4 de novembro de 2009

No princípio era.

Não dormia sem o escuro absoluto. 

Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades, 

de ter esquecido gente, do frio 

do vidro nas palavras. Demorava tanto 

a entender o mundo que agora não dormia 

de muita luz que as coisas tinham 

antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto 

nesse lugar onde vivia com outros como ela 

que às vezes pensava: tão estranho nascer 

(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui) 

para o dia passado com estranhos. 

E por isso, no princípio, não dormia 

sem procurar o amor, sem beijar na testa 

a noite que acabava serena e exausta como a noite. 

No princípio era. 

Depois esvaziou-se com cuidado. 


- Filipa Leal -

2 de novembro de 2009

Dos amantes enlaçados...

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

- Jorge de Sena -

1 de novembro de 2009

I miss...



















Nouvelle Vague

Eis a travessia que te proponho:

maravilhar-te as insónias
com o paciente crepúsculo da idade
acordar fora do corpo esquecer o olhar
sobre o pêlo ruivo dos animais beber
o fulgor das estrelas no esplendor da alba
nomear-te
para recomeçarmos juntos a vida toda

ensinar-te o segredo dos alquímicos minerais
acender-te um pouco de culpa
na imatura paisagem do coração

eis a travessia que te proponho
amanhecer sem querermos possuir o mundo
e no orvalho da noite saciar o desejo adiado
respirar a música inaudível das galáxias
sentir o tremeluzir da água no medo da boca

o amor
deve ser esta perseguição de sombras
esta cabeça de mármore decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias

- Al Berto -

31 de outubro de 2009

Trick...


...or treat ?

De palcos e estreias...


Tiraste a velha máscara que um dia
Puseram no teu rosto sem aviso.
E mesmo sendo à tua revelia,
Tomaste como teus o choro e o riso.

Dançaste nesse falso paraíso,
No qual todo um cenário te cobria.
Fizeram do teu sonho algo impreciso,
E até do teu sorriso alegoria.

Caído o pano agora, recomeça
O teu próprio espetáculo, sem pressa
Ou vício ou medo. E para que não falhes,

Terás o teu caminho sem atalhos,
As roupas costuradas com detalhes,
A vida toda cheia de retalhos.

- Henrique Rodrigues -

Vigílias

Quando aqui não estás 
o que nos rodeou põe-se a morrer 
a janela que abre para o mar 
continua fechada só nos sonhos 
me ergo 
abro-a 
deixo a frescura e a força da manhã 
escorrem pelos dedos prisioneiros 
da tristeza 
acordo 
para a cegante claridade das ondas 
um rosto desenvolve-se nítido 
além 
rasando o sal da imensa ausência 
uma voz 
quero morrer 
com uma overdose de beleza 
e num sussurro o corpo apaziguado 
perscruta esse coração 
esse 
solitário caçador

- Al Berto -