5 de julho de 2011

O homem sonha, a obra nasce.

Micocas é uma alcunha de infância, um petit nom criado pela minha avó A. a partir de Mariana, que me fazia sentir especial e única. É um nome que associo imediatamente a casa, colo, família, cozinha, mesas cheias e refeições demoradas, brincadeiras, jardim, viagens de carro, fotografias, praia, guloseimas, presentes. São sete (e 7 é o meu número preferido) letrinhas que comportam em si toda uma infância cheia de coisas boas (e outras nem por isso), que me ajudaram a ser quem sou. Curiosamente, todas essas coisas boas que preencheram a minha infância, continuam, até hoje, a fazer parte de mim e, muitas delas, têm vindo a assumir um papel cada vez mais importante na minha vida. 
As viagens, a fotografia, a cozinha e tudo o que possa ser feito à mão e em casa, de uma forma artesanal e única, sem grandes linhas de montagem ou estandardizações, tornaram-se, não apenas em passatempos, mas numa forma e numa filosofia de vida.
Desta forma, surgiu uma enorme vontade de tentar conciliar tudo isso em algo criativo, que me preenchesse e me permitisse criar um fundo de maneio, uma espécie de bolsa, para sustentar as muitas viagens que estão nos meus planos. Viagens essas que, por sua vez, servem também como fonte de inspiração e de alimento para a alma, que depois transporto para tudo o que faço e que são imortalizadas em fotografias e em diários de bordo que um dia, espero eu, poderão dar outros frutos. 
É neste ciclo natural, orgânico e em constante mutação que surge Micocas, uma ideia que se pretende que vire uma marca, sinónimo de afectos, casa, família, amigos e bons momentos. 
Depois de muito sonharmos, planearmos, projectarmos e desesperarmos com alguns pormenores, o nosso baby project (como lhe chamou a Micas aka my mum) lá arrancou, devagarinho, para não tropeçar, mas de passo firme e determinado. 


P.S. - Estamos também aqui, no Livro das Caras - a ver se ficamos famosas ;) Ide espreitar e botem um like, se for caso disso!

1 de julho de 2011

Tenho em mim todos os sonhos do mundo*


Nos últimos dias, celebrámos todos os Santos, fizemos jantaradas no jardim com cheirinho a manjericos e a orvalhada ribeirinha.


Festejámos a vida, o prazer de estarmos juntos e os acrescentos da família com Cascatas Juninas.


Assámos sardinhas ao luar e comemos pimentos, broa e batatas com azeite até mais não.


Servimos caldo-verde tarde da noite, para espantar o frio e a humidade.


Lançámos muitos balões coloridos.


Cantamos "O balão do João sobe sobe pelo ar..."


Ficámos com torcicolos de tanto olhar para o céu.


Escrevemos mensagens para chegarem aos anjos (ou ao quintal do vizinho do lado).


Fizemos a festa e deitámos os foguetes - as canas apanham-se sempre no dia seguinte.


Celebrámos o amor de um João no dia do homónimo, apesar de dizerem que o António é que é o casamenteiro - e que ninguém diga que a colheita de 80 não é a melhor!


Terminámos os dias e as noites longas nos braços de quem mais amamos, pois só assim conseguimos seguir em frente e enfrentar os problemas que não se evaporam com o calor das fogueiras e dos abraços, apesar de se atenuarem consideravelmente.

Tomámos banhos de mar depois da meia-noite e passeámos na orla das ondas, afundando os pés na areia molhada.

Comemos farturas e cachorros-quentes em festas populares à beira-rio. Demos passeios pela cidade, dividimos lanhes, sorrisos e sonhos.

Fizemos planos, traçamos objectivos, concretizamos algumas etapas de projectos em andamento. Continuamos a sonhar.

Por tudo isto e muito mais, sei que tenho todas as razões do mundo para ficar e uma vontade/necessidade cada vez mais urgente de partir. Por mim, por eles. Para poder regressar para eles, inteira, intacta. Para me poder olhar ao espelho e me reconhecer, me (re)encontrar. Preciso de ir embora, ganhar mundo outra vez, voltar a olhar para mim e por mim - não de uma forma egoísta, mas por uma questão de sobrevivência. Se não estiver bem, não conseguirei ajudar quem quer que seja. Se me continuar a sentir vazia, oca, jamais conseguirei ser verdadeiramente feliz e, muito menos, fazer felizes aqueles que me rodeiam e que mais amo.

