6 de outubro de 2009

Do equilíbrio da amizade...

Na amizade, muitas vezes, a distância é o lugar mais próximo e de maior proximidade, isto é, onde a presença do outro de tão inteira já não pode ser medida. Sendo um lugar cheio de saudadeesse é também um lugar felizporque aí sem cessar se regressa e avista. É como o movimento de quem caminha num espaço alto e estreito: é preciso separar os braços e desunir as mãospara que possa alcançar-se o equilíbrio.

- Daniel Faria -

5 de outubro de 2009

I just wanna feel...


FREE!!!

Tornámo-nos murmurantes

lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostada ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia as mãos nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulava para me dizer que 
estávamos vivos
e apaixonados

- Al Berto -

4 de outubro de 2009

Soneto

Se, para possuir o que me é dado, 
Tudo perdi e eu própio andei perdido, 
Se, para ver o que hoje é realizado, 
Cheguei a ser negado e combatido.  

Se, para estar agora apaixonado, 
Foi necessário andar desiludido, 
Alegra-me sentir que fui odiado 
Na certeza imortal de ter vencido!  

Porque, depois de tantas cicatrizes, 
Só se encontra sabor apetecido 
Àquilo que nos fez ser infelizes!  

E assim cheguei à luz de um pensamento  
De que afinal um roseiral florido 
Vive de um triste e oculto movimento  

- António Botto -

Da ternura...


3 de outubro de 2009

Tudo se pode esconder nos olhos mais nus...

solta-te
como se ainda fosses
um peixe a fugir da morte
e houvesse
por entre os dedos da noite
uma escada
de sereno veneno
por onde pudesses
mentir ao medo
e acordar numa hora
possível de dizer sim
um luminoso sim
e as marés
te olhassem nervosas
como se a palavra
ou o segundo
que tudo pode secar
te roesse a mão nua
e esse fosse
o instante da dor
ou o momento
de partir


deixa
que te durmam nos lábios
os velhos tambores
que te queimem os pés
as nuvens gastas
e que um outro lugar
rompa a areia do tempo
e rasgue o coração
como o céu do deserto
um lugar
que fosse como o ventre
dos sinos
e soasse almas sem lama
olhos sem raiva
que poisassem no mundo
sem o cegar

* - gil t. sousa -

2 de outubro de 2009