9 de novembro de 2009

Berliner Mauer






Há 20 anos atrás vivia um dos dias mais felizes e emocionantes da minha vida. 
Talvez os meus 9 anos não fossem ainda suficientes para alcançar na totalidade a magnitude daquele acontecimento, mas as comemorações no Colégio, os rostos sorridentes e a sensação de alívio e de liberdade que se viveu naquele dia, fazem parte das minhas memórias mais marcantes.
Três anos mais tarde visitei Berlim pela primeira vez e as sensações vividas naquele 9 de Novembro de 1989 estavam completamente à flor da pele. Juntamente com o meu irmão, e munidos com um canivete suíço, escavacamos o muro em busca de uma recordação palpável daquele momento e de tudo o que tínhamos vivido...
Acima de tudo, queríamos uma prova, algo concreto que nos lembrasse para sempre as milhares de pessoas que viram as suas vidas afectadas, condicionadas e destruídas por aquele que será sempre um dos muros mais vergonhosos da História da Humanidade.

5 de novembro de 2009

Hoje...


















...estou com muito frio!

Das heranças...

Testamento


Vou partir de avião

e o medo das alturas misturado comigo

faz-me tomar calmantes

e ter sonhos confusos

 

Se eu morrer

quero que a minha filha não se esqueça de mim

que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada

e que lhe ofereçam fantasia

mais que um horário certo

ou uma cama bem feita

 

Dêem-lhe amor e ver

dentro das coisas

sonhar com sóis azuis e céus brilhantes

em vez de lhe ensinarem contas de somar

e a descascar batatas

 

Preparem a minha filha

para a vida

se eu morrer de avião

e ficar despegada do meu corpo

e for átomo livre lá no céu

 

Que se lembre de mim

a minha filha

e mais tarde que diga à sua filha

que eu voei lá no céu

e fui contentamento deslumbrado

ao ver na sua casa as contas de somar erradas

e as batatas no saco esquecidas

e íntegras


- Ana Luísa Amaral - 

4 de novembro de 2009

Me too!

No princípio era.

Não dormia sem o escuro absoluto. 

Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades, 

de ter esquecido gente, do frio 

do vidro nas palavras. Demorava tanto 

a entender o mundo que agora não dormia 

de muita luz que as coisas tinham 

antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto 

nesse lugar onde vivia com outros como ela 

que às vezes pensava: tão estranho nascer 

(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui) 

para o dia passado com estranhos. 

E por isso, no princípio, não dormia 

sem procurar o amor, sem beijar na testa 

a noite que acabava serena e exausta como a noite. 

No princípio era. 

Depois esvaziou-se com cuidado. 


- Filipa Leal -

2 de novembro de 2009

Dos amantes enlaçados...

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

- Jorge de Sena -