2 de julho de 2017

O tempo cobre o chão de verde manto*


Este cantinho trouxe-me muito mais do que alguma vez poderia ter sonhado. Trouxe-me pessoas, acima de tudo. Seres que me fizeram sentir menos sozinha e não descurar a confiança em mim mesma. Almas idênticas, que me ajudaram a sentir menos deslocada neste mundo, ensinando-me a aceitar as minhas diferenças, a vê-las como uma mais-valia e nunca como um defeito. Outras que, de tão diferentes de mim, me fizeram colocar perguntas, sobretudo a mim própria, enriquecendo-me de uma forma que levarei sempre comigo. 
Quando a minha vida mudou de forma substancial, obrigando a uma mudança de país e de rotina, este blogue viu-se abandonado de forma abrupta. Por falta de tempo, primeiramente. Mas também por não ter a certeza se queria continuar por aqui, se se justificava manter um blogue - sobretudo um blogue sem agenda, escrito a um ritmo descompassado, sem particular interesse para os demais. 

Sempre escrevi para mim mesma, em primeiro lugar. Como uma forma de disciplina e enquanto auxiliar de memória: de sentimentos, de lugares visitados, de experiências vividas, mas também de partilha de livros, filmes e músicas que de alguma forma me tocaram, de pequenas histórias. 
E é essa partilha que me interessa. Porque, mais do que qualquer outra coisa, sou uma contadora de histórias - através de palavras, de fotografias, da forma como organizo e decoro a minha casa (a minha casa física, onde habito, mas também esta casa cibernética, por onde sempre permiti que habitassem os meus sonhos), da maneira como me relaciono com as pessoas e com os lugares. 

Nesta fase da minha vida, ter um blogue faz-me cada vez mais sentido. Porque preciso de escrever, de partilhar o que estou a viver, a ver e a sentir. Preciso de escrever na minha língua materna, enquanto exercício de organização mental e sentimental, até. É uma necessidade quase física, assim como precisarmos de ar para respirar. 

Não sei a quem possa interessar o que irei escrever. Talvez alguém se reveja na partilha e sinta necessidade de interagir, de partilhar algo de volta. Ou apenas ler em silêncio.
Sei que irei continuar a escrever e a contar histórias - pela tal necessidade física e mental, porque sou isso que sou, porque me faz uma falta tremenda. 

Pensei muito se deveria continuar a fazê-lo aqui, neste lugar que terá para sempre um cantinho especial no meu coração. Sabia que queria manter o nome, fosse qual fosse a decisão. Decidi-me pela mudança de casa, de forma a assinalar as grandes alterações na minha vida neste momento.

Assim, a partir de hoje estarei aqui:  Serendipity - London Edition

A mesma Mar de sempre, em constante mudança. 

Vêmo-nos por lá!
*Luis Vaz de Camões

25 de março de 2015

Um bocadinho de mim II.

Antes de mais, uma confissão: não sou grande fona (como diria a minha querida Teresa Margarida) deste tipo de desafios - prende-se, sobretudo, com o facto de achar sempre que tenho muito pouco de interessante a contar. No entanto, há pouco mais de um ano, fui desafiada pela Raquel a desvendar um pouquinho sobre mim e até achei piada ao exercício (podem encontrar o resultado aqui). Desta vez, o desafio partiu desta miúda - ora, acontece que eu gosto mais da S. do que de chocolate belga e um pedido dela é uma ordem!

