha geração de primos, crescemos todos bem perto uns dos outros e ninguém conseguiu conter as lágrimas ao vê-la de braço dado com o JN, já casados, depositar o ramo aos pés de Nossa Senhora enquanto a Maria Ana Bobone cantava a Avé Maria. Foi uma cerimónia muito emotiva, em que todas as pessoas queridas que nos faltam - e são tantas já!, foram lembradas com muita saudade. Na madrugada anterior tinha sonhado com a avó A. e a F., estavam ambas a preparar uns arranjos de flores para umas mesas com toalhas imaculadamente brancas. Tenho a certeza que todos os que já desapareceram na curva da estrada festejaram connosco aquele momento de alegria, com muitos sorrisos e abraços apertados, como os que nos demos naquela tarde quente de fim de Verão. 

Agora, na recta final de mais um tempo estival, com os dias mais curtos e as noites mais frescas, olho para trás e apercebo-me que não estou onde pensei que ia estar quando, há 10 anos, pensava no futuro. Há sonhos e projectos que (ainda) não se concretizaram, há muitos medos e frustrações pelo meio, mas há também uma esperança que vem lá do fundo de mim mesma e me faz acreditar em dias melhores. 

Não faço a mínima ideia onde estarei daqui a 10 anos e a verdade é que nem me importo já muito com isso. Enquanto tiver todas estas pessoas essenciais na minha vida, enquanto amar e for amada, enquanto me deitar com problemas e me conseguir levantar com a força necessária para os enfrentar, enquanto tiver saúde e souber que aqueles que amo se encontram bem, tudo o resto encontrará o seu caminho e o que tiver que ser, será. 

Carpe diem é o lema e para a frente é que é o caminho. Desistir? Não me parece...só temos mesmo a certeza desta vida, não é verdade?!

15 de setembro de 2011

 Aveiro - Setembro de 2011
 
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver
 
- Sophia - 

14 de setembro de 2011

Lobe dame oll*


Já conhecia a série e algumas personagens de tanto ouvir falar, mas ainda não tinha tido tempo (ou ainda não me tinha dado tempo) para assistir a este desenrolar de situações e diálogos completamente hilariantes. O elenco não poderia ter sido melhor escolhido e as personagens estão muito bem escritas e elaboradas, tocando nos pontinhos todos, em cada estereótipo e cliché de uma forma leve e bem humorada, mas extremamente certeira.

Têm feito parte dos meus dias ultimamente e já não consigo viver sem os 11 maravilha. Conseguem-me arrancar as gargalhadas mais genuínas dos últimos tempos e deixam-me sempre com uma sensação de leveza e boa disposição, numa altura em que tanto preciso de me abstrair dos problemas e das nuvens cinzentas que teimam em não sair de cima das nossas cabeças. 

Como diria a Patareca: estou fona!!! 

* pronúncia do Norte ;)

9 de setembro de 2011

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

-Alberto Caeiro-

8 de setembro de 2011

Aveirando.





















Aveiro - Setembro de 2011

Mais de 12 horas longe de tudo. Um dia inteiro (quase) sem pensar nos problemas, nos medos, nas frustrações. O céu limpo e um sol quente, disfarçado pela brisa que vinha do mar e que me valeu um escaldão. A luz de Setembro, ainda mais dourada, a fazer-me desejar prolongar o Verão eternamente. O passeio de Moliceiro, a certeza de que o meu elemento é a água e o Bairro dos Pescadores, onde apetece deixarmo-nos levar pelas cores e pelos cheiros que enchem cada rua, cada casa de uma vida imensa, intensa. A Ria, o som refrescante das águas, o jardim, o piquenique e a nossa baixela colorida e tão especial. 

A luz. O que mais me comoveu foi a luz. Andava a precisar de uma Rota da Luz nos meus dias.

Mais fotografias no Micocas.

28 de agosto de 2011

Plantando o meu próprio jardim.

Después de un tiempo,
uno aprende la sutil diferencia
entre sostener una mano
y encadenar un alma,
y uno aprende
que el amor no significa acostarse
y una compañía no significa seguridad
y uno empieza a aprender...
Que los besos no son contratos
y los regalos no son promesas
y uno empieza a aceptar sus derrotas
con la cabeza alta y los ojos abiertos
y uno aprende a construir
todos sus caminos en el hoy,
porque el terreno del mañana
es demasiado inseguro para planes...
y los futuros tienen una forma de caerse
en la mitad.
Y después de un tiempo
uno aprende que si es demasiado,
hasta el calorcito del sol quema.
Así que uno planta su propio jardín
y decora su propia alma,
en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.
Y uno aprende que realmente puede aguantar,
que uno realmente es fuerte,
que uno realmente vale,
y uno aprende y aprende...
y con cada día uno aprende.

- Jorge Luis Borges -