Tenho que voar novamente, sabendo sempre onde estão as minhas origens e o meu porto seguro. Talvez assim, um dia não muito longínquo, possa ser capaz de escrever algo semelhante. Quando esse dia chegar, não terei a sensação que adormeço e acordo todos os dias com uma desconhecida e sentir-me-ei bem comigo mesma outra vez. 

Aí sim, estarei pronta para voltar para casa.

*Álvaro de Campos 

20 de junho de 2011

Afinal o que importa é não ter medo.

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura


Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio


Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante


Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício


Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola


Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come


Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!


Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo 

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

- Mário Cesariny -

1 de junho de 2011

E a Morte é uma águia cujo grito ninguém descreve. *







Jardim- Primavera 2011

Um banco de madeira e uma pedra de mármore. Uma conversa profunda e nostálgica. O rosto da J. igual ao da mãe, o sorriso que me devolve a memória exacta da F., os mesmos gestos que reconheço em tantos de nós. Coisa estranha a genética, os laços de sangue e a sensação de ter peças do meu próprio puzzle espalhadas pelo corpo e pela alma de outras pessoas. A família reunida - somos tantos, ainda. Os abraços de consolo, de conforto e da certeza de que, haja o que houver, havemos de estar sempre todos, ali ou noutro qualquer lugar. A D. tão crescida, vagueando entre o mundo dela e o nosso, meio perdida, sem saber como agir...por vezes penso que se estará bem melhor do outro lado, onde ela se costuma refugiar, sobretudo da incompreensão daqueles que só conseguem andar em linha recta, desconhecendo por completo que há mais vida para além do horizonte. A roda da vida que desandou novamente, num ciclo cruel, imprevisível e imparável. A lista de convidados para o casamento da J. que voltou a diminuir, tenho medo que isto não fique por aqui, sussurra-me ao ouvido, a meio de um abraço apertado que nos transportou para outro tempo e outro lugar, quando ambas usávamos totós e nos sentávamos nas escadas de pedra a filosofar. Tudo muda, se transforma e se renova, dissera-me o V. pouco antes, numa repetição de frases feitas, embora verdadeiras, tentando consolar o inconsulável, porque inevitável, apesar do sofrimento que provoca nos que ficam. Os rostos na sombra, protegendo-se do sol de fim de tarde, que encandeia o olhar já de si encandeado pela dor. O até já de quem sabe que dali a pouco estaremos de novo todos juntos, desta vez para um até sempre, para a ausência palpável de todos aqueles que amamos e vemos partir para a incerteza, para o vazio. 

Costumo imaginá-los a todos, algures num jardim parecido com o nosso. A S. sentada ao colo da avó A., à mesa do lanche - uma mesa enorme, toalha de linho branca e um serviço de chá de porcelana às florzinhas. A avó C. a servir o seu Bolo Inglês, a F. a conversar com a M., o tio A. a tocar guitarra à sobra de um chorão, enquanto todos os outros se deliciam com os scones da bisa M. . Sossega-me a alma e, por breves instantes, sorrio entre lágrimas.

* Cecília Meireles

29 de maio de 2011

A saudade...




... por vezes também acontece sobre carris. Sinto falta de olhar o mundo através da carruagem de um comboio.

24 de maio de 2011

Lucinda.

