Olhando para a minha vida - assim como para os últimos posts por aqui escritos, apercebo-me, uma vez mais, como é sinuoso o caminho que somos tantas vezes obrigados a traçar, devido às mais variadas circunstâncias. Sei que a felicidade não se constrói em linha recta, mas há alturas em que tudo parece desmoronar à nossa volta. No entanto, no momento seguinte, há algo que nos devolve o alento, nos faz esboçar um sorriso e voltar a acreditar. É nesta montanha russa constante que vamos seguindo em frente, vivendo o dia a dia, traçando objectivos concretizáveis, continuando a sonhar.
9 de julho de 2011
A árvore da vida*
5 de julho de 2011
O homem sonha, a obra nasce.
Micocas é uma alcunha de infância, um petit nom criado pela minha avó A. a partir de Mariana, que me fazia sentir especial e única. É um nome que associo imediatamente a casa, colo, família, cozinha, mesas cheias e refeições demoradas, brincadeiras, jardim, viagens de carro, fotografias, praia, guloseimas, presentes. São sete (e 7 é o meu número preferido) letrinhas que comportam em si toda uma infância cheia de coisas boas (e outras nem por isso), que me ajudaram a ser quem sou. Curiosamente, todas essas coisas boas que preencheram a minha infância, continuam, até hoje, a fazer parte de mim e, muitas delas, têm vindo a assumir um papel cada vez mais importante na minha vida.
As viagens, a fotografia, a cozinha e tudo o que possa ser feito à mão e em casa, de uma forma artesanal e única, sem grandes linhas de montagem ou estandardizações, tornaram-se, não apenas em passatempos, mas numa forma e numa filosofia de vida.
Desta forma, surgiu uma enorme vontade de tentar conciliar tudo isso em algo criativo, que me preenchesse e me permitisse criar um fundo de maneio, uma espécie de bolsa, para sustentar as muitas viagens que estão nos meus planos. Viagens essas que, por sua vez, servem também como fonte de inspiração e de alimento para a alma, que depois transporto para tudo o que faço e que são imortalizadas em fotografias e em diários de bordo que um dia, espero eu, poderão dar outros frutos.
É neste ciclo natural, orgânico e em constante mutação que surge Micocas, uma ideia que se pretende que vire uma marca, sinónimo de afectos, casa, família, amigos e bons momentos.
Depois de muito sonharmos, planearmos, projectarmos e desesperarmos com alguns pormenores, o nosso baby project (como lhe chamou a Micas aka my mum) lá arrancou, devagarinho, para não tropeçar, mas de passo firme e determinado.
P.S. - Estamos também aqui, no Livro das Caras - a ver se ficamos famosas ;) Ide espreitar e botem um like, se for caso disso!
P.S. - Estamos também aqui, no Livro das Caras - a ver se ficamos famosas ;) Ide espreitar e botem um like, se for caso disso!
1 de julho de 2011
Tenho em mim todos os sonhos do mundo*
Nos últimos dias, celebrámos todos os Santos, fizemos jantaradas no jardim com cheirinho a manjericos e a orvalhada ribeirinha.
Festejámos a vida, o prazer de estarmos juntos e os acrescentos da família com Cascatas Juninas.
Assámos sardinhas ao luar e comemos pimentos, broa e batatas com azeite até mais não.
Servimos caldo-verde tarde da noite, para espantar o frio e a humidade.
Lançámos muitos balões coloridos.
Cantamos "O balão do João sobe sobe pelo ar..."
Ficámos com torcicolos de tanto olhar para o céu.
Escrevemos mensagens para chegarem aos anjos (ou ao quintal do vizinho do lado).
Fizemos a festa e deitámos os foguetes - as canas apanham-se sempre no dia seguinte.
Celebrámos o amor de um João no dia do homónimo, apesar de dizerem que o António é que é o casamenteiro - e que ninguém diga que a colheita de 80 não é a melhor!
Terminámos os dias e as noites longas nos braços de quem mais amamos, pois só assim conseguimos seguir em frente e enfrentar os problemas que não se evaporam com o calor das fogueiras e dos abraços, apesar de se atenuarem consideravelmente.