11 coisas sobre mim:

  • Estou a caminho dos 35 anos e só agora me começo a encontrar.
  • Gosto cada vez mais de uma boa conversa e tenho cada vez menos paciência para conversas de chacha.
  • Ando viciada em m&m's de manteiga de amendoim. 
  • Choro de cada vez que vejo esta cena, ouço este fado, qualquer boa interpretação desta canção ou este momento. Todas as vezes. Sem excepção. (Ainda bem que ninguém me consegue ver neste momento.)
  • Tenho uma paixão imensa por cavalos e muitas saudades de montar.
  • Um dia ainda vou voltar a ter aulas de piano e gostava muito de aprender a tocar guitarra portuguesa. 
  • Percorro enormes distâncias a pé sem me cansar e um dos meus maiores prazeres é deixar-me perder pelas cidades que vou conhecendo.
  • Sinto falta de um maior contacto com a Natureza e ando à procura de formas viáveis no meu dia-a-dia para minorar esse sentimento.
  • Gosto de ter flores frescas espalhadas pela casa, mesmo que seja apenas um raminho de flores silvestres apanhado nos terrenos baldios das redondezas.
  • Para mim, há poucas coisas melhores e mais reconfortantes do que um abraço apertado. A confiança e a entrega existentes nesses momentos são algo que me emocionará sempre.
  • Gosto mesmo muito desta coisa de ser tia. 

As perguntas da Merenwen aka minha S. :

Viagem da tua vida, qual e porquê?

A que já fiz: o Interrail com a Pequenina. Era um sonho antigo, superou todas as expectativas e renovou-me a certeza de que nunca é tarde demais para nada nesta vida. 

A que quero muito fazer: a tal volta-ao-mundo há tanto sonhada, planeada, ansiada. É algo que eu sei que se vai concretizar, nem que seja quando eu tiver 80 anos. 

A propósito disto de viagens e de muito mais, se ainda não conhecem a Carla R. não sabem o que têm estado a perder. Já gostava muito da Carla antes dela e da família terem embarcado nesta aventura e é um prazer cada vez maior lê-la - é das vozes mais refrescantes e desempoeiradas da blogosfera.

Uma memória de Infância?

As idas para a praia (Miramar) com os meus avós e os Verões passados em Trás-os-Montes. Falei um pouco dessas memórias aqui


O teu maior medo?

Perder aqueles que amo e que a minha cabeça me atraiçoe antes do meu corpo - ainda não consegui ver o Still Alice por isso mesmo, é algo que mexe mesmo muito comigo.

Amor para a vida inteira, é possível?

Continuo a acreditar que sim, é possível, embora ache que não é para todos. Há quem tenha a sorte de amar e ser amado pela mesma pessoa uma vida inteira, há quem ame várias pessoas ao longo de uma vida e há quem nunca tenha a possibilidade de sentir essa magia, sobretudo de forma recíproca. O porquê de ser assim, não faço a mínima ideia. Não há certezas nem verdades absolutas no Amor, cada um tem a(s) sua(s) história(s) - and I'm a sucker for a good love story!


Acreditas em destino e no que tem que ser tem muita força, ou somos nós que fazemos o nosso caminho?

Ambos os dois ao mesmo tempo e agora! Ou seja, acredito que há coisas inevitáveis no nosso caminho, marcos ou obstáculos que temos que enfrentar e ultrapassar. Agora, a forma como o fazemos está (quase) inteiramente nas nossas mãos - acredito que somos os últimos responsáveis por aquilo que nos acontece. Havia sempre a possibilidade de fazer diferente ou seguir outro caminho. Não é fácil, a vida consegue ser bem tramada, mas isso é outra história. 

Se alguém sentir vontade de fazer o desafio, pode responder às perguntas da Merenwen ou às que eu deixei no outro desafio - depois deixem o link para as vossas respostas na caixa de comentários, se estiverem para aí virados ;)

