Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas... em ninhos.
Não sei por que vazios em meio de uma estrada
Deserta...
Penso em súbitos cometas anunciadores de um Mundo Novo
E - imagina! –
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava...
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores,
amores,
Nos olhos-flores das menininhas - isso mesmo! O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras
em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
Mas tão coloridos...
E - já então - o trovoar dos versos de Camões:
"Que o menor mal de todos seja a morte!"
Ah, prometo àqueles meus professores desiludidos que na
próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor...
Prometo, prometo, sim... Estou mentindo? Estou!
Tão bom morrer de amor! E continuar vivendo...
- Mario Quintana -
5 de dezembro de 2009
3 de dezembro de 2009
Um lugar de silêncio...
Há pessoas com quem é fácil deixar-se estar triste. Longe de serem muitas. Mostrar a tristeza para quem quiser ver é uma quase prostituição, parece-me. Isolada, ou entre quem não suscita por si grande interesse, é-me indiferente. Mas dentro de um núcleo mais ou menos familiar, de entre quem sabe de nós, nos conhece o suficiente para contextualizar algumas coisas, parece-me muito mal. A mim. Depois há aquelas outras em relação às quais, dentro de limites na profundidade do estado, é impraticável. Aquelas que sabemos que se nos sentem respirar muito devagar ficam muito mais rapidamente, e com outro fulgor, com uma inquietação que não as vai deixar dormir, quando até nós já fizemos os nossos rolinhos de roupa da cama de encontro ao peito, e adormecemos em paz. Então é disfarçar ou fugir, com desculpas de pouco tempo, cansaço, tudo o que justifique o estado aparente e a brevidade da conversa. Resulta. Acho eu. No extremo oposto as que sentimos que não devemos acinzentar sem deixar entrar, e não deixamos porque verdadeiramente não queremos, nunca quisemos, e sentimos que vamos arrepender se deixarmos. Ou asque não sabem interpretar, aceitar, deixar simplesmente ser, sendo também elas. Ou as que podem até levar a mal. Noves fora ficam pouquinhas. Para quem tem a sorte de as ter. Eu tenho. Ora, manual de bem lidar com tristeza alheia. Com base na experiência. Não dar demasiada importância - sinal de inteligência. É (ou pode ser) talvez a forma como me é melhor dada a entender a seriedade com que se compreende e se abraça a minha tristeza. É uma forma de dizer: eu sei, falta pouquinho. Depois passa. Em águas que se querem paradas caem como pedras preocupações desmedidas, conselhos, tentativas em voos rasos de soluções muito fáceis. Tenho cá para mim que quem está triste o quer, com alguma convicção, estar. Mesmo que seja a convicção do "não há volta a dar pelo que...". Por um pouco tempo, o suficiente. Talvez como o cansaço do dia e deixar-se dormir. Dormir é bom, é muito bom. Mas muito também desistir de tudo por um bocado. Baixar os braços, adiar, até morrer por um bocadinho. É, tenho ideia que não há nada de melhor a fazer com os tristes que deixá-los estar por um bocado.
Também não dar pouca importância, não fazer dela um fantasma.
Neste intervalinho sensível vivem fadas e duendes. Mentira, mas podiam. É o intervalo de não se estranhar a expressão, cara feia, de não estranhar poucas conversas, nem brilho plim no sorriso. E mesmo assim estar tudo bem. Muito bem. Como muito bem estão os dias de chuva no Outono. Como manchinha de tinta que a seu tempo se vai atenuando, envolvendo na transparência de outras águas, desaparecendo. Devagar, devagar, devagar… A partir do momento em que vivemos bem a nossa tristeza com alguém, toda a alegria que possa existir tem outros genes. Tudo ganha um carácter de incondicionalidade e de permanência que até então nem o desejo do que poderia ser chegava. “Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio. De paixão.” Deve ser a terceira ou quarta vez que escrevo este poema por aqui. No fim venho sempre ter a ele. Sou rebuscadinha de muitas maneiras, mas é isto.
Também não dar pouca importância, não fazer dela um fantasma.
Neste intervalinho sensível vivem fadas e duendes. Mentira, mas podiam. É o intervalo de não se estranhar a expressão, cara feia, de não estranhar poucas conversas, nem brilho plim no sorriso. E mesmo assim estar tudo bem. Muito bem. Como muito bem estão os dias de chuva no Outono. Como manchinha de tinta que a seu tempo se vai atenuando, envolvendo na transparência de outras águas, desaparecendo. Devagar, devagar, devagar… A partir do momento em que vivemos bem a nossa tristeza com alguém, toda a alegria que possa existir tem outros genes. Tudo ganha um carácter de incondicionalidade e de permanência que até então nem o desejo do que poderia ser chegava. “Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio. De paixão.” Deve ser a terceira ou quarta vez que escrevo este poema por aqui. No fim venho sempre ter a ele. Sou rebuscadinha de muitas maneiras, mas é isto.
Da memória...
Primeiro esqueci o cheiro
E ao acordar já não senti o sabor da sua boca
Depois o corpo tornou-se memória
Em vez de impressão
Esfumado, perdido, inglório
O seu rosto desaparecia
Ficavam quase nem os contornos
E no fim sentia só uma tristeza
De promessa feita e não tornada
- Miguel Soares-
1 de dezembro de 2009
Da infância...
Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.
- Fiama Hasse Pais Brandão -
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.
- Fiama Hasse Pais Brandão -
No instante de acordar...
Procuro um adjectivo para cobrir
o teu corpo, belo como o lençol da madrugada,
e lento como o teu abrir de pálpebras
no instante de acordar. Vou buscá-lo
a um armário de sinónimos, por entre
as palavras redondas do amor. Toco
os teus lábios com as suas sílabas,
sentindo a branca humidade da noite
no leve murmúrio em que pousam
os meus olhos. E vou descobrindo a luz
das palavras que tiro de cima de ti, para
que apenas te cubra o adjectivo
que te veste, nua, nos braços
que te procuram.
- Nuno Júdice -
30 de novembro de 2009
Subscrever:
Mensagens (Atom)




