31 de outubro de 2009

Trick...


...or treat ?

De palcos e estreias...


Tiraste a velha máscara que um dia
Puseram no teu rosto sem aviso.
E mesmo sendo à tua revelia,
Tomaste como teus o choro e o riso.

Dançaste nesse falso paraíso,
No qual todo um cenário te cobria.
Fizeram do teu sonho algo impreciso,
E até do teu sorriso alegoria.

Caído o pano agora, recomeça
O teu próprio espetáculo, sem pressa
Ou vício ou medo. E para que não falhes,

Terás o teu caminho sem atalhos,
As roupas costuradas com detalhes,
A vida toda cheia de retalhos.

- Henrique Rodrigues -

Vigílias

Quando aqui não estás 
o que nos rodeou põe-se a morrer 
a janela que abre para o mar 
continua fechada só nos sonhos 
me ergo 
abro-a 
deixo a frescura e a força da manhã 
escorrem pelos dedos prisioneiros 
da tristeza 
acordo 
para a cegante claridade das ondas 
um rosto desenvolve-se nítido 
além 
rasando o sal da imensa ausência 
uma voz 
quero morrer 
com uma overdose de beleza 
e num sussurro o corpo apaziguado 
perscruta esse coração 
esse 
solitário caçador

- Al Berto -

22 de outubro de 2009

Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso...

I

Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por nomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges como entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba

II

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso

III

Pois no ar estremece a tua alegria
- Tua jovem rijeza de arbusto -
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso

- Sophia de Mello Breyner Andresen -


19 de outubro de 2009

Do fim do Verão...

O verão que perdemos
não poderá fazer-nos
perder o verão novo


Há-de voltar o corpo
e o mar será o mundo
revolto que já foi

O outono o inverno
serão se nós quisermos
o verão que perdemos

- Gastão Cruz -