4 de março de 2015

Resumo deste Inverno e um prenúncio de Primavera



- quanto mais vou conhecendo outras famílias mais tenho a certeza de que, afinal, a minha não é assim tão disfuncional;
- as doenças do foro psiquiátrico são ainda um enorme tabu e padecem de grandes preconceitos na nossa sociedade;
- ajudar alguém que tem um fascínio tremendo pela morte - vendo nela não apenas a única solução para todos os problemas mas a melhor, a mais ansiada solução, a agarrar-se à vida, é das coisas mais difíceis que tenho feito; 
- quem sou eu para achar (julgar?) que os problemas de outra pessoa não são suficientemente grandes e dolorosos, ao ponto de a morte parecer ser a única solução, mesmo que essa pessoa tenha (aparentemente) o essencial (e muito mais do que isso, comparativamente) para poder ter uma vida tranquila e feliz?
- o facto de duas pessoas adultas serem incapazes de ter uma conversa civilizada, sobretudo quando têm filhos em comum, é algo que nunca irei conseguir entender;
- a desresponsabilização, o fechar os olhos, o deixar andar - e ainda assim querer que tudo se resolva, como que por artes mágicas;
- o passeio matinal até à escola pode e deve ser um dos pontos altos da vida de qualquer criança; os passarinhos, a fonte no jardim e as gaivotas nos telhados transformam qualquer dia cinzento num dia bem mais luminoso;
- o sol que nos inundou o quarto de luz e calor esta manhã; o gato a dormir no telhado; as árvores a florir; o chilrear dos pássaros; o azul límpido do céu; ela e a galinha de mãos dadas comigo; 
- o campo que avisto da minha janela coberto com um tapete de pequenas flores amarelas;

- o meu sobrinho, cada vez mais pestanudo, enorme, quase a completar a sua primeira volta ao Sol.

10 de fevereiro de 2015

Lorca a duas vozes.

Os rios que eu encontro vão seguindo comigo.*




Water does not resist. Water flows. When you plunge your hand into it, all you feel is a caress. Water is not a solid wall, it will not stop you. But water always goes where it wants to go, and nothing in the end can stand against it. Water is patient. Dripping water wears away a stone. Remember that, my child. Remember you are half water. If you can't go through an obstacle, go around it. Water does.


- Margaret Atwood, in The Penelopiad -

* João Cabral de Melo Neto

7 de janeiro de 2015

Good morning, starshine. The earth says "hello"!




Estou viva. Exausta, porém viva e com imensa vontade de voltar a este pequeno cantinho. 

2014 não foi um ano fácil, como os seus antecessores também já não haviam sido. No entanto, nem tudo foi mau, muito longe disso. Se me pedissem uma palavra, apenas, para resumir o ano que terminou, não hesitaria: Luis. O sobrinho que me fez tia de primeira viagem e que é a criatura mais adorável deste mundo e arredores. É ele que, todos os dias, nos renova as forças para seguirmos em frente, não nos deixando esquecer o que realmente importa - o amor, a verdadeira força que faz girar o mundo. Tudo o resto é conversa. 

É com esta certeza que encaro este novo ano. Venha o que vier, é pelo amor que devemos ir: o amor uns pelos outros, pelos nossos sonhos e paixões, por nós próprios. Mesmo que isto vos pareça o maior cliché de sempre, acreditem, não é.

8 de outubro de 2014

A liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo.

Somatório estival #2
















Jardins do Palácio de Cristal, Porto - Verão de 2014

A chuva dança com o vento junto à minha janela, o país tem várias zonas sob aviso laranja e a meteorologia volta a estar na ordem do dia, não apenas nos serviços noticiosos como nas conversas de café, nos intervalos para cigarro e nas viagens apinhadas nos transportes públicos. 
Cá dentro, procuro arrumar a vida e tento encaixar horários e acertar agendas, como se de um puzzle se tratasse. O Verão já lá vai, as ruas da cidade começam a cheirar a castanhas assadas e os dias notam-se bem mais curtos. Tudo começa a pedir um certo recolhimento, mas a mim ainda me apetece luz, sol e muito ar livre - nem que seja através de fotografias.

7 de outubro de 2014

Come mi manca questa ragazza*


Paris, há demasiado tempo atrás. 

