29 de setembro de 2009

A temperança das tuas enchentes...*

Ao amor que já não ama, lacera-se-lhe o coração em brasa, domam-se-lhe as rédeas no casquilho dos dentes. Um amor temeroso e efémero, porque um coração transita como os frutos de época. Um coice tardio na curva do peito, porque os seus tornozelos não suportam o fardo do corpo que ainda trilha as sendas do amor. O amor dito de palavra é açúcar nos ferrolhos da boca, amor adoçado nas gengivas como um beijo de campânula. Amor que sobra das palavras dorme ao relento de corpo purgado ao vento, escavacando as ervas-beldroegas com as suas garras de leão-persa. Aos olhos de um amor que ainda ama, a infinidade da noite é uma mentira eléctrica serpeando que nem enguia o choro das caldas de Cáspio. Aos meus olhos, o limbo da noite é estonteante e latente, dos olhos às mãos, e do peito à memória, uma âncora no céu-da-boca.

* - Alice Turvo, in "Férreos Transversais" -

Parabéns...




28 de setembro de 2009

Fim

faz-se tarde

e eu deixei de esperar-te.


todos os portos se fecham sobre mim

e a floresta adensa-se -

 

nenhuma clareira se abre à passagem dos

animais e do homem antigo.

 

são 4 horas na manhã de todos os relógios.


- José Agostinho Baptista -

Dizem por aí que o Verão acabou...


...que é oficial, que agora só para o ano, que já está mais do que na hora de começar a comprar as botas, o casaco comprido e o gorro para o frio que se avizinha...


...mas a verdade é que ainda há tardes assim!!!

Do I need an umbrella?!

26 de setembro de 2009

Era a fonte...


Ela é a fonte. Eu posso saber que é a grande fonte em que todos pensaram. Quando no campo se procurava o trevo, ou em silêncio se esperava a noite, ou se ouvia algures na paz da terra o urdir do tempo --- cada um pensava na fonte. Era um manar secreto e pacífico. Uma coisa milagrosa que acontecia ocultamente.  Ninguém falava dela, porque era imensa. Mas todos a sabiam como a teta. Como o odre. Algo sorria dentro de nós.  Minhas irmãs faziam-se mulheres suavemente. Meu pai lia. Sorria dentro de mim uma aceitação do trevo, uma descoberta muito casta. Era a fonte.  Eu amava-a dolorosa e tranquilamente. A lua formava-se com uma ponta subtil de ferocidade, e a maçã tomava um princípio de esplendor.  Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento perdeu-se e renasceu. Hoje sei permanentemente que ela é a fonte.
- Herberto Helder -