1 de setembro de 2009

Pra outro lugar, baby!



Vamos fugir
Deste lugar, baby
Vamos fugir
To cansado de esperar
Que você me carregue.

Vamos fugir
Pra outro lugar, baby
Vamos fugir
Pra onde quer que você vá
Que você me carregue

Pois diga que irá,
Irajá, Irajá
Pra onde eu só veja você,
Você veja-me só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum, outro lugar qualquer
Guaporé, Guaporé.
Qualquer outro lugar ao sol, outro lugar ao sul.
Céu azul, céu azul.
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu

Vamos fugir
Pra outro lugar, baby.
Vamos fugir
Pra onde haja um tobogã,
Onde a gente escorregue

Vamos fugir
Deste lugar, baby.
Vamos fugir
To cansado de esperar
Que você me carregue.

Todo dia de manhã
Flores que a gente regue
Uma banda de maçã
Outra banda de Reggae
To cansado de esperar
Que você me carregue.

31 de agosto de 2009

I just wanna feel...













...everything!!!

E então meu amor...

havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer

e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas

e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar

mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios

- Alice Vieira -

Tratamento anti-insónias!












Aqui, a ouvi-la...

27 de agosto de 2009

Summer day...


...being my sis!

O perfil do dia que passou...

Quando anoitece 
contorno no meu rosto 
o perfil do dia que passou 
e tudo o que não sou 
me contradiz. 

Quando anoitece 
atravesso um labirinto 
caiado de paixão, 
pretexto circular 
da minha fé. 

Quando anoitece 
faço emergir do abismo 
um instinto quase secreto 
e fujo da noite, 
em vertiginosa simetria com o vento, 
como se fosse um equívoco 
esperar a madrugada 
com a mesma lentidão 
de um acto íntimo. 

Contra um muro branco 
esta lonjura gémea do vento. 

Uma casa ou um regaço 
alternando a desordem 
de corpos molhados 
numa dicotomia simulada 
quando o prazer 
é o reflexo nítido 
de um coágulo de azul 
queimado sobre madrepérolas. 

São corais que no fundo da água 
não quebram as vagas silvestres. 

Nasci agora 
enquanto uma andorinha 
baloiçava no espelho 
atravessado de pólen. 

Sou, sílaba por sílaba, 
o luto ou a negação 
de desumanos deuses. 

Quando anoitece ... 

- Graça Pires -

26 de agosto de 2009

Aspiramos à alta liberdade...

A matéria das palavras
Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes. 
É a hora do infinito desacerto-acerto.  

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras 
matéria insensível de um poder esquivo.  

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação. 
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.  

Aspiramos à alta liberdade 
um bem sempre suspenso que nos crucifica.  

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos 
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.  

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma                                                                         
perfeição especialista em fracassos.  

Estrangeiros sempre 
agudamente colhemos os frutos discordantes. 

- Ana Hatherly -