Ela faz-me falta, muita. Todos os dias e das mais diversas formas. Há amizades assim, que sobrevivem à distância, às conversas e às partilhas diárias. Mesmo que só consigamos pouco mais do que um café por ano (os deuses hão-de ser justos e começar a trabalhar a nosso favor nesse aspecto!), a S. é daquelas pessoas para sempre. 
Gosto do carinho que tenho por ela. É daqueles sentimentos bons que nos aquecem a alma. Vibro com as conquistas que vai alcançando, entristeço-me quando sei que as coisas não correm como queria, preocupo-me quando a sinto mais em baixo. Nem sempre sou a melhor das amigas e já lhe falhei muito - a vida não é uma linha recta e eu perco-me demasiado nas curvas, não conseguindo, por vezes, focar-me no que é verdadeiramente importante. Talvez não lhe diga o suficiente o quanto gosto dela, os dias vão-se somando impiedosamente e vamos sendo engolidos por esta montanha-russa constante que é as nossas vidas. No entanto, estou aqui e estarei sempre. De preferência a vê-la sorrir. Aquele sorriso enorme que enche o mundo - e o mundo é dela.

Pequenas coisas que melhoram a (minha) vida.




MpB - Música Portuguesa Brasileira, um documentário de Pierre Aderne.

25 de setembro de 2014

A série do (meu) Verão.



Amo tudo. Vi a primeira temporada ainda durante o Inverno e as novas aventuras da segunda temporada vieram dar um colorido diferente a muitas horas do meu Verão. 

Ri, chorei, chorei a rir e aguardo ansiosamente o que a terceira fornada de episódios nos reservam. 

Se ainda não viram. não sabem o que andam a perder. Corram, pá!

Love them all!

23 de setembro de 2014

Somatório estival #1














Vila do Conde - Verão de 2014

O Verão que ontem terminou não foi um Verão prodigioso, em muitos aspectos, a começar pelo clima. Foram meses algo atípicos, São Pedro falhou-nos em muitos pontos e os meses foram passados na expectativa de dias mais quentes, soalheiros e luminosos.

Paralelamente, a minha vida continuava em suspenso e também eu aguardava dias melhores. Setembro chegou com uma esperança renovada e a possibilidade de um futuro um pouco mais estável, mesmo que a curto prazo - para já. 

No entanto, nem tudo foram dias cinzentos durante esta última época estival. Ficaram muitas lembranças boas e dias felizes. Partilharei aqui alguns desses momentos, aqueles que mais me ajudaram a recarregar baterias, através de pequenos instantes fotográficos. Para recordar ao serão, como diria a minha avó Aninhas. 

Outonando*


Uma lâmina de ar

Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.

- Joaquim Pessoa -



O Outono foi-me uma aprendizagem longa e complicada, assim como aquelas matérias de escola que simplesmente não conseguia apreender e encaixar. O Outono, durante demasiado tempo, não me fazia sentido. Tudo nele me era estranho, adverso e significava o fim dos dias quentes e longos de Verão, a minha estação do ano - e é minha não apenas por ser filha de Agosto, mas, acima de tudo, por respirar infinitamente melhor a partir da Primavera e ser mais eu mesma durante os meses estivais. Sem máscaras ou capas. Como se as camadas infindáveis de roupa que somos obrigados a usar durante a época mais fria do ano me servissem de armadura e me ajudassem a esconder-me um pouco mais do mundo. 

De há uns anos para cá, no entanto, o Outono deixou de ser um sacrifício e passou mesmo a ser uma época ansiada, passadas as primeiras semanas de Setembro. Consigo observar e entender todo o seu esplendor. Aprendi a vivê-lo o melhor possível e a abraçar tudo de bom que tem para nos oferecer. Já não me é tão estranho e desconfortável. Até mesmo os dias graníticos de Inverno me são menos pesados, agora que o frio e sobretudo a falta de luz, me são menos difíceis de suportar. 

O Verão, contudo, fica-me colado à pele e à alma o ano inteiro. Vou revivendo instantes e momentos felizes a cada raio de sol ou quando mergulho bem fundo na minha memória afectiva, a fim de ultrapassar dias mais cinzentos e gelados. Revejo fotografias dos dias estivais e das aventuras, mais ou menos pequenas, que vou coleccionando durante os dias mais longos e leves do ano, para ir recordando sempre que o coração aperta de saudades. Faço flashbacks mentais quando tudo se torna demasiado para a minha pele e os meus ossos aguentarem sem dor e esforço. Fecho os olhos e imagino-me na praia, naquela hora dourada de um fim de tarde quente e com cheiro a maresia, gelados e língua-da-sogra.