Sentou-se ao meu lado num autocarro quase lotado. Ajeitou-se no assento, compôs a blusa e colocou a carteira no colo, com as mãos entrelaçadas por cima. Pouco depois senti um leve toque no braço, que me trouxe o olhar de novo para o interior. Desculpe, a menina tem horas certas que me saiba dizer? O relógio parou nas duas da tarde e nem dei conta. Depois de verificar no telemóvel - desabituei-me de usar relógio já há uns anos, disse-lhe as horas, sorrindo ao ver a expressão do seu rosto. Nunca me lembro que essas geringonças também têm horas, disse soltando uma pequena gargalhada, que me fez sorrir ainda mais. Afinal vou com tempo, continuou, já estava a ficar com receio de me ter atrasado. Detesto fazer esperar, sabe? Já somos duas, respondi-lhe. Hoje é a minha única tarde livre, prosseguiu, livre de netos, quero dizer. Todas as 3ª feiras lancho com um grupo de amigas. Eu sou a mais velha, 86 anos feitos em Março, a mais nova tem 81, diz ela, que cá para mim já são mais. Fez um sorriso maroto e rematou: sabe como são as mulheres, sempre que podem fogem à verdade em relação à idade. Eu sorri também e disse-lhe que sim, que era verdade, algumas eram mesmo assim. Mas que a ela não lhe dava mais de setenta, no máximo. Ui, onde já vão os 70 anos...mas olhe, de espírito não tenho mais de 40, que o digam os meus netos, que têm que suar as estopinhas para aguentarem a minha pedalada. Sabe, fiquei viúva há 5 anos, depois de uma doença prolongada e sofrida do meu marido. Estivemos casados 60 anos, com mais 9 de namoro, uma raridade nos dias que correm. Fui secretária de um advogado até me reformar, tenho uma reforma mediana, que se compõe com a pensão de viuvez. Um mês depois da morte do meu marido desfiz-me do carro - ainda era uma máquina razoável e estava em óptimo estado, e com o dinheiro da venda e mais umas poupanças, peguei nos meus cinco netos e numa sobrinha que tinha na altura 20 anos - para me ajudar com a tropa, que sozinha também era puxado, e fomos os sete à Eurodisney. Sempre fui uma avô presente e dedicada, mas desde essa altura que vivo por eles e para eles - e pelos meus filhos e pelos meus amigos, que ainda me querem cá durante mais uns tempos. Eu ia calada, atenta e emocionada com o relato, com a leveza e com a alegria daquelas palavras. Não havia ali tristeza, frustração, remorsos, amargura, nada mais além do que o sentimento de alguém que sabe estar de bem consigo mesma e aproveitar ao máximo aquilo que a vida lhe vai dando. Agora, continuou, depois dos afazeres domésticos e dos meus pequenos prazeres - finalmente tenho tempo para ler e para ver os filmes todos que me apetece, aproveito o tempo que sobra a passear com os meus netos, a contar-lhes histórias, a ajudá-los com os deveres da escola - quase nem precisam, são crianças espertas e responsáveis, graças a deus e aos pais deles. Passei a utilizar os transportes públicos, que me levam para onde quero e sem grandes preocupações e assim sempre vou fazendo algum exercício físico também. Tenho bons amigos, alguns já foram desaparecendo, que isto a roda da vida não pára de girar. Hoje vamos comer gelados a um sítio novo que parece que abriu recentemente e é muito agradável, segundo dizem. Depois ainda vamos ao cinema, mas ainda nem sei qual o filme escolhido. A contragosto, pois estava deliciada com a conversa - era mais um monólogo, mas ainda assim, completamente delicioso, disse-lhe que já tinha que sair na paragem a seguir. Eu também minha querida, assim também já não a maço mais. Não me maça nada, é um prazer ouvi-la, foi tudo o que tive tempo de dizer antes de o autocarro começar a parar e nós termos de descer. Foi aí que pude olhar melhor para aquele ser luminoso: calças cor-de-laranja impecavelmente vincadas, blusa acetinada de fundo verde e motivos tropicais coloridos, sandálias e carteira de couro a condizer, num amarelo-mostarda que eu tanto gosto e um cabelo branco impecavelmente tratado, com uns caracóis perfeitos, iguais aos da Frau B. Já no passeio, pegou-me na mão e disse-me sorrindo: Obrigada por este bocadinho minha querida, foi muito bom falar consigo. Posso dar-lhe um beijinho?, saiu-me de repente, sem pensar, esquecendo-me por completo que estava a falar com uma pessoa estranha e não sabendo qual seria a reacção à minha pergunta. Recebi um abraço delicado e um beijinho que me comoveu. Que falta de educação a minha, nem me apresentei. Chamo-me Lucinda, disse-me enquanto ainda segurava a minha mão. Eu sou a Mariana. Como a minha filha e a minha neta mais velha, sorriu. Espero encontra-la mais vezes minha querida. Fez-me uma festa no rosto e despediu-se, seguindo na direcção oposta à minha. Eu fiquei ali a vê-la partir, a carteira ao ombro, o andar determinado e leve ao mesmo tempo, os caracóis brilhantes pela incidência da luz do sol. Minha querida Lucinda, quando crescer quero ser exactamente assim.