Tomámos banhos de mar depois da meia-noite e passeámos na orla das ondas, afundando os pés na areia molhada.
Comemos farturas e cachorros-quentes em festas populares à beira-rio. Demos passeios pela cidade, dividimos lanhes, sorrisos e sonhos.
Fizemos planos, traçamos objectivos, concretizamos algumas etapas de projectos em andamento. Continuamos a sonhar.
Por tudo isto e muito mais, sei que tenho todas as razões do mundo para ficar e uma vontade/necessidade cada vez mais urgente de partir. Por mim, por eles. Para poder regressar para eles, inteira, intacta. Para me poder olhar ao espelho e me reconhecer, me (re)encontrar. Preciso de ir embora, ganhar mundo outra vez, voltar a olhar para mim e por mim - não de uma forma egoísta, mas por uma questão de sobrevivência. Se não estiver bem, não conseguirei ajudar quem quer que seja. Se me continuar a sentir vazia, oca, jamais conseguirei ser verdadeiramente feliz e, muito menos, fazer felizes aqueles que me rodeiam e que mais amo.
Tenho que voar novamente, sabendo sempre onde estão as minhas origens e o meu porto seguro. Talvez assim, um dia não muito longínquo, possa ser capaz de escrever algo semelhante. Quando esse dia chegar, não terei a sensação que adormeço e acordo todos os dias com uma desconhecida e sentir-me-ei bem comigo mesma outra vez.
Aí sim, estarei pronta para voltar para casa.
*Álvaro de Campos
20 de junho de 2011
Afinal o que importa é não ter medo.
Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo
No riso admirável de quem sabe e gostaà saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
- Mário Cesariny -
1 de junho de 2011
E a Morte é uma águia cujo grito ninguém descreve. *
Jardim- Primavera 2011
Um banco de madeira e uma pedra de mármore. Uma conversa profunda e nostálgica. O rosto da J. igual ao da mãe, o sorriso que me devolve a memória exacta da F., os mesmos gestos que reconheço em tantos de nós. Coisa estranha a genética, os laços de sangue e a sensação de ter peças do meu próprio puzzle espalhadas pelo corpo e pela alma de outras pessoas. A família reunida - somos tantos, ainda. Os abraços de consolo, de conforto e da certeza de que, haja o que houver, havemos de estar sempre todos, ali ou noutro qualquer lugar. A D. tão crescida, vagueando entre o mundo dela e o nosso, meio perdida, sem saber como agir...por vezes penso que se estará bem melhor do outro lado, onde ela se costuma refugiar, sobretudo da incompreensão daqueles que só conseguem andar em linha recta, desconhecendo por completo que há mais vida para além do horizonte. A roda da vida que desandou novamente, num ciclo cruel, imprevisível e imparável. A lista de convidados para o casamento da J. que voltou a diminuir, tenho medo que isto não fique por aqui, sussurra-me ao ouvido, a meio de um abraço apertado que nos transportou para outro tempo e outro lugar, quando ambas usávamos totós e nos sentávamos nas escadas de pedra a filosofar. Tudo muda, se transforma e se renova, dissera-me o V. pouco antes, numa repetição de frases feitas, embora verdadeiras, tentando consolar o inconsulável, porque inevitável, apesar do sofrimento que provoca nos que ficam. Os rostos na sombra, protegendo-se do sol de fim de tarde, que encandeia o olhar já de si encandeado pela dor. O até já de quem sabe que dali a pouco estaremos de novo todos juntos, desta vez para um até sempre, para a ausência palpável de todos aqueles que amamos e vemos partir para a incerteza, para o vazio.
Costumo imaginá-los a todos, algures num jardim parecido com o nosso. A S. sentada ao colo da avó A., à mesa do lanche - uma mesa enorme, toalha de linho branca e um serviço de chá de porcelana às florzinhas. A avó C. a servir o seu Bolo Inglês, a F. a conversar com a M., o tio A. a tocar guitarra à sobra de um chorão, enquanto todos os outros se deliciam com os scones da bisa M. . Sossega-me a alma e, por breves instantes, sorrio entre lágrimas.
* Cecília Meireles
29 de maio de 2011
A saudade...
27 de maio de 2011
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