*Este post foi agendado para publicação, simbolicamente, às 3h29 desta madrugada, o momento exacto do Equinócio de Outono. Marca o início de uma nova estação e de um novo header aqui no blogue - a pena, por sua vez, vem simbolizar uma nova fase na minha vida, um recomeço que se quer mais leve, mais colorido, bem como um desejo de voar cada vez mais longe.

10 de setembro de 2014

No ciclo eterno das mudáveis coisas*






Porto, Amarante, Lisboa, Angeiras - Verão 2014


Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.

- Clarice Lispector, in Um sopro de vida -


Regressei, como prometido, com a luz dourada de Setembro. Volto com a esperança renovada, com novidades e uma vontade imensa de sugar a vida até ao tutano. O medo existirá sempre, assim como o meu mar, eterno porto de abrigo e guardião de sonhos. É nele que deposito todas as minhas angústias, com a certeza de receber em troca a calma necessária para seguir em frente. 

Falta-me ainda o meu Reino Maravilhoso, neste Verão que se vai despedindo a cada pôr-do-sol dourado. Se o mar é a minha bússola, Trás-os-Montes é o meu astrolábio - ambos são essenciais ao norteamento da minha vida.


*Ricardo Reis

1 de julho de 2014

Colhe o dia, porque és ele*



Foz do Douro

Até já. Vou encher-me de mar, de sol, tempo, livros, música, filmes noite dentro, melancia, gelados, granizados e abraços. Vou arrumar gavetas, reais e mentais. Vou destralhar e descomplicar a (minha) vida. O futuro quer-se leve, o caminho avizinha-se longo, ainda que esperançoso. Vou preparar-me para o salto - não no vazio, mas no sonho, esse, que não me larga o consciente e o inconsciente. 

Volto com a luz dourada de Setembro. Menos enigmática, mais verdadeira e autêntica, que os medos serão todos deixados no fundo do mar. 

*Ricardo Reis

29 de junho de 2014

☀︎

Sou filha do mar e dos dias longos de Agosto. Vi o mundo dez dias depois do que era suposto, embalada que estava pelas ondas do mar frio e batido do norte, naquela mesma praia que iria povoar todo o imaginário da minha infância - Miramar. A minha mãe fez praia até à última, saltando ondas na zona da rebentação e deixando que muitas se desfizessem na sua barriga cheia de mim, para grande preocupação do meu tio Alfredo, que dizia que eu ia nascer ali mesmo, no sítio onde o mar enrola a areia, num abraço que tão bem conheço. Sou também filha do luar quente que cobre com um manto aveludado as terras transmontanas nas noites infinitas dos meses estivais - saí do mar para os montes, cheirando aquele aroma inconfundível que só quem se atreve para lá do Marão reconhece, com apenas quinze dias de vida. Atravessei os montes num 2Cavalos, numa viagem que marcaria irremediavelmente a bifurcação do meu coração: não vivo sem o mar e sou mais eu naquelas terras altas que teimam em beijar as estrelas mesmo quando o céu se enegrece, deixando-nos com a sensação de estarmos a ser sufocados pelo testo do mundo. 
Talvez por tudo isto sou incomparavelmente mais plena e mais tranquilamente feliz nos dias quentes, quando estou perto do mar ou naquele recanto a nordeste do país. Gosto do calor moleza que se nos cola à pele e à alma, deixando-me mais leve como a roupa que me cobre o corpo. Gosto de lavar pátios e varandas em noites quentes, molhando os pés com a mangueira e recordando os banhos da minha infância no jardim de casa dos avós. Gosto de melancia gelada a qualquer hora do dia ou da madrugada, em talhadas generosas ou em bolas de sorvete. Gosto da luz dos dias de Verão, daquela película quente que cobre o horizonte e do ar abafado das cidades quase desertas. Gosto de poder andar de havaianas ou sandálias quase o tempo todo, de sentir o sol e o vento na pele mais sensível dos pés. Gosto de dias inteiros na praia, intervalados nas horas proíbitivas de calar com sestas à sombra e jogos de cartas. Gosto de ler deitada na areia quando a praia está apenas suficientemente cheia, de forma a que o ruído em volta não me desconcentre a leitura. Gosto de chá de gengibre gelado com hortelã, de refresco de café e limão e de limonada acabada de fazer, adoçada com açúcar amarelo. Gosto de cerejas mergulhadas em cubos de gelo, de meloa como entrada de uma refeição, de ameixas de todas as qualidades e de melões bem maduros. Gosto de colher framboesas, amoras e groselhas e de apanhar uma barrigada delas, ainda quentes e a saber a sol e terra. Gosto de andar descalça, em todo o lado, de sentir o frio da tijoleira, a humidade da relva, a areia a escaldar, a terra seca, o chão dos pátios e alpendres banhados de sol. Gosto de dormir de janela aberta a noite inteira, da brisa suave que vai chegando com a madrugada. Gosto do facto de me apetecer tomar banho a qualquer hora do dia e da noite, sem receio do frio que sei que não vou sentir. Gosto do tonzinho dourado que a minha pele adquire lá para finais de Setembro, apenas aquela leve pincelada de pós terra e dourados, independentemente do número de dias em que tiver feito praia. Sou filha do sol, mesmo que o meu tom de pele e a cor dos meus olhos aconselhassem climas mais nórdicos. 
Nestes dias mais soalheiros e compridos, o meu raciocínio fica mais lesto, a minha imaginação mais fértil e a minha capacidade de concentração mais alargada. Por muito que me tenha habituado a gostar do Outono e do Inverno - e foi um esforço conseguido, sendo já capaz de desfrutar tudo o que de bom essas duas estações do ano nos têm para oferecer, serei sempre uma criatura mais solar, cujas baterias só se recarregam plenamente entre Abril e Outubro. No resto do tempo, faz-me falta a luz nas suas várias tonalidades, como só os dias de Primavera e Verão têm. Morro de saudades do cheiro das flores e da terra, do canto dos pássaros, das borboletas coloridas dos jardins. Sinto falta dos passeios à beira-mar nas noites insuportavelmente quentes, quando só a brisa marítima nos consegue refrescar. 
Nos verões da minha infância, tenho quase a certeza que os relógios todos paravam. Os dias eram mais lentos e a nossa noção de tempo quase uma sensação infinita. A canícula e a terra agarrada à pele eram lavadas em tanques de rega, com água de furos e muitas brincadeiras à mistura, numa alegria contagiante que nenhuma piscina conseguia igualar. Os piqueniques, na praia, à beira-rio ou onde a vontade ditasse eram uma constante, faziam-se farnéis e enchiam-se geleiras com uma precisão e rapidez quase militar, embora tudo o resto fosse de uma descontração que ainda hoje me comove. Estendiam-se mantas à sombra de oliveiras, de sobreiros e de figueiras. Faziam-se fogueiras para churrascos improvisados onde fosse preciso ou para fazer batatas à espanhola num panelão enorme, capaz de alimentar uma messe inteira. Saíamos de casa de manhã e aparecíamos à hora das refeições para voltar a desaparecer logo de seguida e só retornar com a lua bem alta ou íamos telefonando de casa de vizinhos e amigos a avisar que comíamos por ali mesmo, que não contassem connosco até à noitinha. Não tínhamos telemóveis. Se por acaso ninguém atendesse o telefone fixo, havia um voluntário forçado que ia dar o recado ao primeiro adulto que encontrasse. Improvisávamos Jogos Sem Fronteiras nas ruas, nos pátios ou nas hortas, dependendo do que estivesse mais à mão. Comíamos casadinhos de queijo e marmelada, pão com tabletes de chocolate que a tia Maria trazia no fundo das malas quando regressava da França, fruta colhida directamente das árvores e legumes colhidos por nós na horta. Andávamos de tractor em condições de segurança que poriam os cabelos em pé a muita gente nos dias que correm, mas não éramos inconscientes e sabíamos que os mais velhos estavam responsáveis pelos mais novos e éramos um por todos e todos por quem precisasse de nós. Dormíamos sestas deitados em cima de sacos de batatas e fardos de feno, nas escadas da tia Freire quando o sol virava para a curtinha ou em qualquer lugar onde a sombra fosse maior que o nosso corpo. A avó preparava-nos lanches no alpendre, bebíamos leite frio com groselha ou Suchard Express em copos altos e comíamos bolachas compradas nas Paquitas, em Alcañices. Havia muitos incêndios e sabíamos o significado dos vários toques da sirene dos bombeiros de cor. Íamos de jipe ou de tractor ajudar a apagar os fogos, levávamos leite, água, bolachas e fruta para os bombeiros exaustos. Corríamos as festas populares e romarias de todas as terrinhas em volta, não perdíamos uma procissão, um fogo-de-artifício ou um bailarico. Comíamos Posta à Mirandesa assada na brasa debaixo de um sol implacável e um bailado de moscas, terra seca e palha que paira pelo ar do planalto mirandês nos dias quentes de Setembro, ignorando todas as regras de higiene, numa das mais bonitas romarias que conheço - as festas em honra de Nossa Senhora do Naso ou o Naso, simplesmente. Encenávamos espectáculos de variedades ao fundo da rua cortada temporariamente ao trânsito para esse efeito: o palco era o largo entre a casa do Tomé e da tia Freire, o pano de cena uns lençóis velhos emprestados pelas avós, o guarda-roupa eram todos os disfarces de Carnaval de anos anteriores e os assaltos consentidos a guarda-fatos e baús da família, a plateia era composta por bancos de traves de madeira feitos por nós, assim como o Bar, onde o Tó vendia, ao intervalo, o café, a limonada, as cervejas e os bolinhos feitos entre todos. O público crescia de ano para ano e chegamos mesmo a ter quem viesse de fora propositadamente para nos ver actuar. A receita da bilheteira e do bar era depois canalizada para fins vários: um ano enfeitamos a igreja toda com flores muito bonitas para as festas da vila, noutro mandámos fazer uma tampa para o poço que há logo à entrada da Capela de Pereiras e onde já várias pessoas tinham caído, nos restantes foi entregue à paróquia para o que mais fizesse falta e no último oferecemos um jantar a todas as pessoas que nos tinham ajudado ao longo de tantos anos de aventuras, maluquices e sonhos alcançados. 
Sou filha do Verão - do primeiro, que me viu nascer e de todos os outros que se seguiram e me tatuaram a personalidade, o feitio, as emoções e o pensamento, de uma forma que mais nenhuma outra época do ano conseguiu. Serei sempre daquele mar frio de Miramar, das rochas onde raspávamos lapas para o arroz que jantaríamos à noite, das pocinhas onde dei as primeiras braçadas, das algas com que o avô me cobria e massajava as costas, dos gelados, das batatas fritas e das línguas da sogra que comi naquele areal. Os concursos de capitais de países do mundo inteiro, a Barca Chica Chica cantada vezes sem conta, as viagens para a praia no Santana descapotável, as jipadas por entre montes e vales mais ou menos desconhecidos e todas as memórias estivais farão para sempre parte da minha geografia sentimental e moldaram-me de uma maneira perpétua, contribuindo, nada paradoxalmente, para a minha forma de ver o mundo, para o meu espírito de eterna viajante e para uma abertura de pensamento que tento não descurar nunca - o ser humano é tão profundo, rico e diversificado como as águas dos oceanos e quero mergulhar cada vez mais nesse mundo riquíssimo que somos cada um de nós.